Morre o cravista Nicolau de Figueiredo

Morre o cravista Nicolau de Figueiredo

Após anos na Europa, onde foi professor do Conservatório de Paris, ele estava à frente atualmente do núcleo de música antiga da Escola Municipal de Música. "Seja independente", dizia aos alunos

João Luiz Sampaio

06 Julho 2016 | 15h03

Morreu na manhã desta quarta-feira vítima de um enfarto, o cravista brasileiro Nicolau de Figueiredo. Um dos mais destacados artistas brasileiros da atualidade, ele estava com 56 anos e, desde 2014, comandava o Núcleo de Música Antiga da Escola Municipal de Música de São Paulo, sua cidade natal, para onde voltou em 2011, após anos na Europa.

Figueiredo estudou piano, órgão, cravo e música de câmara no Brasil com Irene de Sá Picazio, Sonia Muniz, Maria Helena Silveira, Helena Jank e Roberto de Regina. Em 1980, mudou-se para a Europa, onde foi aluno do Conservatório de Música de Genebra, estudando com Christiane Jaccottet e Lionel Rogg e, mais tarde, Gustav Leonhardt. Venceu, em 1984, o Concours International de Clavecin de Nantes e, um ano depois, o Concorzo Internazionale de Nantes, que lhe abriram as portas dos principais palcos europeus.

nicolau

“Saí do Brasil para ganhar experiência, pois em 1980 não havia nada parecido aqui com o que havia lá. Hoje em dia já tem. Quando um aluno me diz que quer ir para lá, eu digo que ele tem que se preparar antes. Não adianta ir para o exterior achando que vai ficar pronto lá. Aqui tem professores muito bons. Os alunos conseguem uma base muito boa. Temos professores excelentes de técnica vocal”, lembrou ele em entrevista concedida em 2012 ao site da Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp), onde ofereceu masterclasses.

No início dos anos 2000, Figueiredo passou a dar aulas no Conservatório de Paris. Lançou o CD 13 Sonatas de Domenico Scarlatti, que a revista francesa Diapason definiu como um dos dez principais discos de 2006 (o álbum foi lançado no Brasil pelo selo Clássicos). Participou, ainda, de uma importante gravação da ópera As Bodas de Fígaro, de Mozart, regida por René Jacobs. E, como convidado, atuou ao lado de grupos importantes como o Concerto Köln, a Freiburger Barockorchester e a Akademie für alte Musil de Berlim, referências incontornáveis do universo da música antiga e barroca. Em 2010, lançou, com o violoncelista Dimos Goudaroulis, o disco O Tenor Perdido.

Em 2011, voltou ao Brasil. Um ano depois, comandou uma montagem da ópera Orfeu e Eurídice, de Gluck, no canteiro de obras da Praça das Artes, em São Paulo, com resultados artísticos que ainda hoje seguem como referência nesse repertório por aqui. Na ocasião, falou ao Estado sobre a decisão de voltar ao país. “Primeiro, quis estar perto de minha mãe, que já está com idade, e isso se coloca acima de qualquer outra necessidade minha. Em segundo lugar, ainda que eu tenha aprendido tanto lá fora, foi aqui no Brasil que eu peguei o gosto pela música barroca, influenciado por professores e artistas como Roberto Schnorrenberg, Roberto de Regina e Helena Jank. É importante para mim poder estar aqui e retribuir tudo que me foi ensinado.” Na mesma ocasião, falou sobre o cenário no Brasil dedicado à música barroca. “Houve um crescimento grande na pesquisa e interpretação do repertório barroco no Brasil. Mas ainda precisamos de uma iniciativa contínua, regular. E de um espaço. É um processo lento, mas vai acontecer.”

Nos anos seguintes, aconteceu, com iniciativas como o Núcleo de Música Antiga da Emesp, comandado por Luis Otávio Santos, ou pelo trabalho do próprio Figueiredo na Escola Municipal de Música. “Acho muito importante que os alunos estudem por si mesmos. Eles sabem ler música, sabem o que está lá (na partitura). O professor não precisa ficar ali do lado sempre. Aqui – não quero generalizar – mas ainda há uma infantilidade, uma necessidade de pedir muita ajuda. Se ajude. Não precisa perder tanto tempo e se desgastar. Antes de abrir a boca para cantar, saiba bem o que vai cantar. Não espere que alguém venha e te corrija. Seja independente.”