Morre nos Estados Unidos o maestro Kurt Masur

Morre nos Estados Unidos o maestro Kurt Masur

Maestro comandou orquestras como a Filarmônica de Nova York, teve atuação política fundamental na Alemanha e manteve relação estreita com o Brasil

João Luiz Sampaio

19 de dezembro de 2015 | 14h17

Morreu na manhã deste sábado, 19, aos 88 anos, o maestro alemão Kurt Masur. Figura fundamental da música clássica mundial na segunda metade do século 20, ele era um dos últimos representantes de uma geração de maestros associados intimamente com o grande repertório germânico e mantinha uma relação estreita com  a cena musical brasileira, atuando à frente de orquestras do país e dando aulas de regência.

kurt_masur

Kurt Masur nasceu em Brieg em 1927. Estudou piano e violoncelo, mas um problema no tendão o impediu de seguir a carreira de instrumentista. Voltou-se, então, para a regência. E logo assumiu postos importantes, como o de diretor da Komische Oper, de Berlim, da Filarmônica de Dresden e do Gewandhaus de Leipzig. Mais tarde, nos anos 90, comandaria as filarmônica de Nova York e de Londres e, em 2002, assumiu o posto de diretor musical e regente titular da Orquestra de Paris.

Com todos esses grupos deixou gravações de referência de compositores como Brahms, Beethoven, Mahler ou Shostakovich. Mas, em Leipzig, sua atuação foi além do universo musical. No final dos anos 1980, em um momento de convulsão política, tornou-se símbolo de diálogo ao abrir as portas do teatro para encontros entre representantes do governo, do partido comunista, da política secreta alemã e de manifestantes pró-democracia. Semanas mais tarde, abrigou manifestantes dentro do teatro, evitando um confronto com a polícia que se armava na praça em frente ao Gewandhaus. Sua atuação fez com que, no início dos anos 1990, ele fosse sondado para uma possível candidatura à presidência da Alemanha. Ele recusou. Longe dos palcos, outro episódio marcante foi o envolvimento em um acidente de carro no qual sua segunda mulher e os dois passageiros do outro veículo foram mortos.

Masur esteve no Brasil pela primeira vez nos anos 1970, regendo a Orquestra Sinfônica Brasileira. Anos mais tarde, tornaria-se mentor do maestro Roberto Minczuk, mantendo desde então relação próxima com o país. Em 2001, veio a São Paulo com a Filarmônica de Nova York e, pouco depois, comandou a Osesp, oferecendo também um curso de regência na Sala São Paulo. Em duas edições do Festival de Inverno de Campos do Jordão, deu aulas de regência e comandou a orquestra formado por alunos do evento. Em 2010, realizou um ciclo de concertos com a Sinfônica Brasileira, no Rio de Janeiro, interpretando o ciclo das sinfonias de Brahms.

Na ocasião, falou ao Estado sobre o foco dos últimos anos de sua trajetória: o trabalho com jovens regentes. “Tenho percebido nos últimos tempos que não há mais relacionamentos entre grandes orquestras e grandes regentes. Tudo é rápido, efêmero. Por isso, comecei a trabalhar com novos regentes, tentando recuperar a tradição ao fazê-los olhar para o futuro”, disse. E fez um breve balanço da carreira. “Eu continuo buscando, como aprendi desde cedo, a ser eu mesmo. Aos cinco anos de idade, vi fascistas e comunistas lutando. Depois, Hitler chegou ao poder. Não esqueço de meu pai me dizendo: viva, mas seja você mesmo. O mesmo ouvi de um padre durante a guerra. Seja você mesmo. Sempre. Tive uma longa vida. Eu sei o que é a brutalidade. Eu sei o que é a tristeza. Mas sei também o que é o amor. E, se isso me define enquanto ser humano, define também a música que eu faço. Mas, se fui eu mesmo, posso chegar hoje e dizer que sou um homem feliz.”

Tudo o que sabemos sobre:

kurt masurmúsicamúsica clássica

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: