Na arte de Montserrat Caballé estava o sentido da ópera

Na arte de Montserrat Caballé estava o sentido da ópera

Em suas interpretações, cantora espanhola, que morreu neste sábado, dia 6, revelava não apenas uma técnica impecável, mas a humanidade que se escondia por trás dos personagens dos grandes compositores

João Luiz Sampaio

06 Outubro 2018 | 11h05

Minha porta de entrada para a arte de Montserrat Caballé (1933-2018) foi uma gravação do Don Carlo, de Verdi. Nela, a soprano interpreta Elisabetta de Valois, a princesa francesa que, apaixonada pelo herdeiro do trono espanhol, acaba sendo obrigada a se casar com o seu pai, o monarca Felipe II. No último ato, Elisabetta canta uma longa ária. O texto fala da juventude perdida, que dá lugar a um sofrimento cruel – de forma que só pode haver um último desejo: a paz do túmulo. Há algo de resignação nessa aceitação de um destino trágico. Mas também de ironia dilacerante, ao menos na forma como Caballé canta as notas graves que acompanham as palavras “paz do túmulo”.

Essa amplitude de significados foi decisiva para minha compreensão da dimensão dessa ópera tão especial dentro da carreira de Verdi, que fala de amores frustrados, sim, mas com um perverso pano de fundo político – e é, portanto, símbolo desse embate que nos define, entre o desejo individual e uma ideia de dever coletivo, que o compositor tão bem soube definir em forma de teatro e música ao longo de sua obra. E se o fez é porque se dedicou a investigar, em forma de ópera, a alma humana. Uma obra como Il Trovatore coloca personagens marginalizados sobre o palco, uma trupe de ciganos – mas o contexto social só ganha de fato sentido porque Verdi nos rasga a alma com a maneira como faz uma mãe narrar o modo como provocou a morte do próprio filho.

Se encontrar essa humanidade é a marca do grande intérprete operístico, Caballé foi de fato umas das maiores de seu tempo, desde que surgiu no cenário internacional nos anos 1960. A técnica era impecável: os famosos pianíssimos, a agilidade (basta ouvir sua Elisabetta, Rainha da Inglaterra, de Rossini), o legato, ou seja, a capacidade de transformar um punhado de notas em música e significado. Mas – e aqui pouco importa se este era um processo intuitivo ou consciente – tudo parecia estar sempre a serviço da caracterização de personagens que, mesmo na irrealidade da ópera, soavam reais o suficiente para que com eles pudéssemos nos identificar.

Depois daquele Don Carlo, a descoberta de outras gravações. Sua Liú, em Turandot; Adalgisa, em Norma; Elvira, em I Puritani; Margherita, no Mefistofele; ou Madalena, em Andrea Chenier me parecem exemplos bem acabados de suas possibilidades como intérprete. Na Lucia di Lammermoor ou na Tosca, no entanto, os tempos lentos do maestro Colin Davis não parecem combinar com a urgência da voz, o fogo do momento que mesmo nas mais inocentes heroínas se fazia presente. Sua Nedda, por exemplo, em I Pagliacci, é violenta tanto no modo como despreza Tonio como na forma como abraça a paixão de Silvio – e não é detalhe a regência de Nello Santi, revelando texturas e nuances nem sempre presentes em leituras da partitura. Já na Salomé, de Strauss, na cena final, o lirismo com que abraça a cabeça decepada de João Batista parece apontar em outra direção. No fundo, no entanto, ambos os casos se aproximam em uma intérprete que fugia, em suas caracterizações, do óbvio.

Todos esses momentos ficam, enfim, como legado. Assim como as muitas entrevistas e depoimentos, que dão conta de uma artista bem-humorada e que definia o canto como necessidade vital (nos anos 1990, ela recusou-se a fazer uma cirurgia por conta de um tumor no cérebro por medo das consequências que o procedimento teria na sua voz). Há um documentário no qual ela e o maestro Claudio Abbado caem no riso durante um ensaio do Réquiem de Verdi em uma igreja na Itália. É hilário. Mas a gravação final que resultou daquelas sessões nos sugere o tempo todo a dor de uma peça que fala de morte e do embate entre o humano e a ideia de transcendência. Verdi não parecia acreditar nela. Ma ainda assim permanece vivo. Justamente por conta de intérpretes como Caballé que, do riso à tragédia, falou com sua voz da humanidade que nos define. E ultrapassa limites de tempo e espaço.