Música, expressão, reflexão: uma conversa com a pianista Sylvia Thereza

Música, expressão, reflexão: uma conversa com a pianista Sylvia Thereza

Pianista brasileira radicada na Bélgica fala sobre sua trajetória e a necessidade de pensar a música em diálogo com outras formas de arte e áreas do conhecimento, com uma reflexão a respeito da função social do fazer musical

João Luiz Sampaio

06 Julho 2016 | 17h36

RIO – Na última quinta-feira, a pianista brasileira Sylvia Thereza levou o público da Sala Cecília Meireles em uma viagem pelo romantismo. Tocou obras de Beethoven, Chopin, Schumann e Liszt. Uma viagem, portanto, musical – mas não só. “O momento do romantismo tem me atraído muito pela sua filosofia, pela proposta de uma arte que não é mero entretenimento, uma arte que propõe reflexão”, diz. É uma busca, ela conta, que remonta ao seu começo na música. Sylvia nasceu em 1981 no Rio, onde estudou com Myrian Dauelsberg. No início dos anos 2000, foi uma das criadoras de um projeto chamado Música dá Futuro, dedicado a levar a música clássica a comunidades carentes da cidade. Conheceu, então, a pianista portuguesa Maria João Pires. Trabalhou com ela na Bahia; hoje, é sua assistente na Chapelle Royale de Bruxelas; e, no ano que vem, voltará ao Brasil com o projeto Partituras. “Ele é resultado de um questionamento da Maria João sobre em que sentido a música pode ser útil hoje, como ela pode transformar a sociedade”, ela explica na entrevista a seguir, concedida logo após o recital de quinta, na qual fala de suas visões sobre o fazer musical.

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Romantismo

“O momento do romantismo tem me atraído muito pela sua filosofia, pela proposta de uma arte que não é mero entretenimento, uma arte que propõe reflexão, que vai contra a ideia de que a música deve ser servida a uma burguesia como mais um chá inglês ou um champanhe. Hoje está acontecendo algo parecido. A música ganha usos que não são os dela, sua mensagem é deixada de lado. Instintivamente, acho que todo mundo está pronto para a música. Todo mundo carrega dentro de si a necessidade da catarse, do mergulho profundo no lado mais escuro da existência. E o artista precisa saber que é só dessa forma que podemos acessar o infinito, algo extradimensional.”

Música dá Futuro

“A questão de formação de plateias é importante, mas eu vejo muitos músicos seguindo no caminho contrário, discutindo a modernização da música como forma de atrair público. No Música dá Futuro, trabalhamos com 12 mil crianças, sempre com o repertório como o que eu toquei hoje, Chopin, Beethoven. E a resposta era imediata. Enchíamos ginásios com 600, 700 crianças. Todas em silêncio. Fazíamos uma imersão, acampávamos nas escolas com o piano, falando de música, de filosofia, de arte. E tocávamos o nosso repertório. E os meninos são capazes de sentir essa música. Foi uma experiência maluca, em vários sentidos. Um menino me perguntou uma vez: tia, posso chorar? Uma reação como essa mostra o poder real da música. Na sala de concertos, isso às vezes fica camuflado. Quero voltar a fazer esse tipo de trabalho, pois o Brasil tem essa carência. Em uma das apresentações, traficantes entraram armados. E uma professora explicou: quando o bicho pega aqui na escola, são eles que eu chamo. O Estado, ali, é nulo, então a referência é o tráfico. O que vai ser desses meninos? É uma situação absurda, mas é real.”

O ritual do concerto

“A arte precisa ser, acima de tudo, livre. Qualquer forma de transmitir a expressão é válida. O problema é sempre o que se engessa. Eu faço coisas muito interessantes com a Maria João Pires na Bélgica. Fizemos, por exemplo, um concerto de dez horas sobre o Império Austro-Húngaro, com um filósofo, dois atores. Mas acho também muito bonito um recital como esse que acabo de fazer, é um momento único mas, claro, não é o único momento possível para o fazer musical. Se há conteúdo, se não se recorre a artificialidades, acho a experimentação válida.”

Música, reflexão, expressão

“Isso começou muito cedo na minha vida, a partir da observação da vida dos compositores. Beethoven era um filósofo. A música dele carrega sempre uma visão. Schumann era escritor. A música me salvou. Quando você começa no Brasil, é muito difícil viver de arte. E eu não tive uma família que pudesse me mandar para fora, sempre precisei lutar muito. Mas eu tinha essa relação profunda com a música, uma relação de troca, uma forma de expressão mais intensa, até espiritual. Pois a música nos conecta com uma realidade que não está aqui, com um mundo ideal, sem clichês. Ela é o espaço de todas as expressões humanas em sua forma mais pura. E eu sempre gostei de ler, de poesia. E a música é retórica, é contar histórias. Se você não a associa com outras áreas, você perde em expressão. E eu senti que estudar música não é suficiente. A mente precisa propor diálogos ou então não há sentido. No Música dá Futuro, trabalhávamos essa ideia. Com a música, o ser humano sente que tem voz. Só o fato de pensar e entender o que se está ouvindo já te proporciona essa voz. A música comunica algo que a língua não consegue transmitir.”

Maria João Pires

“A NHK fez um documentário sobre os workshops dela. Eu trabalhava com a Myrian Dauelsberg na época e ela me indicou para a Maria João Pires. A gente se conheceu ali e foi um choque enorme para mim. Caramba, isso existe!!! Eu jamais podia imaginar que alguém tão famosa pudesse ter tamanha simplicidade, jantar e almoçar na mesa com todos os empregados, trazer para dentro de casa moradores de rua que pediam comida. O lado humano dela me chamou muito a atenção, mais até do que o histórico artístico dela. E aí essa empatia cresceu. E ela me chamou para ir com ela para a Bahia, onde me orientava sempre. Começou, então, um aprendizado profundo. Ela é uma pessoa fantástica. Apesar do jeito dela, é muito rígida, vem da escola alemã, tem uma fidelidade com a partitura que é muito bonita. Quando ela recebeu o convite para ir para a Bélgica, fui com ela. Lá, ela tem projetos muito legais. Um deles se chama Partitura. Ele é resultado de um questionamento da Maria João sobre em que sentido a música pode ser útil hoje, como ela pode transformar a sociedade. E, no ano que vem, como ela vai sair da escola, resolveu se dedicar bastante a ele. Eu vou trabalhar no braço brasileiro do projeto, que já existe no Burundi e será instituído também na Turquia, entre outros lugares. Será a partir do ano que vem.”

O momento do recital

“Ser pianista é um negócio muito difícil. São horas de dedicação, muita disciplina. Quando se propõe a ser artista – porque acho que ninguém nasce artista –, a pessoa inicia um caminho de auto-superação, tem que ultrapassar a si mesma, sempre. Não é fácil encontrar, ao tocar, o caminho tão estreito da comunicação pura com a plateia, há sempre coisas para atrapalhar, como o ego, etc. É um caminho de superação.”