Música clássica e ópera: o que acontece depois da pandemia?

Música clássica e ópera: o que acontece depois da pandemia?

Oito semanas de isolamento depois, não dá mais para ignorar o impacto que a paralisação (e o que acontece depois dela) terá na atividade musical brasileira

João Luiz Sampaio

08 de maio de 2020 | 13h55

O mundo da música clássica reagiu rapidamente à interrupção da temporada de concertos e óperas. Antes que artistas do mundo pop gerassem notícias com suas lives, orquestras, teatros de ópera e grupos de câmara já se haviam organizado para criar temporadas virtuais que, a essa altura, contemplam todos os gêneros e repertórios.

Elas não se comparam à experiência do concerto ao vivo, justo. Mas a música manteve-se presente, mostrando como esse setor vem tentando estar antenado às novas tecnologias. Essa é uma boa notícia. Assim como a percepção, mais clara do que nunca, do papel que a arte desempenha na vida das pessoas, ainda mais em tempos de crise.

Fico com apenas um entre muitos exemplos. No final de abril, o Metropolitan Opera realizou uma gala de quatro horas, com cantores e músicos de todo o mundo. Uma das sequências mais marcantes foi a iniciada pela Ave Maria de Verdi interpretada por Renée Fleming, seguida do Intermezzo da Cavalleria Rusticana, de Mascagni, e de uma leitura de Ombra mai fu, de Händel, pelo naipe de violas e a mezzo soprano Joyce Di Donato, em homenagem a um colega da orquestra vítima do coronavírus Covid-19.

 

A música te coloca em contato direto com a dor daquela perda e te faz mergulhar nos seus próprios medos e incertezas. E você sai melhor disso tudo. Não há paradoxo. “A música, se faz de fato algo, é nos tornar mais crus, suscetíveis à dor, à nostalgia e a memória”, escreveu recentemente Alex Ross na New Yorker. E, sem isso, sem esse mergulho muitas vezes dolorido na alma, não há caminho de esperança possível.

A crença no valor da arte, no entanto, nem sempre significa a disposição em investir em cultura. E, entrando na oitava semana de isolamento social, não dá mais para ignorar o elefante na sala. E, perante o noticiário sanitário e econômico, e a noção de que o fim da crise não vai significar um retorno imediato à normalidade, talvez seja hora de nos perguntarmos: o que acontece nos meses que temos pela frente?

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Em 2016, o prefeito eleito de Curitiba decidiu cancelar a Oficina de Música da cidade, fundamental no calendário musical brasileiro e latino-americano. A justificativa foi a falta de verbas e a necessidade de ajuste nas contas do município. Entre idas e vindas, defendeu a decisão com uma pergunta: o que os habitantes da cidade preferiam – ter um violinista tocando ou um médico para atendê-lo no hospital?

A pergunta era de profundo cinismo. Não apenas porque, à luz da organização do estado brasileiro, cabe ao governo oferecer ambos – e não colocar ao contribuinte uma escolha. Mas, principalmente, como mostrou um jornal na época, porque o dinheiro investido na oficina seria suficiente para pagar apenas um dia de funcionamento do sistema curitibano de saúde. Dificilmente, portanto, resolveria o grave problema.

A questão, na verdade, é simbólica. E as declarações do prefeito, que não está sozinho nesse tipo de argumentação, são reveladoras da visão que se tem a respeito da cultura como algo supérfluo, de que se pode abrir mão facilmente e sem consequências. Da mesma época é o fim do Ministério da Cultura, revogado depois; e o início dos cortes sistemáticos do investimento em cultura em estados como o Rio de Janeiro e em São Paulo. Em 2019, em meio a um corte em todo o orçamento do estado de São Paulo, o proposto para a cultura representava o dobro do sugerido a outras áreas. Não houve disfarce: o governador João Dória afirmou então com todas as letras que a cultura não era prioridade – antes de, semanas depois, voltar atrás nos cortes.

Naturalmente, estamos diante de uma crise de saúde de proporções inimagináveis. E ela se impõe como prioridade. Todos os esforços são necessários, assim como a atenção ao impacto em diversos setores. Mas a cultura precisa ser entendida como um deles, o que não vem acontecendo. Ela não é nem citada entre as parcas medidas do governo federal para aplacar o impacto da paralisação na vida dos trabalhadores. A secretária especial da área, Regina Duarte, sumiu – e, depois de uma campanha de artistas que perguntavam “Cadê Regina?”, apareceu por meio de uma nova instrução normativa da Lei Rouanet que, se não atrapalha, também não ajuda de maneira significativa a vida dos produtores e projetos culturais. Ontem, concedeu entrevista à rede CNN em que reclamou da “morbidez” de se falar na perda de vidas que vemos crescer diariamente e interrompeu a conversa ao ser questionada sobre a falta de diálogo com a classe artística.

