Neschling deixa a Companhia Brasileira de Ópera

Neschling deixa a Companhia Brasileira de Ópera

João Luiz Sampaio

04 de janeiro de 2011 | 16h00

Marcio Scavone/Divulgação

O maestro John Neschling acaba de anunciar que está deixando a Companhia Brasileira de Ópera, criada por ele e José Roberto Walker há um ano, com o objetivo de percorrer o país com produções itinerantes. “A experiência que tive durante o ano de 2010 com o Barbeiro de Sevilha e a Companhia Brasileira de Ópera foi rica, estimulante, e também difícil o suficiente para que eu, por diversas vezes, pensasse em me afastar do projeto. Ao chegar ao fim dessa grande aventura, depois de 89 récitas Brasil afora, resolvi que chegou o momento de me dissociar radicalmente do prosseguimento deste trabalho. No ano de 2011, a Companhia Brasileira de Ópera, se continuar existindo, não terá mais nada a ver comigo, tanto do ponto de vista administrativo – que, aliás, nunca foi responsabilidade minha – quanto do ponto de vista artístico”, diz Neschling em seu blog.

Escreve o maestro: “Sem sede e lutando constantemente contra a paralisante e insensível burocracia estatal, conseguimos chegar ao fim da temporada com sucesso. Porém o resultado não foi o que eu havia sonhado no início. As restrições e dificuldades executivas e de produção que enfrentei durante esta fase limitaram o resultado artístico e a nossa capacidade de criação, e, se a relação custo/benefício do projeto foi generosa e saudável, a relação esforço/resultado deixou muito a desejar. Não tenho dúvidas: da forma como o “Barbeiro de Sevilha” foi executado nessa primeira fase, a Companhia não terá condições de sobreviver dentro dos parâmetros de qualidade e eficiência que me propus ao idealizar o projeto. Uma Companhia de Ópera com as características que imaginei é ilusória se tiver que ser mantida pelo setor privado, da mesma forma como seria ilusório o Estado de São Paulo decidir privatizar a OSESP, renunciando ao seu dever de patrocinador e mantenedor principal da instituição. O investimento num projeto desse porte é altíssimo e o retorno não pode ser medido em termos de lucro financeiro, como numa empresa privada. Além disso, a política de incentivos fiscais no Brasil não é adequada a esse tipo de empreendimento. É preciso parceiros institucionais que compreendam a magnitude, o alcance social e o conseqüente ganho a longo prazo. Imaginei que após o primeiro ano de atividades, a continuidade do projeto pudesse ser assegurada pela criação de uma estrutura estatal estável. Era esse o projeto que norteou a minha parceria com o Ministro Juca Ferreira. Nesse momento não há nenhuma segurança nem indicação de que o meu projeto seja ainda uma das prioridades na política cultural do novo Governo. No nosso País inexiste, infelizmente, uma prática que se possa definir como política cultural, e muito menos uma continuidade dessa prática.É por esta razão que decidi me dissociar da empresa criada para abrigar a Companhia de Ópera”

Depois de criticar gestões culturais e a programação de alguns dos principais teatros do País, Neschling se diz contente com a “bonança econômica” vivida pelo Brasil, mas faz ressalvas. “Numa reflexão mais ampla, toda essa discussão ganha outra dimensão: é bom saber que o Brasil encontra-se numa fase de bonança econômica, a euforia que encontro ao ler as declarações de nossos dirigentes, os indicadores econômicos, da construção civil, do aumento do nível de emprego e do consumo parecem nos embalar num presente confortável e num futuro de fartura. Fala-se com orgulho no aumento das aquisições da “linha branca”. Todos correm atrás de seus novos eletrodomésticos. Mas não percebo na sociedade um desejo paralelo de crescimento cultural.”

Neschling descarta a possibilidade de realizar algum trabalho no País nos próximos tempos. “ Sigo imaginando formas de produzir ópera de qualidade, com uma relação custo/benefício generosa e que empregue de forma constante e segura um grande número de artistas e técnicos na produção de títulos interessantes. Porém para isso, terei que esperar por novas oportunidades e estabelecer novas parcerias em termos estruturais para colocar em prática um trabalho consequente e de longo prazo (…) Parto para Europa, pela primeira vez, desde 1997, só com a passagem de ida.” Não se sabe qual o futuro da Companhia Brasileira de Ópera, que já estava em suspenso desde a saída de Juca Ferreira, grande apoiador do projeto, do Ministério da Cultura.

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