Música hoje: primeiras conversas

Música hoje: primeiras conversas

João Luiz Sampaio

25 de agosto de 2013 | 23h43

Wolfson, Haase e Balter

CURITIBA

Passei o fim de semana em Curitiba, acompanhando a os últimos momentos da segunda edição da Bienal Música Hoje, que começou no dia 19. Em um dia e meio, tive contato com compositores, intérpretes, membros do público. E dá para dizer que algo de especial está acontecendo na cidade por meio dessa iniciativa de um coletivo chamado entreCompositores, formado por cinco jovens autores – Fernando Riederer, Márcio Steuernagel, Lucas Fruhauf, Luiz Malucelli e Vinicius Gisuti – que têm suas trajetórias de alguma forma ligadas à cena musical da cidade. Mais do que isso, e essa percepção extravasa a programação da Bienal: a sensação é de que de fato se instala no cenário uma nova geração de autores brasileiros, que nasce já sob novos paradigmas – e isso se reflete em uma música que os distancia de seus predecessores. Das conversas e concertos, enfim, um bando de ideias foram surgindo, questões foram se colocando. Tudo ainda vai ser processado e virar matéria especial para o “Caderno 2”. Por enquanto, jogo aqui no blog a narrativa de alguns momentos do fim de semana.

O sábado começou logo cedo com uma conversa com três músicos convidados da programação: o compositor carioca Marcos Balter, hoje diretor do departamento de composição do Columbia College, de Chicago; o maestro e compositor mexicano Jaime Wolfson, radicado em Viena; e o violinista Johannes Haase, que integra o grupo Myotis Kollektiv, de Bremen. Balter é o compositor convidado do evento, escreveu uma peça especialmente para a Bienal e deu aulas a quatro jovens compositores – dois brasileiros, uma americana e um irlandês. Ele fala, de cara, da diversidade estilística e de tendências que observou não apenas entre seus alunos mas no contato com outros jovens compositores e músicos. Ele deixou o Brasil em 1996 e sempre evitou fazer da “brasilidade” uma marca. A onipresença do nacionalismo já não existe – seja como opção, seja como algo a se recusar. Jovens compositores não estão mais preocupados com a necessidade de filiação. E daí vem um contexto de rápida transformação, no qual passa a existir uma conversa estética. “As diferenças são expostas de maneira artística interessante e da fricção entre as opções de cada autor é que nasce um diálogo rico”, diz. “Os anos 50 e 60 foram extremamente importantes e perigosos, porque tentaram forçar a noção de que havia apenas uma verdade”, continua. E complementa: “Essa diversidade é histórica, sempre existiu. Quando olhamos para o passado, acabamos separando períodos e, com isso, uniformizando uma diversidade que sempre esteve presente no trabalho de compositores, de todas as épocas.” Haase entra na conversa e sugere que um evento como o a bienal precisa justamente dessa abertura para a diversidade – cabe, afinal, ao público entrar em contato com várias possibilidades de música, identificá-las de maneira pessoal e fazer suas escolhas. “É muito claro para mim que em busca da novidade, da liberdade, a América Latina é o lugar para se estar, pois, ainda que dialogue com a música da Europa e dos Estados Unidos, o cenário aqui ainda é novo o suficiente para conseguir introduzir ideias menos viciadas.”

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