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Imaginar, a essa altura, algum tipo de investimento específico para a área é desafio até mesmo para o mais ferrenho otimista. Mas, na verdade, em meio a um cenário que é, naturalmente, incerto, não é preciso ser nem pessimista nem otimista. É hora, acima de tudo, de observar os primeiros sinais que começam a aparecer. E eles não são bons.

Entre as principais orquestras brasileiras, músicos foram colocados de férias em abril e, agora em maio, algumas delas já determinaram reduções salariais, abrindo a possibilidade para que os músicos possam pedir ao governo a complementação prevista na Medida Provisória (o que só ajuda aqueles que têm contrato via CLT).

O quadro geral é de corte de repasses de verbas, mesmo para as organizações sociais, uma vez que os contratos de gestão permitem a revisão de termos acordados. Ele se espalha pelo Brasil. E, em São Paulo, o horizonte com que se trabalhará já é mais claro. Um levantamento da Associação Brasileira de Organizações Sociais da Cultura já mostra o impacto que o corte de 50% no repasse do governo do Estado de São Paulo nos meses de maio, junho e julho (levando a um corte de 14% no ano) terá nos projetos.

No meio musical, isso vai levar: no Osesp e na Sala São Paulo, à “necessidade de ajustes de custos e despesas, podendo acarretar redução salarial”; no Conservatório de Tatuí, a “demissões, redução de salários e corte de atividades”; no Projeto Guri do interior, à “redução salarial para 1.400 colaboradores e cortes em custeios e áreas administrativas”; na Emesp, no Projeto Guri da capital e no Theatro São Pedro, a “cortes em custeio e áreas administrativas, redução salarial, demissões, redução de dois polos de ensino do Guri e adiamento de atividades artísticas para 2021”.

A justificativa do governo paulista, ao cortar R$ 69 milhões nesses três meses, era a de que, com os teatros, orquestras e museus parados, a única verba necessária seria aquela destinada a pagamento de salários. Isso, claro, tornaria difícil a reprogramação de atividades adiadas por conta da paralisação. Mas ao menos garantiria empregos. A realidade, porém, é outra. A expectativa é de que 4.400 pessoas sejam demitidas, por uma razão simples: o corte atual soma-se a reduções orçamentárias sistemáticas desde 2014, que fizeram com que algumas instituições já não conseguissem pagar seus salários apenas com a verba repassada pelo estado. A possibilidade oferecida de utilização dos fundos de reserva também não alivia muito o cenário: consegue-se, com ela, reduzir em média de 14% para 11% o corte projetado para o ano de 2020.

E há também o impacto geral dos cortes na área cultural. Em São Paulo, a Secretaria da Cultura e Economia Criativa prevê perda de R$ 34,5 bilhões com a paralisação na área cultural – em São Paulo, afinal, ainda que represente apenas 0,8% do orçamento, a área significa 3,9% do PIB do estado. E, em termos nacionais, a lógica se mantém. Segundo pesquisa recente do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais (Cedepar-UFMG), para cada R$ 1 que se deixa de investir em cultura, a economia como um todo perde R$ 1,6.

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A postura das instituições musicais brasileiras perante esse quadro é ainda uma incógnita. O que se sabe é que elas trabalham nesse momento pela remarcação dos concertos e óperas adiados (o termo cancelado não tem sido geralmente usado pois, quando um evento é cancelado, é preciso devolver o valor do ingresso). Mas a ideia de que toda a temporada suspensa poderá ser realizada quando tudo acabar parece cada vez mais distante, pelo simples fato de que não há como saber quando isso deverá acontecer, inclusive por conta da resistência de parcela da população em aceitar o isolamento social, o único meio conhecido hoje para se evitar o colapso do sistema de saúde, que naturalmente fará do vírus um inimigo ainda maior do que já é.

Não há horizontes bem-definidos. Mesmo em países que já passaram pelo pico de contaminação, como a Áustria e a Alemanha, não há consenso sobre quando se poderá voltar às atividades pré-pandemia. No primeiro caso, há previsões que sugerem um retorno no início do próximo ano; no segundo, fala-se em meados do próximo ano. O maestro Simon Rattle, diretor da Orquestra Sinfônica de Londres, afirmou recentemente que não se imagina, na Inglaterra, um retorno antes de novembro – e que os planos contingenciais precisam ser refeitos a cada duas semanas, pois o cenário se transforma rapidamente, as novidades não param de chegar (e a maior parte delas não é boa).

