Músicos de hoje – orquestras de amanhã

Músicos de hoje – orquestras de amanhã

Em passagem pelo Brasil, o diretor da Orquestra do Concertgebouw, Jan Raes, e a diretora do Conservatório de Amsterdã, Janneke van der Wijk, falam sobre intercâmbios, educação musical e a necessidade de reflexão sobre novos caminhos para o futuro da música clássica

João Luiz Sampaio

03 de junho de 2015 | 11h20

Na última semana de maio, a convite da Emesp (Escola de Música do Estado de São Paulo), Janneke van der Wijk, diretora do Conservatório de Amsterdã, e Jan Raes, diretor da Orquestra do Concertgebouw, estiveram em São Paulo para conhecer alguns projetos de educação musical. Van der Wijk visitou pela primeira vez o Brasil em 2007 e, desde então, parcerias tem sido construídas entre o conservatório e a Emesp. Para Raes, esta foi a segunda visita: em 2013, ele acompanhou a orquestra em sua breve passagem por São Paulo e Rio de Janeiro. Ambos fazem parte do conselho da rainha para a educação musical e, depois de uma semana na cidade, conversamos um pouco sobre as impressões deles, a importância das trocas de experiência e também sobre o papel dos conservatórios e da orquestra sinfônica nos dias de hoje.

Jan Raes

Jan Raes

“Na Holanda, preparamos nossos melhores talentos para que possam competir em nível internacional mas, ao mesmo tempo, perdemos força na área de educação musical, não temos mais músicas nas escolas, privilégio da elite”, conta Van der Wijk. “O desafio que nos colocamos, nesse sentido, foi: por que não combinar as duas coisas? E a experiência de projetos como a Emesp e o Projeto Guri nos parece interessante. Em especial porque aponta na direção da criação de um sistema amplo de educação musical. Na base, há a preocupação com a qualidade e a tentativa de construir caminhos, como em uma pirâmide, para que o talento se desenvolva e cresça. Ao mesmo tempo, está sendo proposto um senso do que significa desenvolver uma criança de modo amplo por meio do trabalho com a música”, continua. Para Raes, a sensação é parecida. “Precisamos ter em mente que é a organização de um sistema consistente de trabalho de formação que vai nos permitir pensar na longa duração. Ficamos sabendo de cortes realizados recentemente. É o efeito da crise, vivido por nós há alguns anos e que agora chega aqui. Eu entendo. Mas entendo também que é preciso ser cuidadoso na hora de cortar. Na Holanda, nós perdemos o contato com a classe média baixa e, por maior que seja o esforço para reconstrução, corremos o risco de perder toda uma geração.”

Formar um músico hoje – e a orquestra de amanhã

Para Van der Wijk, um dos desafios de qualquer instituição de ensino é compreender o que significa formar um músico nos dias de hoje. “Temos discutido isso intensamente e não há respostas fáceis. Mas me parece consensual que vivemos em um mundo em transformação e que isso significa estar atento a novos estímulos para evitar uma formação anacrônica. A qualidade é fundamental: queremos formar o melhor músico, queremos que o aluno seja o melhor em seu instrumento. Mas temos também que oferecer ferramentas para que o jovem artista busque novos estados de espírito, seja curioso, saiba se adaptar a novas situações e, mais importante, criar novos contextos de trabalho e de relação com o público”, diz.

Janneke van der Wijk

Janneke van der Wijk

Raes segue em uma direção parecida. “A paisagem musical está se transformando. E mudar o conceito de educação musical é fundamental. Muitas orquestras ainda vivem no século 19 e só vão mudar se os músicos forem envolvidos no processo. É por isso que o artista que hoje formamos é decisivo. O nosso desafio, que me parece semelhante em todo o mundo, é criar instituições que sejam abertas em termos de repertório, de formatos de concertos, marketing, que não se limitem a pensar em si próprias. Eu cresci em uma família na qual a música, o prazer da música, chegava por LPs, pelo rádio. Hoje, ela chega de modo diferente às pessoas. Isso exige a reflexão sobre novas ferramentas e orquestras em geral são lentas, demoram a entrar nessa conversa. Serão os músicos a mudar essa realidade. E, nesse sentido, insisto na questão da formação. Ela precisa estar marcada por intercâmbios entre culturas, trocas de experiências, pela interdisciplinariedade. Um músico da Concertgebouw que dá uma masterclass no Brasil se transforma, assim como um jovem estudante que dialoga com colegas das áreas de dança, teatro, literatura. Esses contatos fazem uma roda começar a girar. E ela não para mais, estou certo disso.”

A teoria parece clara mas o passo seguinte é discutir concretamente esses novos formatos. “Eu não conheços os pormenores da realidade brasileira, mas acho que há chaves comuns a todas as orquestras que precisam ser acionadas. Maestros são uma ponte interessante entre o alto nível de realização artística e a comunidade. Afinal, os jovens, e não apenas os estudantes, precisam de ícones e maestros podem desempenhar este papel, podem abrir portas. Mas está na hora de entendermos, e temos trabalhado isso com o nosso departamento de marketing, que o músico também é um ícone, em certo sentido é por meio dele que a ponte com o público e a comunidade se estabelece. É por isso que o papel do integrante da orquestra não pode ser subestimado. Uma orquestra precisa saber criar um contexto de trabalho em que o músico seja ouvido, sua criatividade seja estimulada. A rotina é mortal e, no lugar dela, vale tentar criar uma tensão saudável e chamar o músico para o debate. É preciso ter ambição e aceitar a necessidade de discutir o futuro. E isso passa por quebrar a hierarquia, reduzi-la ao mínimo necessário. A função do diretor de uma orquestra é apoiar os músicos, dar poder a eles e não fazer dela uma jukebox da música que gostaria de ouvir. Tocar o mesmo repertório de sempre para o mesmo público é uma fórmula cujo futuro é incerto. Mas refletir sobre isso não tem nada a ver com perder de qualidade, pelo contrário. Vamos tocar a Sagração da Primavera, de Stravinsky, em uma grande festival de música pop em Amsterdã. É um exemplo apenas, que não exclui todas as nossas outras atividades, e considero significativo: não precisamos tocar algo que não nos pertença, comprometer a qualidade do que fazemos. Trata-se antes de buscar novos formatos. A busca da excelência não é negociável, nunca. Mas a forma de mostrá-la às pessoas pode e deve ser debatida.”

Para Raes e Van der Wijk, há ainda um outro aspecto a ser considerado: o estreitamento da relação entre orquestras e conservatórios. “Em Amsterdã, orquestra e conservatório nasceram juntas, o que torna essa relação natural. Mas ela precisa ser constantemente alimentada. Músicos e professores podem trabalhar juntos, entendendo as necessidades e demandas de jovens que nasceram em um novo mundo e propondo com eles um diálogo que inclua suas próprias experiências”, diz ela. “Parece óbvio, mas esse contato nem sempre existe. E é fundamental”, conclui Raes.