Música e gesto, ou o diálogo entre duas linguagens

Música e gesto, ou o diálogo entre duas linguagens

"Estudo 1 para Dançarina e Quarteto" discute possível relação entre a dança e a música - e também o sentido do trabalho do criador e do intérprete

João Luiz Sampaio

22 Agosto 2015 | 11h58

A segunda parada da Bienal Música Hoje na sexta-feira foi uma amostra do trabalho do Grupo de Composição do SESI, orientado pelo compositor e professor Harry Crowl. No TEUni, teatro experimental da UFPR, a apresentação começou com uma peça para violoncelo solo de Crowl, escrita no contexto da produção de um documentário: o compositor foi filmado ao longo de uma hora, enquanto escrevia a peça. Em seguida, apresentou-se o Estudo nº 1 para Dançarina e Quarteto. A música é do compositor peruano radicado em Curitiba José Luis Manrique e a coreografia, da bailarina Marila Velloso. E o quarteto foi formado por Denusa Castellain (flauta), Samuel Junior (clarone), Shante Cabral (violoncelo) e Dhiego Lima (violino).

Na peça, é a bailarina quem rege os músicos do quarteto. Para tanto, foi criado um vocabulário comum às duas linguagens. Cada pedaço do corpo refere-se a um instrumento: a mão direita, por exemplo, refere-se ao violino; o pé direito, ao violoncelo; a mão esquerda, à flauta; o pé esquerdo, ao clarone (para ajudar os músicos, a artista plástica Julia Arbigaus criou uma linguagem visual para cada pedaço do corpo).Além disso, cada movimento, cada gesto, ganha um significado musical (um punho fechado, por exemplo, significa o vibrato nas cordas). É assim que a bailarina e sua coreografia podem reger os músicos. Com um pequeno, mas fundamental, detalhe: a coreografia não é preestabelecida mas, sim, improvisada durante a apresentação.

bienal música hoje

No plano de fundo da peça, está uma percepção a respeito da linguagem. Manrique chama atenção para o fato de que o trabalho do compositor é criar um recorte, definir algo a partir da partitura, criar um mundo sonoro específico. Em outras palavras, o que faz o compositor é “fechar”. Na dança, no entanto, em especial na improvisação proposta por Marila, o caminho é outro: a coreografia, em tempo real, refere-se ao “abrir”. “São linguagens distintas, com pressupostos diferentes, e por isso mesmo o diálogo entre elas pode levar a uma reflexão sobre as regras e caminhos de cada uma delas”, diz Manriques. E Marila segue em direção parecida quando afirma que, para o universo da dança, em um trabalho como esse é “possível vislumbrar um novo método de trabalho com o intuito de quebrar a padronização do movimento”. Mais do que isso. Na conversa com o público, após a apresentação, coloca-se outra questão de fundo: qual a função – ou o sentido – do trabalho do criador e do intérprete?

Música e imagens
Já no concerto da noite, na Capela Santa Maria, a relação proposta foi entra a música e a imagem, por meio do trabalho da pianista Ana Cláudia Assis e do compositor João Pedro Olivera. Ela é brasileira; ele, português; e ambos trabalham atualmente na Universidade Federal de Minas Gerais. O concerto uniu peças para piano e sons eletrônicos, para vídeo e sons eletrônicos e para piano, vídeo e sons eletrônicos, de autores como o próprio Oliveira, Daniel Blinkhorn, Mario Mary e Oiliam Lanna, entre outros. O objetivo era “apresentar diferentes tipos de expressão artística onde o ambiente acústico e eletroacústico constróem, juntos com a imagem, um universo sonoro singular, criado e controlado pela mistura entre instrumento e máquina, num jogo imagéticos de sons e memórias”.