Música sinfônica e ópera no Brasil: o cenário pós-eleições

Música sinfônica e ópera no Brasil: o cenário pós-eleições

Como devem ficar os principais projetos da área musical mantidos pelos governos estaduais após as eleições? Continuidade parece ser a tônica, mas há desafios a serem enfrentados

João Luiz Sampaio

03 de novembro de 2014 | 11h39

 

Com o final do segundo turno das eleições, a nova composição políticas dos estados brasileiros começa a tomar forma. E o que isso tem a ver com música clássica? Tudo, se pensarmos que alguns dos principais projetos do País, na área sinfônica e operística, estão ligados ao poder público estadual. Ainda faltam informações importantes, como as nomeações de secretários de Cultura. Mas já é possível vislumbrar o futuro – ou ao menos os desafios a serem enfrentados – por alguns desses principais projetos Brasil afora.

São Paulo, Minas, Rio de Janeiro

Em São Paulo, a reeleição do governador Geraldo Alckmin (PSDB) acrescenta mais quatro anos de continuidade a um período que, na área da música clássica e ópera, viu renascerem projetos como a Osesp e o Teatro São Pedro (que, por sinal, começa em 2015 um outro ciclo, com direção artística e executiva novas). Ao longo dos últimos anos, no entanto, trocas de secretários de Cultura foram comuns e nem sempre significaram continuidade de projetos – basta lembrar episódios como a construção do Complexo da Luz. No caso de marcos da vida musical brasileira, como a Osesp, seria devaneio pensar em interrupções ou descontinuidade, claro. Mas ao secretário de Cultura em 2015 – Marcelo Araújo permanecerá no cargo? – caberá tarefas como a renegociação de contratos de gestão importantes, como o da própria Osesp e o do São Pedro.

Em Minas Gerais, a Filarmônica entra em 2015 repleta de expectativas – será, afinal, o primeiro ano em sua nova sede, a Sala Minas Gerais, que está sendo finalizada (leia matéria sobre a orquestra e a sala, publicada no Caderno 2 de hoje). Ainda nesta gestão, foi estabelecido um termo de parceria válido até o final de 2015 entre o Instituto Cultural Filarmônica, responsável pela gestão da orquestra, e o governo do Estado. A partir de então, as conversas passam a acontecer com a equipe do governador eleito Fernando Pimentel (PT). A expectativa em Minas, no entanto, segundo fontes ouvidas pelo Estado, é de um “diálogo promissor”. O governo do Estado também é responsável pela gestão do Palácio das Artes e, pela importância que ele conquistou nos últimos anos como produtor de óperas, vale a pena prestar atenção nos planos a serem anunciados, assim como aqueles relativos à Sinfônica de Minas Gerais.

No Rio, a reeleição de Luiz Fernando Pezão (PMDB), vice de Sérgio Cabral que assumiu o posto em meados do ano passado, também poderia sugerir continuidade. Mas, independentemente do quadro político, o fato é que, ao final deste ano, a atriz, diretora e produtora Carla Camuratti deve deixar a presidência da Fundação Teatro Municipal (que, no Rio, é responsabilidade não do município, mas do estado), cargo que ocupou nos últimos sete anos. Sua gestão foi feita de polêmicas. Por um lado, encabeçou a reforma do teatro e o projeto de uma central técnica de produção; por outro, viu a programação, em especial a lírica, diminuir consideravelmente e não conseguiu implementar reformas administrativas por ela consideradas importantes, como a instalação de um modelo de gestão via organizações sociais. Uma nova era no Municipal passa, assim, pela indicação do novo presidente – e, claro, do nome do novo secretário de Cultura, uma vez que parece certa a saída de Adriana Rattes.

Continuidade

No Amazonas, o Festival de Ópera tem sido, com seus altos e baixos e a ocasional luta contra cortes de verbas, vitrine da política cultural do Estado desde o começo dos anos 2000 – e a situação tende a se manter com a reeleição do governador José Melo (PROS), que venceu Eduardo Braga (PMDB) no segundo turno. Em Manaus, vale lembrar, dá-se um fenômeno atípico – a permanência, há quase 20 anos, de um mesmo secretário de Cultura, o advogado Robério Braga.

Em setembro, nos bastidores da edição deste ano do Festival do Theatro da Paz, em Belém, a sobrevivência do evento – ao menos em seu formato atual – era dada como incerta. Nas pesquisas, afinal, o governador Simão Jatene aparecia atrás de Helder Barbalho (PMDB) e cada vez mais longe da reeleição. A lógica era: o festival, desde sua criação, esteve muito associado à política cultural do PSDB – e, nos anos em que o partido deixou o poder, de 2007 a 2010, acabaria, por conta disso, sendo descaracterizado.  A virada de Jatene no segundo turno, no entanto, sugere a continuidade no cargo tanto do secretário de Cultura Paulo Chaves como do diretor do teatro e do festival, Gilberto Chaves.

A Filarmônica do Espírito Santo também parece ter motivos para comemorar. Não que durante os últimos quatro anos, sob o governo de Renato Casagrande (PSB), tenha perdido espaço– mas, a partir do ano que vem, volta ao cargo Paulo Hartung, que foi governador no período 2004/2007, quando a filarmônica reestruturou seus quadros e sua programação musical. Em Sergipe, a sinfônica estadual também parece respirar ares de continuidade, mas espera os caminhos a serem ditados pelo governador reeleito Jackson Barrreto (PMDB), que assumiu o posto no final no ano passado, com a morte do governador Marcelo Déda (PT).

Na Bahia, dois projetos se destacaram nos últimos anos: o Neojiba, iniciativa de educação musical inspirada no Sistema venezuelano; e uma nova e mais atraente programação da Sinfônica da Bahia, sob regência de Carlos Prazeres.  Ambos se desenvolveram sob o governo de Jacques Wagner (PT), que elegeu seu sucessor nas últimas eleições, Rui Costa (PT), ainda no primeiro turno.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.