Nabucco, de Verdi, em Belo Horizonte

Nabucco, de Verdi, em Belo Horizonte

João Luiz Sampaio

23 Junho 2011 | 12h46

Uma nova produção do Nabucco, de Verdi, estreada na noite de domingo em Belo Horizonte, marcou o início de uma nova etapa na ainda incipiente colaboração de teatros brasileiros de ópera. A montagem segue em julho para o Municipal do Rio e, no início de 2012, abre a programação do Festival Amazonas de Ópera; ainda não há confirmação de temporada no Teatro Municipal de São Paulo, que participou do espetáculo emprestando alguns figurinos. Nabucco foi a terceira ópera – e o primeiro sucesso – de Giuseppe Verdi. Narra a história da luta entre o povo hebreu e os assírios, comandados por Nabucodonosor. Composta em 1842, virou símbolo da luta italiana pela reunificação do país. Simbolismos à parte, já traz o embrião de uma das principais marcas da produção verdiana – o diálogo entre drama político e pessoal, que alimentam e ressignificam um ao outro. A produção é assinada pelo diretor cênico André Heller-Lopes, que em maio dirigiu Tristão e Isolda, de Wagner, em Manaus e, em outubro, volta ao compositor no Municipal de São Paulo, com A Valquíria. Ele não busca recriar a Babilônia em que se passa a ação. Os cenários (assinados por Renato Theobaldo) carregam imagens entrecortadas, alusivas às religiões, que dialogam com a trama original mas buscam extravasá-la: o conceito visual sugere um caráter atemporal para a história – e a briga religiosa entre os assírios e os hebreus oprimidos passa, assim, a ser ponto de partida para discussão sobre a intolerância de modo mais geral. Não há vilões ou mocinhos – e o diretor ressalta ao longo da montagem que a intolerância também pode frequentar o discurso de quem é perseguido e oprimido. Dessa forma, a montagem, respeitando o espírito verdiano, respira à luz de nossa época. Ópera ainda ligada à tradição do bel canto, mas já marcada por tentativas de inovação na escrita vocal, Nabucco leva os cantores aos limites. O papel mais difícil talvez seja o de Abigaile, interpretada pela soprano Eiko Senda, que compensou as dificuldades no grave com musicalidade e atuação cênica. O baixo Sávio Sperandio foi um Zaccaria lírico, com bom desempenho em suas exigentes árias. Rodrigo Esteves foi um Nabucco cênica e vocalmente convincente, em especial no dueto com Abigaile e na ária da Parte 4. Marcos Paulo e Rita Medeiros tiveram atuações corretas como Ismaele e Fenena. À frente da Sinfônica de Minas Gerais, que dá mostras de crescimento artístico, a regência de Silvio Viegas peca pela falta de contrastes, o que em alguns momentos-chave acaba tirando a força da cena. Juntos, membros do Coral Lírico de Minas e do Municipal do Rio estiveram bem em suas intervenções, em especial no célebre coro Va Pensiero.