Música hoje: cadê o reco-reco?

João Luiz Sampaio

25 de agosto de 2013 | 23h49

CURITIBA

No final da tarde de sábado, o primeiro concerto: a Camerata Antiqua interpreta, na Capela Santa Maria, obras de Maurício Dottori (ex-professor dos membros do entreCompositores), Márcio Steuernagel, Marcos Balter e João Guilherme Ripper, que rege a apresentação. Antes, porém, os autores conversam com o público. Ripper vê no programa dois eixos. O primeiro é a releitura da música sacra, presente em seu “Magnificat”, na “Missa Brevis”, de Balter, e no “Ressurrexi”, de Steuernagel; o segundo, uma tentativa de recriar imagens por meio da música, tanto no “Noturno de Neon”, de Dottori, como em “From My Window 2”, de Ripper. Cada autor fala um pouco de sua obra, dos caminhos de suas inspirações – e aí entram tanto as memórias de infância de Dottori no Rio como o desejo de Balter de homenagear Padre José Penalva, Almeida Prado e Benjamin Britten, passando pela saudades do Rio experimentada por um Ripper que, em 2011, atuava como professor visitante em Nova Jersey.

Balter , então, coloca aos colegas uma provocação: quão brasileira é sua música? Em outras palavras, o que faz de suas obras brasileiras? Ele é o primeiro a responder. Nos EUA, mesmo longe da visão antiga do nacionalismo folclórico, era sempre cobrado por aqueles que esperavam algo de exótico em sua criação. “Era como se perguntassem: onde está o reco-reco”, brinca. A brasilidade, para ele, vem de outro canto: de um certo “vira-latismo” do compositor brasileiro. “Não termos uma tradição tão longa nos permite ser esteticamente promíscuos.” E isso é bom – o sopro de novidade a que Haase, na conversa da manhã, se referia. Já Dottori identifica uma relação entre um certo contorno melódico que deriva da língua portuguesa e é transferido para a criação musical. Ripper concorda: nunca pensou desta forma na questão mas, se a linguagem estrutura o pensamento, é natural que ela estruture também o pensamento musical. Márcio, o mais novo dos nomes presentes, lembra que já estudou a estrutura da língua élfica criada por Tolkien para “O Senhor dos Anéis”. “É algo tão fascinante que fiquei muito irritado com a trilha dos filmes, que ignorou as possibilidades de se relacionar com uma língua tão fascinante.” Linguagem e pensamento musical – Ripper brinca que poderiam adiar o concerto e gastar pelo menos mais uma hora discutindo o assunto. Não dá mas, antes que a apresentação comece, Márcio conclui: “Talvez o brasileiro em nossa música seja aquilo que transparece apesar de nós mesmos.”

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