Música e diálogo nas ruas de Jerusalém

Música e diálogo nas ruas de Jerusalém

Projetos musicais realizados na cidade trabalham em favor da possibilidade de diálogo entre as religiões

João Luiz Sampaio

23 de junho de 2015 | 12h37

Estive em Israel no começo de junho para conhecer o Festival de Ópera de Massada, realizado em um palco construído em pleno Deserto da Judeia, próximo ao Mar Morto. O evento é uma iniciativa da Ópera Israel, companhia baseada em Tel Aviv, que completa 30 anos em 2015 e encara um desafio: entender-se como a única casa de ópera do país. Isso significa levar espetáculos a outras cidades – e, consequentemente, buscar novos formatos, sem perder de vista a conquista de um novo público. Nesse processo, eles estão refinando também um projeto de ópera nas escolas. Escrevi sobre o tema – e sobre outras questões, como a ausência de Wagner do repertório – no Caderno 2. Mas um outro tema me chamou atenção, durante uma visita a Jerusalém e uma conversa com membros da equipe do Festival de Música Sacra da cidade.

Jerusalém é uma cidade historicamente importante para três religiões monoteístas – o Islamismo, o Judaísmo e o Cristianismo. Por conta disso, é símbolo daquilo que elas têm em comum – e, ao mesmo tempo, da dificuldade que encontram em dialogar. Há, obviamente, todo um universo de questões políticas a serem consideradas, mas o que me interessou foi, antes, outra reflexão: qual o papel que a arte pode ter no diálogo entre as diferenças, em especial em um contexto-limite como o de Jerusalém?

Catedral de São Tiago, no bairro armênio de Jerusalém

Catedral de São Tiago, no bairro armênio de Jerusalém

A resposta surge durante um passeio pela cidade antiga, na companhia de Kim Weiss e Meytal Ofer, representantes da Jerusalem Season of Culture, idealizadora do Festival de Música Sacra. A ideia era fazer um “roteiro musical” pela cidade, nascido da pesquisa sobre o modo como cada religião utiliza a música em seu dia a dia. A primeira parada foi a igreja no bairro mais antigo de Jerusalém na qual ouvimos o final de uma cerimônia realizadas pelos sacerdortes armênios. Em seguida, o túmulo do Rei Davi e o Muro das Lamentações, dois espaços em que se pode, dependendo do horário do dia, ouvir os cantos dos judeus ortodoxos. De lá, uma caminhada até a Igreja do Santo Sepulcro e o canto dos monges, em torno das pedras do Gólgota , onde acredita-se que Jesus foi crucificado. E, para encerrar, no final da tarde, a música criada pela sobreposição dos chamados para reza feitos, a partir das mesquitas, pelos muezzin, religiosos que convocam os muçulmanos para a oração. No roteiro, é possível ainda incluir a Igreja de Maria Madalena, construída pelos russos fora dos limites da cidade antiga.

“Jerusalém passou por diversas transformações ao longo dos séculos, de acordo com o período histórico, mas a cidade ainda assim nos oferece a sensação de que ela sempre foi desse jeito – e sempre será. Essa ideia de permanência está obviamente ligada às tradições muito fortes que ganham voz nessas ruas. Investigar essas tradições, do ponto de vista musical, é recuperar a história e ao mesmo tempo propor um diálogo sobre elas”, diz Meytal Ofer. Ela conta que um de seus projetos está voltado para as crianças: meninos e meninas de diferentes religiões são convidados a conhecer outras crenças por meio do contato com a música. É uma maneira, ela continua, de reconhecer a diferença – mas também de aceitá-la. “O ato de fazer música une as pessoas e é a porta de entrada ideal para conhecer uma comunidade.”

Para Kim Weiss, Jerusalém é uma cidade compreendida como “um espaço de rivalidades”. “Mas por que não pensá-la, a partir da diferença entre as crenças, como um espaço de aproximações?”. A realidade, no entanto, às vezes empalidece o discurso. “O que acontece é que cada pessoa que anda por essas ruas tem uma narrativa própria, uma história, uma experiência herdada da família. Essas narrativas são muito fortes e, a certa altura, é necessário reconhecer que há um limite para as palavras. Diálogos não nascem de maneira forçada. O que se pode fazer é apenas abrir pequenas portas. E torcer para que a música faça as pessoas entrarem por elas.”

Isso vale tanto para o projeto de conhecer a cidade por meio do fazer musical das religiões como para o Festival de Música Sacra. O evento foi criado em 2012 é realizado anualmente – em 2015, acontece de 30 de agosto a 4 de setembro. A programação inclui artistas de diferentes religiões e nacionalidades: a agenda deste ano tem desde o estudioso judeu Shuli Rand até o pianista argelino Karim Ziad, passando por grupos tradicionais berber do Saahara marroquino e pelo quarteto de Jivan Gasparyan, intérprete do duduk, espécie de flauta originária dos pastores das montanhas armênias. “Cada artista representa uma tradição cultural. Mas o que tem acontecido, cada vez mais, é que, reunidos na mesma cidade e no mesmo festival, eles começam a comparecer aos shows uns dos outros e, em alguns casos, sobem ao palco para apresentações conjuntas. Nada é forçado pela direção artística. E nessas horas você começa a ver algumas portas querendo se abrir.”