Neschling anuncia oito óperas para o Municipal em 2014; “Anel” de Wagner é interrompido

João Luiz Sampaio

16 de julho de 2013 | 16h46

O maestro John Neschling anunciou no começo da tarde de hoje a temporada de óperas do Teatro Municipal de São Paulo para 2014. Serão oito títulos e a programação começa em março, com “Il Trovatore”, de Giuseppe Verdi. Segundo o maestro, a temporada mantém a intenção de ter no teatro uma agenda de títulos de diversas nacionalidades e períodos. A ausência principal é “Siegfried”, que completaria o projeto atualmente em curso no teatro de montagem da tetralogia “O Anel do Nibelungo”, de Richard Wagner. “Isso não quer dizer que abandonamos o projeto do Anel aqui no Municipal, ele será completado”, diz Neschling. “Mas como diretor artístico, me pareceu importante nesse momento me dedicar a outros títulos dentro do repertório alemão.”

Neschling se refere a “Salomé”, de Richard Strauss, que será regida por ele e terá direção cênica da brasileira Lívia Sabag. Para 2015, ele fala na possibilidade de produzir outro Wagner: “Tristão e Isolda”. “É um sonho antigo fazer aqui uma produção de qualidade do Tristão, que está há tantas décadas longe do palco do Municipal, mas isso ainda está em negociações”, disse, afirmando que outra opção seria o “Siegfried”. As outras óperas do ano serão: “Falstaff”, de Verdi; a dobradinha “Cavalleria Rusticana”, de Mascagni e “I Pagliacci”, de Leoncavalo (ambas regidas por Ira Levin, que fará seu retorno ao Municipal depois de deixar a direção da casa, em 2004); “Tosca” e “La Bohème”, de Puccini; “Cosi Fan Tutte”, de Mozart; “Carmen”, de Bizet. Para os próximos anos, ele fala de títulos como uma ópera inédita de Francis Hime e mais títulos de Mozart e de Puccini, como “Manon Lescaut”, e a “Fosca”, de Carlos Gomes.

“O objetivo é criar uma história de produções para o Municipal e formar um novo público. O teatro precisa ter montagens próprias do grande repertório, de obras como ‘Aida’, que vamos fazer este ano, ou Tosca. No final de 2013, por exemplo, teremos ‘Bohème’ e ela voltará no ano que vem, com elenco todo nacional. É dessa rotina de produção que precisa o Municipal”, disse o maestro, que anunciou ainda que mudanças serão feitas na central de produção da casa que, hoje, segundo ele, não consegue comportar adequadamente as produções realizadas. “Precisamos de um galpão maior que possa armazenar o material dessa nossa ‘Aida’, por exemplo, enquanto a central de produção no Pari ficará com as produções que serão repetidas imediatamente, como é o caso da ‘Bohème’.” Segundo o diretor executivo da Fundação Teatro Municipal, José Luiz Herencia, estão sendo mantidas conversas com o governo federal para viabilizar uma nova central.

Neschling rebateu também as críticas feitas recentemente em redes sociais com relação à presença prioritária de cantores estrangeiros nas temporadas – um grupo de cantores criou um manifesto pedindo maior espaço na programação. Ele citou a Bohème com elenco nacional para 2014 e afirmou que “há na temporada muitos cantores brasileiros, em papeis importantes”. Ele também questionou a crítica de que quinze dos solistas contratados para a temporada de 2013 pertencem à agência italiana In Art, que também o representa. “Eu tive três meses para montar uma temporada para 2013 e recorri a uma agência respeitada, na qual confio, para me ajudar a preencher em cima da hora elencos com bons cantores. E estamos falando de 15 cantores em um total de dezenas de solistas programados. Mas no ano que vem, agora com mais tempo, teremos artistas de um número ainda maior de agências. Agora, no ano passado, uma mesma agência representava 19 cantores entre os solistas da programação do Municipal. Por que antes não tinha problema?”

ORGANIZAÇÃO SOCIAL

A Fundação Teatro Municipal de São Paulo já assinou contrato com uma organização social que fará a sua gestão. Trata-se, segundo José Luiz Herencia, diretor executivo da fundação, do Instituto Brasileiro de Gestão Cultural, única OS a atender a convocação pública de entidades interessadas a atuar na gestão do teatro. O contrato terá quatro anos e já vale para a temporada do segundo semestre de 2013, período ao longo do qual, segundo Herencia, a prefeitura vai avaliar como se deu a parceria. O contrato, casa algumas das partes não cumpra com os objetivos estabelecidos, pode ser rescindido. “Este é um modelo novo de gestão cultural dentro da estrutura da prefeitura e nosso objetivo é refiná-lo, mantendo sempre a função pública do teatro como foco principal”, diz.

A chegada de uma OS era uma das questões a serem resolvidas para que o teatro pudesse lidar com problemas estruturais antigos, como a contratação dos artistas dos corpos estáveis – orquestras, corais e balé, além das equipes das escolas ligadas ao teatro –, que vinham trabalhando com contratos temporários. A solução definitiva, no entanto, ainda não foi tomada. “A fundação permite a contratação segundo o regime de CLT, mas essa não é uma medida fácil, que se resolve rapidamente. Há todo um passivo de direitos desses artistas que precisa ser equacionado, casos específicos precisam ser estudados. Por conta disso, foram assinados contratos de seis meses de trabalho, até o fim do ano. E, durante o segundo semestre, vamos negociar e discutir a melhor forma de, já no ano que vem, ter uma solução para esta questão.”

Segundo Herencia, o Municipal conseguiu com a prefeitura um suplemento de R$ 19 milhões para o orçamento deste ano, que era de R$ 64 milhões. “Havia um deficit, que foi identificado assim que assumimos o teatro, no começo do ano. Não estava prevista no orçamento original, por exemplo, a verba para a administração e manutenção da Praça das Artes”, diz Herencia. Para ele, é fundamental que o teatro estabeleça uma relação mais próxima com a iniciativa privada. “Mas o que nos interessa é uma mudança no paradigma dessa relação. Um patrocinador não vai bancar uma ópera, um espetáculo mas, sim, a instituição. Essa ideia tem como base a necessidade do teatro ser pensado a longo prazo, como uma instituição sólida, e não apenas como a sucessão de eventos.”

Este é o relato informativo de hoje da conversa de Neschling com a imprensa. Há alguns comentários que gostaria de fazer mas estou no aeroporto e embarco daqui a pouco para Belo Horizonte, onde assisto hoje à noite a um programa Richard Wagner da Filarmônica de Minas Gerais, com destaque para o primeiro ato da “Valquíria”, com Eliane Coelho. Depois, então, coloco aqui algumas impressões sobre a temporada.

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