Nem tudo é culpa de Canudos

Nem tudo é culpa de Canudos

Um olhar sobre a ópera "Piedade", de João Guilherme Ripper, apresentada em sua versão de câmara no início do mês na Sala Cecilia Meireles, no Rio de Janeiro

João Luiz Sampaio

19 Dezembro 2018 | 15h20

No dia 15 de agosto de 1909, Euclides da Cunha seguiu decidido até o bairro de Piedade, no Rio de Janeiro, disposto a se encontrar com o amante de sua mulher Anna. Armado, bateu na porta de Dilermando de Assis que, após recusar-se a um duelo, acabou alvejando e matando o escritor e jornalista.

Euclides da Cunha era o celebrado autor de Os sertões e o caso ganhou notoriedade. Ficou conhecido como a Tragédia de Piedade. E foi dela que o compositor João Guilherme Ripper extraiu o argumento da ópera Piedade, que foi apresentada no começo do mês na Sala Cecilia Meireles, no Rio de Janeiro, em sua versão de câmara, com o barítono Homero Velho, a soprano Laura Pisani, o tenor Daniel Umbelino e um conjunto arregimentado regido pela maestrina Priscila Bonfim.

A ópera constitui um foco importante na carreira de Ripper. E suas obras para o gênero têm sorte melhor do que as de outros compositores. Piedade é um bom exemplo. Estreada em 2012, pela Petrobras Sinfônica, em um concerto cênico, já recebeu diferentes produções. Nas temporadas 2017 e 2018, foi encenada na série de câmara do Teatro Colón de Buenos Aires; este ano, em sua versão sinfônica, foi apresentada em versão de concerto no Theatro Municipal de São Paulo, regida por Luiz Fernando Malheiro. E, agora, a nova encenação no Rio, por Daniel Herz.

É, ainda assim, uma obra nova. E, antes de mais nada, talvez seja preciso apresentá-la. Ripper a dividiu em quatro cenas. Na primeira, Euclides escreve Os sertões, atormentado pelas visões de Canudos, Antonio Conselheiro, as batalhas, as mortes, a derrota. Na segunda, Anna da Cunha conhece Dilermando enquanto Euclides está fora, em viagem; os dois hesitam, mas se apaixonam. Na terceira, dá-se um primeiro encontro entre Dilermando e Euclides que, no porto, ao chegar de viagem, já desconfia da traição da esposa. Na quarta, o duelo final – e a morte de Euclides.

Através dessas quatro cenas, a narrativa se insinua, ainda que não de maneira linear – Ripper, afinal, fala em evitar o que chama de “ópera-documentário”. A linearidade, na verdade, está menos no conteúdo do texto e mais na forma da música. Cada cena é aberta por um prelúdio interpretado por um violão solista – recurso eficiente, que evoca a música no Brasil do início do século XX.  Ripper também trabalha com temas recorrentes, que se prestam à caracterização das personagens e de situações e que, à medida em que são retrabalhados, sugerem um senso de arquitetura e evolução teatral.

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Em uma palestra ao público antes da apresentação da ópera, o professor, maestro e compositor André Cardoso recuperou definições de drama e sua estrutura para refletir as escolhas de Ripper ao compor uma ópera baseada em Euclides da Cunha. Em Os sertões faltariam elementos – ação, personagens, tensão, conflito, etc – que sobram na história pessoal de Euclides da Cunha. Mais do que na tragédia de Canudos, estaria portanto nos acontecimentos de Piedade a verdadeira ópera, com uma temática, como ele lembra, que remonta ao repertório romântico verista do final do século XIX – não tão distante da sensibilidade do mundo em que vivia o próprio Euclides.

Em sua concepção, no entanto, o diretor Daniel Herz faz de Canudos um personagem da história de Piedade. Na primeira cena, enquanto Euclides flerta com o delírio em meio às lembranças da fome, da miséria e da guerra observados em Canudos, está rodeado de sertanejos e do próprio Antonio Conselheiro. Mas o recurso se mantém também nas demais cenas da ópera – e, nesse sentido, Herz sugere uma leitura específica da trama.

O “fantasma” de Canudos transforma Euclides – e o personagem, que na versão em concerto no Teatro Municipal já fora interpretado com verve vocal por Homero Velho, agora com cena parece viver à beira do delírio, alheio à realidade cotidiana enquanto descreve a realidade de um país profundo que conhecera, sem jamais recorrer ao histrionismo ou ao exagero, em uma leitura que atesta a maturidade de um cantor sempre preocupado com a riqueza do texto que interpreta.

Nessa chave de leitura proposta por Herz, Dilermando (em uma interpretação sensível do tenor Daniel Umbelino, uma das principais revelações da nova geração do canto brasileiro) representa acima de tudo uma oposição aos conflitos euclidianos. É, de certa forma, o real que Anna já não encontra no marido, a quem tenta compreender na primeira cena mas de quem, no final das contas, é mantida distante.

Tudo por culpa de Canudos.

Mas a ária de Anna na segunda cena – ainda mais na voz de uma cantora dos recursos de Laura Pisani, atenta aos coloridos e às nuances de música e texto – é um ponto de inflexão que transforma o sentido da narrativa, fazendo dela, em uma história em que escorre testosterona, se não a personagem principal, aquela capaz de ir além da narrativa em si.

Ao conhecer Dilermando, a jovem se dá conta de que assim “como toda noite abriga o amanhecer”, é preciso então “esperar, esquecer” e, “quando o frio ceder”, encontrar tempo para retornar, retornar para um “novo verão”. Texto e música, ali, iniciam um arco que vai se encerrar com a última ária, também interpretada pela soprano, após o duelo. “Piedade, senhor”, que nos tornou humanos demais, ela inicia, fazendo de Piedade não mais o cenário da tragédia e, sim, uma súplica. Somos mortais, vivemos entre o bem e o mal, artistas arrematados, em cenas criadas sem fim, inocentes, estranhos, santos e ateus, apaixonados, loucos, profanos.

Pode parecer estranho, do ponto de vista formal, terminar a ópera com sua principal ária. Mas faz sentido. Ripper inverte Leoncavallo, que no seu Pagliacci instituiu um prólogo no qual um personagem se despe de sua máscara para falar ao público a respeito do sentido daquilo que será narrado. Aqui, temos um epílogo, onde também não é Anna que fala, mas uma mulher que nos relembra que, antes de mais nada, falar da condição humana, ou mais ainda de amor, é falar da quase impossibilidade de diálogo.

Nem tudo, no final das contas, é culpa de Canudos.