Neschling no Municipal: primeiro desafio será imbróglio administrativo

Neschling no Municipal: primeiro desafio será imbróglio administrativo

João Luiz Sampaio

02 de janeiro de 2013 | 10h00

E não é que o ano começou agitado, com a divulgação ontem da nomeação de John Neschling como diretor artístico do Teatro Municipal de São Paulo? A notícia foi dada pelo colega Irineu Franco Perpetuo, na Folha de S. Paulo; à tarde, após a cerimônia de posse do prefeito Fernando Haddad, o secretário Juca Ferreira disse ao repórter João Fernando, aqui do “Caderno 2”, que não confirmava a nomeação. “Estou chegando, não tenho condições de confirmar nada. Nem tive a primeira reunião com o prefeito”, disse. Ainda assim, pessoas ligadas ao maestro, falando com a condição de anonimato, garantem sua nomeação: ele está na Europa e volta no começo da semana que vem a São Paulo, quando terá sua primeira reunião de trabalho com Ferreira e o prefeito. Em meio a tudo isso, escrevi um pequeno texto sobre os desafios do novo diretor. Para quem ainda tiver estômago nesse começo de ano, lá vai.

A escolha do maestro John Neschling para dirigir o Teatro Municipal carrega a expectativa de que, agora no universo da ópera, ele possa repetir a reestruturação realizada na Osesp, responsável pela redefinição da cena sinfônica brasileira. Ainda assim, os contextos que ele encontrou na orquestra, no final dos anos 90, e vai encarar agora no Municipal são diferentes.

Em 1997, a Osesp era uma orquestra maltratada por anos de falta de apoio e incentivo, acabara de perder um diretor carismático e respeitado, o maestro Eleazar de Carvalho, não tinha sede própria e nem mesmo todas as vagas preenchidas. O Teatro Municipal, por sua vez, vem de três sólidos projetos artísticos: Ira Levin reciclou o repertório da companhia; Jamil Maluf investiu em cantores brasileiros e em trabalhos de infraestrutura, com a construção da central técnica de produção e a reforma do palco e do prédio; e Abel Rocha, por sua vez, investiu em uma linha de vanguarda de encenação.

Neschling herda um teatro reformado, com um palco de tecnologia moderna e, mais do que isso, a Praça das Artes, enorme complexo cultural que vai abrigar salas de ensaio para os corpos estáveis do teatro, liberando o palco para espetáculos, além de biblioteca, salas de concertos (como a do antigo Conservatório Dramático Musical) e as escolas municipais de bailado e de música. Trata-se, em outras palavras, de um complexo que pode ganhar importância comparável no cenário cultural à Sala São Paulo. O que não quer dizer que não haja muito a ser feito do ponto de vista artístico – a Sinfônica Municipal, por exemplo, orquestra profissional do teatro, ainda apresenta desempenho irregular, longe do que se espera dela.

Mas o maestro recebe também uma outra herança, essa relativa à questão administrativa, que evoca os fantasmas que foram responsáveis pela interrupção precoce dos projetos artísticos de Levin e Maluf: a busca por um modelo profissional de gestão. Em 2012, foi aprovado o projeto que transforma o Teatro Municipal em uma fundação de direito público. Mas a fundação não foi instituída oficialmente: a Secretaria Municipal de Cultura não encontrou oficialmente uma organização social interessada em realizar sua gestão.

Com isso, o teatro vive hoje em uma espécie de limbo administrativo, sem que os artistas possam ser contratados por CLT, o que se resolveu, neste início de ano, com a assinatura de contratos provisórios de trabalho. Além disso, o ex-prefeito Gilberto Kassab nomeou, há três semanas, Bia Amaral, diretora do Municipal durante boa parte de sua gestão, como diretora geral da fundação, o que causou surpresa no meio musical paulistano. Esta nomeação será mantida? John Neschling trabalhará com ela? O formato de fundação será mantido? A contratação de John Neschling é um passo importante, e tem tudo para voltar a agitar a cena musical brasileira. Mas isso só poderá acontecer na medida em que forem encontradas respostas a essas perguntas.

Tendências: