Música e silêncio numa tarde em Inhotim

Música e silêncio numa tarde em Inhotim

João Luiz Sampaio

10 de março de 2014 | 17h53

 

O moteto é uma composição escrita para diversas vozes, usualmente a partir de um texto sacro e sem acompanhamento orquestral. Em Inhotim, porém, transformou-se em uma experiência sonora das mais interessantes, pelas mãos da artista plástica canadense Janett Cardiff.

Ela é a autora de Forty Part Motet, de 2001, que está em um dos pavilhões do museu mineiro. O que a artista faz é dividir quarenta alto-falantes de modo oval por uma sala. Já do lado de fora, você ouve a música – uma peça do século 16 do compositor Thomas Tallis. O interessante, porém, é a experiência de caminhar por dentro do “ovo”. Se você para no centro, ouve o coro de quarenta vozes como um todo. Mas, se caminha pelos alto-falantes, consegue discernir e ouvir individualmente cada uma das vozes do grupo – o Salisbury Cathedral Choir.

A obra foi exposta no ano passado nos Cloisters, espaço do Metropolitan Museum de Nova York no norte da cidade, em um antigo mosteiro – e já passou também pelo MoMA Ps1 e por instituições e igrejas da Inglaterra. A própria artista explica que seu objetivo foi fazer o público “se conectar intimamente com as vozes”. “Isso também revela a obra musical como algo em constante transformação e construção. Da mesma forma, estou interessada em como o som pode construir fisicamente o espaço de modo escultural.”

Mas Cardiff diz uma outra coisa, que me parece fundamental na experiência que ela propõe. O público, em um concerto, ela lembra, se senta de frente para o coro e recebe a música de modo linear. Assim, com sua obra, ela quer oferecer a experiência do ponto de vista do intérprete.

A graça, acredito, está em se levar ao extremo esta sensação, ou seja, se assumir como intérprete. Quando você cola o ouvido em um dos alto-falantes, ouve a voz do cantor que, em um coro, estaria ao seu lado; e, ao fundo, os ecos da composição como um todo. No limite, como intérprete, a música que você produz é tão importante quanto a sua capacidade de ouvir quem está do seu lado – e dialogar, assim, com a interpretação como um todo.

A voz do outro é uma ação perante à qual cabe uma reação. No nosso caso, não se trata de se unir à cantoria. Mas de refletir sobre a relação do que é indivíduo e o que é coletivo. Entre a voz e o todo, há um espaço milimétrico em que reina o silêncio. E aí eu me lembro de Daniel Barenboim conversando com Edward Said no livro Paralelos e Paradoxos.

Toda música, diz o maestro, é um desafio ao silêncio – e é ele, assim, que dá algum sentido à ruptura proposta pelo som. Da mesma forma, toda música será apenas fragmento – e é por isso que ele prefere substituir o termo “interpretação”, que subentende uma lógica e a existência de uma referência, por “realização física da música”.

Barenboim e Cardiff partem de pontos distintos – mas chegam a conclusões parecidas.

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