Música, jogos e relações de poder

João Luiz Sampaio

04 de setembro de 2012 | 15h52

Álvaro Siviero publica hoje em seu blog aqui no Estadao.com notícias vindas da Paraíba. Músicos da sinfônica mandaram uma carta ao secretário de cultura Chico César, pedindo a saída do maestro Alex Klein do posto de regente titular. “Em Assembleia Geral realizada na noite do dia 24 de agosto de 2012, (…) músicos e servidores de apoio-artístico da Orquestra Sinfônica da Paraíba decidiram por unanimidade o afastamento do senhor Alex Klein da função de Regente Titular e da Direção Artística da OSPB. Por meio de abaixo-assinado e usando o exercício da democracia e em concordância com a legislação estadual”, diz o documento.

“Os músicos e servidores alegam imposição unilateral de perfil e gestão do maestro, que desconsidera sistematicamente a participação do Conselho Artístico da OSPB nas decisões e planejamento das atividades. (…)Eles questionam também que o maestro estabeleceu no primeiro semestre de 2012, uma programação artística arbitrária sem conhecimento prévio do conselho artístico, como também a não consideração das condições físicas, materiais, técnicas e principalmente orçamentárias da Orquestra, que acarretou a inexecução do cronograma da temporada, resultando nos cancelamento de concertos, sem devido aviso prévio, promovendo o constrangimento dos músicos e do público, que desinformado compareceu ao local onde estes seriam realizados. Os músicos e servidores contestam ainda a conduta ética do maestro em relação ao trato pessoal com os músicos, algum dos quais foram constrangidos públicamente em assembléias realizadas com a sua participação, bem como a ausência de um projeto coerente que atenda aos anseios dos músicos no que diz respeito à manutenção e revitalização deste conjunto sinfônico”, diz a carta.

Klein, em carta enviada a Siviero, responde os comentários dos músicos. “Não há muito o que revelar na verdade. Há muitas falsidades, sim, mas são um grito de desespero de um sistema falido, que findou. É certo que eu fui chamado para liderar uma “renovação” da orquestra, e que em outras partes do país tal palavra levanta medos diversos em músicos. Como eu mesmo sou músico orquestral experiente, eu não acredito em demissões em massa nem audições internas ou a eliminação de músicos devido à sua idade e ‘percepção’ de baixa produtividade. (…) Ao contrário do que foi mencionado, não houve ‘unanimidade’ na decisão dos músicos em excluir seu maestro que acaba de chegar há poucos meses (!). Houve sim coação, e diversos músicos e administradores vieram falar comigo ou me escreveram alegando que foram coagidos, pedindo-me desculpas, e explicando que devido aos muitos anos de interação com seus colegas eles se encontraram em situação constrangedora. Alguns foram ameaçados com assédio ou pior. Mas nada disso realmente tem valor, pois a OSPB não pertence aos músicos (…) Quem manda é o povo, o contribuinte da Paraíba, não os músicos ou o maestro.”

Ele, em seguida, nega uma a uma as acusações da orquestra. E conclui: “A OSPB abrirá concursos em breve, para dezenas de músicos. Sua temporada funcionará como qualquer outra orquestra no Brasil, com atividades regulares, concertos educativos, repertório emocionante e uma prioridade no povo da Paraíba, incluindo concertos regulares no interior do estado. Não está prevista nenhuma demissão ou reaudição de músicos efetivos, salvo, é claro, se houver justa causa. A atuação da OSPB está sendo revista de ponta a ponta, e a atual liberdade de expressão não será limitada ou regulada. Ela será, sim, estruturada de modo a servir os interesses do povo da Paraíba com uma orquestra onde as reuniões são feitas de maneira educada, sem truculência ou ameaças físicas nem porte de armas (!!), e estão previstas três Comissões de Músicos, com voto direto e secreto por parte de todos os músicos da orquestra, sem coação, pressão ou ameaças. Nosso país é democrático, e estes princípios valem de cima a abaixo de nossa sociedade. A Comissão de Músicos em si representará os assuntos relativos às condições de trabalho gerais, a Comissão Artística tratará de assuntos relativos a repertório e funcionalidade da orquestra, e tenho o desejo de criar também uma Comissão de Viagens, para melhor estruturar as diversas incursões do grupo para o interior do estado.”

A íntegra do texto de Klein você lê também no blog de Álvaro Siviero.

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Não chega a ser novidade que a relação entre músicos e maestros nem sempre é das mais tranquilas – ainda mais em momentos de reestruturação. Casos recentes, aqui mesmo no Brasil, são prova disso: o caso Osesp, no final dos anos 90, e, no ano passado, todo o imbróglio envolvendo a OSB e o maestro Roberto Minczuk. O próprio Klein deixou a direção do Teatro Municipal de São Paulo, em 2010, pouco depois de assumir o posto – e vale lembrar que sua chegada se deu após os músicos da Sinfônica Municipal pedirem a substituição do regente titular Rodrigo de Carvalho. Cada caso tem sua especificidade, mas me parece que há sempre uma questão de fundo comum: todo um universo rançoso de relações e jogos de poder – dos dois lados – que fragmenta qualquer iniciativa e debilita as condições de trabalho. É certo que esta é uma questão histórica, que não se transforma de uma hora para outra – e nesse processo, traumas como esses todos vão mesmo acontecer. Agora, enquanto não se pensar na atividade sinfônica como um todo orgânico, que deve ser fruto do diálogo em torno de um projeto comum (seja ele qual for), não vamos chegar a lugar algum…

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