Some-se a isso o que a jornalista Camila Fresca anotou em um texto recente: a música clássica e a ópera são um tipo de atividade que acontece em locais fechados, onde mais de mil pessoas se reúnem, sentadas a dez centímetros umas das outras. Em um cenário de monitoração constante para redução de casos e possíveis quarentenas periódicas, como o proposto por especialistas em infectologia, acertar uma programação a longo prazo será um pesadelo, para não falar do fato de que as salas de concerto e teatros de ópera dificilmente serão lugares onde vai se querer estar nos próximos meses.

Na semana passada, Rattle, Alan Gilbert (diretor da Elbphilharmonie de Hamburgo), Carina Kannelakis (Orquestra Filarmônica da Rádio de Amsterdã) e Daniel Harding (maestro que tirou um período sabático para se dedicar à carreira de piloto de avião) realizaram uma conversa on-line para tratar desses assuntos. Como imaginar o retorno das atividades nesse contexto? Concertos precisarão acontecer com menos músicos? Que impacto isso terá no repertório? As plateias precisarão ser menores? Como vai ser, então, a relação com o público? Como imaginar o papel das orquestras na internet que vá além da transmissão de concertos antigos? Como monetizar essa atividade? São muitas perguntas, e a única resposta consensual foi a de que as opções que se colocam são a reinvenção completa da atividade musical ou continuar a seguir os modelos tradicionais, fazendo menos, e para menos pessoas.

Tudo isso oferece um desafio sem precedentes aos gestores culturais, ao qual outro precisa ser acrescentado. Falamos até agora de instituições bem ou mal consolidadas, apesar dos problemas financeiros. Mas o meio musical é composto de milhares de profissionais que, sem o respaldo institucional, são fundamentais para um ecossistema equilibrado: artistas freelancers, produtores independentes, grupos de câmara, alunos de música, professores, e assim por diante. Para eles, o impacto é muito maior e, em muitos casos, já começa a ser sentido de forma profunda.

Na última década, em todo o mundo, e no Brasil também, tem se discutido o papel de uma instituição cultural e musical à luz dos desafios de nossa época: a necessidade do diálogo com a comunidade, a busca por novas plateias, novas formas de comunicação com o público, uma maior presença no debate social e cultural, atenção a questões que extravasam o campo artístico, o diálogo com outras artes – e como isso tudo se traduz em ações concretas. Cada pedaço desse debate abre infinitas outras discussões saudáveis quando aceitas com maturidade, sem o discurso fácil de que pensar de maneira aberta sobre o que fazemos significa abandonar o valor da arte: afinal é justamente a crença nesse valor que leva à necessidade de repensá-lo em nosso tempo.

Como pano de fundo para todos esses temas, no entanto, há uma percepção comum, a de que instituições musicais, em especial em um contexto como o brasileiro, no qual elas representam a maior faixa de mercado (e o maior foco de investimento público e privado), não deveriam apenas cuidar de si próprias, mas atuar como representantes, embaixadoras de toda uma forma de manifestação artística. Em outras palavras, elas deveriam ter um papel difusor de ideias e ações que vão além de suas temporadas, influenciando outras atividades e apontando caminhos para o setor.

No mundo pós-pandemia, não é demais imaginar que isso vai significar também olhar para todo esse ecossistema e pensar formas de ajudá-lo, de incorporá-lo em suas ações. Estender os braços de maneira generosa (e não estou falando em termos financeiros), sem guetos, sem preconceitos, em direção a um mercado que precisará se reinventar. Como se faz isso? Não sabemos a resposta. Mas ela precisará passar pelo diálogo, pela atuação de fato em rede que permita ações conjuntas, pela coragem de repensar a configuração de suas próprias atividades. Manter uma temporada alheio ao que se passa à nossa volta, enquanto todo o ecossistema sofre com as consequências dessa paralisação, vai reforçar a ideia de alienação, cortar a capilaridade do setor e nos fazer voltar trinta anos no tempo, ceifando gerações de novos artistas que nos últimos anos nos dedicamos a formar – e que mesmo antes da pandemia já tinham futuro incerto.

Fazer menos, para menos pessoas, com menos profissionais envolvidos, não pode ser uma opção. Mas, em momento de crise, a única forma de evitar essa fórmula é pensar em maneiras de fazer diferente. Há oito semanas, temos visto mais uma vez o valor da arte na vida das pessoas. E temos desejado que, quando tudo isso acabar, possamos voltar a um mundo novo. Mas essa novidade precisa começar no quintal de casa.

Sorte a todos nós.

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