A primeira noite na ópera em nove passos

A primeira noite na ópera em nove passos

Se você resolveu se aventurar pela primeira vez pelo universo da ópera, relaxe e aproveite: não precisa ter medo

João Luiz Sampaio

08 Outubro 2015 | 12h29

Por algum motivo – simples curiosidade, um pretendente quis te impressionar com um programa diferente ou, sei lá, você perdeu uma aposta – você resolveu ir pela primeira vez a uma ópera, um tipo de espetáculo sobre o qual, sejamos honestos, você sempre ouviu as piores coisas. E agora, o que fazer? O melhor conselho seria: relaxe e aproveite o espetáculo. Mas, tudo bem, você quer algo mais. Então, vamos lá.

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Um espetáculo caro

Se você já está com seus ingressos, então se deu conta de que uma das verdades estabelecidas a respeito da ópera não passa de mito. Pode até ser que, em algum momento, esse tipo de espetáculo tenha sido associado a eventos caros, exclusivos de uma certa elite. Mas a realidade hoje é outra. No Teatro Municipal de São Paulo, os ingressos para uma ópera custam de R$ 50 a R$ 120; no Theatro São Pedro, de R$ 15 a R$ 70. Reconheça: você já pagou mais do que isso para ir ao teatro, a um show, um musical ou, dependendo do filme e da sessão, ao cinema.

Um espetáculo longo

Sim, óperas podem ser longas. A tetralogia O Anel do Nibelungo, de Wagner, por exemplo, tem quase 16 horas de música, divididas em quatro óperas, apresentadas normalmente ao longo de quatro dias. O Don Carlo de Verdi, por sua vez, pode chegar a seis horas em sua versão completa. Mas há também óperas curtas, de uma hora de duração ou até menos. São extremos. Em geral, as óperas costumam durar cerca de duas horas (mais um intervalo de normalmente meia-hora). De qualquer forma, os teatros sempre anunciam a duração dos espetáculos que apresentam. E talvez seja melhor começar o contato com o gênero com obras mais curtas. Mas se quiser ir logo de cara ao Anel, vá fundo. Você tem todo o meu apoio.

Códigos de conduta e vestimenta

Você já separou – e mandou para a lavanderia – o melhor terno, gravata ou vestido longo. E já te avisaram que, durante o espetáculo, deve se comportar direitinho, sem fazer barulho, ficar se mexendo na cadeira. Aplausos? A dica que te deram é esperar para ver o que os outros fazem antes de cometer alguma gafe. Olha, isso tudo é bobagem. Códigos de conduta não existem na ópera. Quer dizer, basta ter um pouco de bom senso. Conversar durante uma apresentação, tirar fotos, ficar olhando o celular – você não faria isso no teatro ou no cinema (certo?), então não faça também na ópera. E, sobre as roupas: se preferir, pode deixar o terno, a gravata e o vestido no fundo do armário. O importante é se sentir à vontade. Simples assim.

Encorajamento preliminar

A ópera é um espetáculo estranho. Afinal, na vida real, as pessoas não cantam em vez de falar, nem tudo acaba em tragédia e os sentimentos não costumam ser apresentados de forma tão exagerada. Pode até ser, mas entenda uma coisa: tudo o que a ópera tem de mais estranho é também o que ela tem de mais fascinante! O tenor canadense Jon Vickers disse certa vez que a ópera trata, essencialmente, de três temas: a beleza, o amor, a verdade. São três conceitos difíceis de definir. O que um espetáculo faz, portanto, é criar uma atmosfera na qual cada pessoa consiga, a partir da história narrada, encontrar definições individuais para eles. É uma boa explicação, não? E, convenhamos, desde quando a arte se justifica pela verossimilhança?

Os enredos

Os enredos de óperas são complicados e giram em torno do amor do tenor (mocinho) pela soprano (mocinha), atrapalhado pelas tramas e maquinações do barítono (vilão) ou da mezzo-soprnao (alguma mulher invejosa ou anciã maluca). Justiça seja feita: é possível encaixar boa parte do repertório operístico nesse formato. Mas a realidade é bem mais complexa do que isso. E você, uma pessoa bem informada e interessada em arte, não vai se pautar por esse tipo de clichê. O fato é que, ao longo de seus mais de quatrocentos anos, a ópera manteve um diálogo próximo com a história e a cultura ocidentais. Monteverdi evoca Maquiavel; Mozart tem muito a dizer sobre o Iluminismo; Verdi retratou como poucos as questões políticas do século 19; o conceito de obra de arte total de Wagner influencia até hoje criadores de diversas áreas; os eventos do século 20 tiveram impacto na obra de autores como Prokofiev, Shostakovich ou John Adams. E há ainda os escritores. Voltaire, Victor Hugo, Schiller, Shakespeare,Wilde, Goethe, Dostoievski – histórias criadas por estes e tantos outros autores ganharam adaptação operística. O resultado sempre dá certo? Não. Mas você não deixou de ir ao teatro depois de ver aquela adaptação mequetrefe de um grande dramaturgo ou parou de ir ao cinema por conta de um filme ruim,certo?

