Música hoje: produção, financiamento e diversidade

Música hoje: produção, financiamento e diversidade

Em seminário na III Bienal Música Hoje, de Curitiba, produtores discutiram temas como as leis de incentivo, as diferentes formas de financiamento e a necessidade de uma política cultural que se abra em direção às mais diferentes manifestações artísticas

João Luiz Sampaio

22 de agosto de 2015 | 11h46

Termina neste fim de semana a III Bienal Música Hoje. O projeto é levado adiante por um coletivo chamado entreCompositores, formado por Fernando Riederer, Lucas Fruhauf, Luiz Malucelli, Márcio Steuernagel e Vinicius Giusti. Ao longo de uma semana, são promovidos concertos e também um seminário com debates associados à criação contemporânea. O conceito é abrir espaço para a experimentação, abarcando diferentes estéticas – e chamando atenção para uma noção que muitas vezes passa à margem da atividade musical: a nova música é capaz de estabelecer pontes, diálogos e reforçar a vitalidade de um setor que não pode nem deve ser reduzido ao passado. A programação de ontem começou com um debate sobre produção cultural. Essa é uma característica do trabalho do entreCompositores: a investigação estética aliada à busca de novas formas e possibilidades de divulgação desse trabalho. Nesse sentido foi significativa a fala de Fernando Riederer, introduzindo o debate: a proposta, disse, era compartilhar experiências sobre o fomento cultural, com o objetivo de entender o que os artistas e projetos podem reivindicar juntos.

A primeira a falar foi Flávia Furtado, produtora da Bienal e de eventos como o Festival Amazonas de Ópera. Ela começou como pianista mas, com o tempo, foi estudar comércio exterior. E dessa experiência dupla veio uma constatação: “Quando eu estudava temas como indústria, parques industriais, comecei a me perguntar: e a indústria da cultura? Por que não pensar em tudo o que a cultura gera, em termos de emprego, de renda, de movimentação da economia? Em Manaus, por exemplo, a cultura tem números melhores do que os setores de química e plásticos da Zona Franca.” Essa percepção profissional da cultura, para ela, contrasta com uma realidade: a cultura no Brasil ainda é, em grande parte, vista de forma amadora.

bienal2015

Outro tema de sua fala foi a presença das leis de incentivo. Não se trata de ser contrário ou não aos mecanismos de patrocínio por meio de isenção fiscal (ela é a favor, por sinal). Mas de perceber que, no momento em que a decisão sobre o investimento fica nas mãos da empresa, o que se configura é um quadro “em que falta uma visão mais ampla sobre o leque que precisa ser aberto, sobre a necessidade de contemplar todas as áreas, as várias manifestações, sejam elas grandes ou pequenas”. Nesse sentido, a música clássica acaba sofrendo. “Veja um projeto como essa Bienal. Naquilo a que ela se propõe a fazer, a bienal é uma Ferrari! Mas ela está sem rodas, pois aqueles que poderiam investir nela não conseguem enxergar a importância de um projeto como esse.” Nesse contexto, um desafio é encontrar formas de “otimizar esses mecanismos para garantir que todas as áreas tenham representatividade”. “E isso passa por entender que não existem artes mais brasileiras que outras, todas fazem parte da nossa história.”

Ulisses Galetto foi o segundo a falar. Produtor cultural, ele se especializou no estudo dos mecanimos de investimento em cultura. Seu mestrado teve como tema a área musical; seu doutorado, o cinema. Em ambos, analisou as políticas públicas para a cultura em dezesseis países do mundo. Na linha do que colocou Flávia Furtado, ele chamou atenção para o que considera um “crime”: tentar excluir das políticas culturais o potencial do consumo da cultura. Em vez disso, o que se deveria fazer é “aumentar esse potencial, criando formas de otimizá-lo em direção a diferentes propostas artísticas e estéticas”.

Galetto é bastante crítico com relação à concentração do investimento. “O Brasil é uma monocultura”, ele diz, referindo-se aos gêneros – em especial uma pequena parcela da música popular e do cinema – que conseguem maior financiamento. Mais do que isso, no entanto: há também uma concentração regional perigosa. Ele apresentou números contundentes: 80% da verba investida por meio de leis de incentivo federais foi para projetos do sudeste (os números são de 2010); 10% para o sul; 6% para o nordeste; 3% para o centro-oeste; e 1% para o norte. Não dá, no entanto, para culpar apenas a iniciativa privada: afinal, no caso do investimento direto feito pelo governo, 66% vai para o sudeste.

Ele apresentou, no entanto, uma exceção: o projeto DOCTV, modelo de projeto público que levou em consideração a necessidade de dar às diferentes regiões oportunidades parecidas. E, para encerrar, ofereceu algumas sugestões, como a criação de modelos de isenção diferenciados entre estados e regiões; a limitação de investimentos de instituições culturais em projetos próprios; e a inserção da cultura em um mercado global de consumo.

Por sua vez, Álvaro Collaço, produtor cultural em Curitiba, onde atualmente realiza a série Solo Música na Caixa Cultural, que abriu mais um espaço para a criação contemporânea na cidade, chamou atenção para o fato de que um mercado cultural já complicado tende a ficar ainda mais estrangulado. “Hoje já vemos grandes nomes, figuras celebradas, disputando também os editais menores, destinados a princípio para o pequeno produtor. Isso vai estrangular ainda mais o mercado”, diz. Para ele, o problemas das leis de incentivo está no fato de que elas, de maneira geral, servem para patrocinar “o entretenimento e não a cultura”.

Tendências: