Música hoje: nova realidade, velhos desafios

Música hoje: nova realidade, velhos desafios

Presença da Bienal Música Hoje já rende frutos na cena musical de Curitiba, mas terceira edição enfrenta dificuldades de financiamento

João Luiz Sampaio

22 de agosto de 2015 | 22h58

Criar um espaço para a divulgação da música feita hoje, sem patrulhas estéticas, revelando a diversidade da produção atual. Em outras palavras, deixar de lado a briga pelos poucos espaços disponíveis, como já aconteceu em gerações anteriores, e propor a união e o diálogo como forma de criar novos espaços e alternativas. Foi com esse objetivo que o ensemble entreCompositores nasceu – e idealizou a Bienal Música Hoje. O evento está em sua terceira edição e já é referência no calendário nacional.

Há dois anos, em uma tarde de domingo de 2013, conversei com os integrantes do ensemble: Márcio Steuernagel, Fernando Riederer, Lucas Fruhauf, Vinicius Giusti e Luis Malucelli. O último concerto da programação acabara de acontecer. E o momento era de balanço: nos dias seguintes, eles conversariam entre si e com os consultores artísticos da bienal – os professores Maurício Dottori e Harry Crowl – para avaliar o resultado e decidir os rumos do projeto.

bienal música hoje

Dois anos depois, uma nova conversa, no mesmo hotel do centro de Curitiba. “Nós saímos da segunda edição achando que estávamos no caminho certo. Tivemos problemas com dinheiro, mas a rede de apoios tinha crescido, a programação também. E havia empresas interessadas em patrocinar uma próxima edição, enfim, o cenário era bom”, conta Steuernagel. Eles apostaram alto, contrataram uma nova produtora, levantaram um projeto. Mas a conjuntura do país não ajudou. “Houve um recuo de patrocinadores e mesmo de parceiros institucionais, com os quais já havíamos trabalhado. E resolvemos que, se não conseguíssemos uma parte do dinheiro até o final de março, não levaríamos adiante a terceira edição.” Não conseguiram. “Nós resolvemos então que faríamos dois concertos. E conversaríamos para ver quem toparia tocar de graça na bienal”, diz o maestro e compositor.

“Na verdade, fomos contra o que pensamos lá atrás”, diz Lucas Fruhauf. “A decisão era: se não tivéssemos as condições financeiras de fazer, não faríamos. Mas o fato é que, no momento em que optamos pelo cancelamento, houve uma reação que fez com que a gente percebesse que não se tratava mais só de um projeto nosso. Dentro da comunidade musical, surgiu uma sensação de que a bienal precisava acontecer: se não tivesse dinheiro, então as pessoas se mobilizariam em torno do projeto.”

Steuernagel evoca uma citação: evento é vento. Em outras palavras, eles se deram conta de que a bienal, nas últimas edições, foi além do simples evento e ajudou a renovar a disposição em torno da nova música. “A orquestra da UFPR, anos atrás, estava apenas começando a tocar esse tipo de obra e hoje entende a interpretação da criação contemporânea como uma das marcas de seu trabalho. E se orgulha disso. Surgiu o Núcleo Música Nova, que reúne compositores e realiza, nos anos em que não acontece a bienal, o SiMN – Simpósio Internacional de Música Nova. O madrigal com o qual eu e o Lucas trabalhamos na igreja também aumentou o seu interesse pela música sacra contemporânea. E uma geração ainda mais nova de autores se reuniu no Círculo de Invenção Musical, que promove concertos e debates em torno dos desafios da criação contemporânea. No espírito de rede, todos eles estão participando da bienal e nos ajudando.” O grupo alemão Myotis Kollektiv topou voltar a Curitiba sem cachê – o ICE (International Contemporary Ensemble) também. “Essa união de quem faz música nova é especial”, diz Fruhauf. “E o que faz de Curitiba hoje um polo importante nesta área”, completa Steuernagel.

Do ponto de vista estético, a bienal segue com o mesmo propósito: abarcar a diversidade, com qualidade. E como fazer isso sem interferir na liberdade dos grupos e artistas convidados, em questões como o repertório? “Em vez de escolher as peças, criamos algumas diretrizes e cada grupo trabalha dentro delas da maneira que achar mais interessante na hora de montar o concerto”, explica Steuernagel. A primeira é ter uma peça de autor brasileiro por apresentação; a segunda, ter a obra de ao menos uma compositora (a ideia original, impedida pela falta de patrocínio, era ter uma enorme debate sobre a questão de gênero na música brasileira, na esteira do centenário de Eunice Catunda); e a terceira, programar uma peça clássica do século 20 (a ideia surgiu da constatação de que muitas das grandes obras do período nunca foram feitas na cidade). “Dessa forma, fica sólida a nossa proposta e não precisamos tolher a liberdade de quem se apresenta na nossa programação”, completa o músico.

Constatar o envolvimento e o comprometimento com a nova música que surge em Curitiba é motivo de celebração por parte do grupo. Mas isso não exclui o desejo de um futuro menos incerto. “Nós precisamos de um patrocinador, queremos transformar a bienal em um evento sustentável. No fundo, o apoio todo que recebemos este ano não nos tranquiliza, só aumenta a nossa responsabilidade”, diz Steuernagel. A pergunta é a mesma de 2013: haverá uma quarta bienal em 2017? “Honestamente, ainda não estamos prontos para pensar nisso”, diz o maestro. “A sensação é de que gostaríamos realmente de uma estrutura e de um financiamento maiores”, completa Fruhauf. Mas, apesar de tudo, a terceira aconteceu. “É como viciado. A gente diz que consegue parar de fazer bienal quando quiser, mas até agora não conseguimos”, brinca Steuernagel.