As vozes

Falha minha: falei de tenores, sopranos, barítonos e mezzos sem apresentá-los propriamente. Os nomes se referem ao tipo de voz de um cantor. Entre os homens, há baixos, barítonos e tenores; entre as mulheres, contraltos, mezzos e sopranos. Para cada tipo de voz, há variações. Mas você não precisa saber de nada disso se não quiser (e se quiser, dá um google). O importante é que cada tipo de voz tem um colorido específico – e a combinação entre essas cores (escuras, claras, graves agudas) é um dos aspectos mais ricos de um espetáculo operístico. O tipo de voz que um compositor associa a um personagem já ajuda a definir a sua personalidade. Uma voz mais grave, por exemplo, pode sugerir personagens mais velhos e experientes; uma voz mais clara é indício de um personagem mais novo; um tenor de voz mais escura sugere um perfil heroico; e assim por diante. Além disso, um grande cantor é como um grande ator: utiliza seus recursos de artista para recriar grandes personagens e mostrar novas facetas a respeito deles. Só que no caso do cantor, esses recursos incluem, além da atuação, a voz. Uma outra coisa: na ópera, não existe microfone. Aquilo é gogó puro, pode acreditar. O que nos leva a uma outra questão. Como instrumento natural, a voz tem um período próprio de amadurecimento e às vezes demora para que um cantor esteja pronto para enfrentar as dificuldades técnicas específicas de um papel. É por isso que vira e mexe vemos senhores e senhoras quarentões ou cinquentões interpretando papeis de adolescentes e jovens. De novo, esqueça a verossimilhança. E faça um teste: feche os olhos, ouça o canto e depois me diga se ele não é capaz de te convencer dos dilemas de um personagem.

A música

O que define essencialmente uma ópera é o casamento entre o texto e a música. Ele pode assumir diversas formas, dependendo do período em que uma obra foi composta. A orquestra pode, por exemplo, servir como mero acompanhamento para as vozes. Ou então, ajudar a narrar a história, comentando a ação por meio de recursos como leitmotifs, um termo feio que se refere a algo simples: melodias ou temas musicais associados a um determinado personagem ou situação dramática. Mas você, de novo, não precisa saber de nada disso. Basta abrir cabeça e o coração (soou brega, eu sei, mas é isso mesmo) para aquilo que a música está lhe sugerindo. E perceber o que, nesse sentido, ela também funciona como um cenário à história.

As montagens

A ópera trabalha com a recriação constante de um repertório estabelecido. Com isso, os diretores, ao longo do tempo, começaram a sentir a necessidade de buscar novas formas de narrar histórias conhecidas, buscando aproximá-las de nossa época. Assim, uma trama que se passa originalmente em um castelo medieval do século X pode ser ambientada na Alemanha do século XXI, por exemplo, ou a história de Édipo pode deixar a Grécia e se passar em um cenário que evoca o Japão do pós-Guerra. No mundo do teatro, essa é uma realidade aceita. Na ópera, no entanto, o público pode ser um pouco conservador e ainda tem gente que acha isso um desrespeito ao original. Mas não se deixe levar por esse tipo de argumento. No final das contas, o que importa é se o diretor é capaz de criar um espetáculo fluente, que mostra ao público possíveis interpretações para a história – ou se, perdido em meio a uma enxurrada de referências “inteligentes”, não acrescenta nada ao que está sendo contado.

Conhecimento prévio

É muito fácil encontrar na internet as sinopses das óperas, o texto (no original ou traduzido) ou sites que ajudam a contextualizar a ação. Isso pode ajudar? Pode. Mas não é, acredite, condição fundamental para que você aproveite o espetáculo. De novo. Quando você vai ao cinema, procurar ler o roteiro do filme antes? Quando vai ao teatro, lê o texto da peça? Quando vai a uma exposição, passa os dias anteriores lendo a biografia do artista? Se a resposta a essas perguntas é sim, então fique à vontade para fazer o mesmo com a ópera. Mas, se você não faz nada disso, não precisará tratar a ópera de forma diferente. É claro, estamos falando de um espetáculo que, por suas muitas facetas, é complexo por natureza. Mas não tente entender a ópera antes de ter o contato com ela. Deixe-se surpreender. E, se gostar, volte ao teatro, assista outros espetáculos. Não há pressa. A graça na relação com a arte é justamente o processo constante de descoberta que ela nos oferece. Isso vale também para a ópera.

No mais, relaxe e aproveite. E bom espetáculo.

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