Morre, aos 90 anos, o professor, maestro e compositor Olivier Toni

Morre, aos 90 anos, o professor, maestro e compositor Olivier Toni

Compositor, maestro, pedagogo e pesquisador, ele foi capaz de ampliar fronteiras em todas as áreas em que trabalhou, atuando na criação de estruturas decisivas no meio musical brasileiro

João Luiz Sampaio

25 Março 2017 | 14h16

Dizer que Olivier Toni foi um dos personagens fundamentais da música brasileira no século XX e início do século XXI não está errado – mas a afirmação mal começa a explicar a importância do trabalho por ele desenvolvido em cerca de 70 anos de carreira. Compositor, maestro, pedagogo e pesquisador, ele foi capaz de ampliar fronteiras em todas as áreas em que atuou. Mas a compreensão de seu legado passa pelo entendimento daquilo que lhe parecia mais importante: um olhar estruturante que permitisse, no dia a dia, a reafirmação do valor da arte, da música, e do investimento naquele que é a ferramenta de sua divulgação: o artista. Era uma crença levada a sério. E falar dela superava a necessidade de discutir sua própria trajetória pessoal como artista. “Não sou mais do que ninguém. Sou um músico que cresceu honestamente na profissão”, disse em uma entrevista de 2014 ao Caderno 2 o professor, que morreu na manhã deste sábado, dia 25, aos 90 anos de idade.

toni

Fagotista, Toni integrou a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo e foi membro fundador da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Foi responsável pela criação da Orquestra Sinfônica Jovem Municipal de São Paulo, da Orquestra de Câmara da USP, da Escola Municipal de Música de São Paulo, do Departamento de Música da Escola de Comunicação e Arte da USP (onde foi professor), das Bienais Internacionais de Música da USP, do Festival de Prados. Como professor, orientou nomes como Régis Duprat, Gilberto Mendes, Willy Corrêa de Oliveira, Mario Ficarelli, Rodolfo Coelho de Souza, Fabio Mechetti, Flo Menezes, Fabio Zanon, Lutero Rodrigues e Claudio Cruz, entre muitos outros.

Em um só parágrafo, iniciativas que foram suficientes para redefinir o cenário da música brasileira. Ainda assim, Toni começou sua trajetória na Filosofia – o que de alguma forma pautou o tipo de músico que ele se tornaria. O piano ele estudava desde a infância, influenciado pela mãe. Mais tarde, aprendeu fagote, foi tocar na orquestra do Teatro Municipal. Estudou com Mario Rossini, Martin Braunwieser, H.J. Koellreutter e Camargo Guarnieri. Mas a família sugeriu a ele que, além da música, se formasse em alguma outra coisa. Escolheu a filosofia, tendo como mestres, na Universidade de São Paulo, Florestan Fernandes e Gilles Gaston Granger. “Lá, uma vez um professor me perguntou: o que é a música? Isso me fez pensar sobre o fazer musical. Na Filosofia, aprendi coisas que fizeram da minha vida uma luta incansável contra o poder”, lembrou Toni em 2014.

Abro aqui um parênteses. O poder cultivado no mundo musical era para o professor uma forma de distração daquilo que realmente importa. Há quase dez anos, recebi dele um telefonema. Era o momento de trocas de maestro na Osesp e matérias sobre o assunto ocupavam as páginas do Caderno 2 quase diariamente. “Um meio musical não se faz só de brigas entre egos de regentes”, ele me disse. “Isso só é importante na consequência que traz para os projetos, para o ato de fazer música. Ouça os maestros quando necessário, mas ouça também os músicos, os compositores, investigue a força do ato de criação. É esse, no final das contas, o ponto de partida para qualquer cena musical.” A puxada de orelhas, dada com bom humor, foi uma lição que nunca mais saiu da minha mente. Fecha parênteses.

Também na Filosofia, Toni contava que era sempre incentivado a tocar piano. “Foi assim que, ao lado das tardes dedicadas à discussão política, acabei me envolvendo com a ideia de criar uma orquestra da faculdade. Dela, surgiria, nos anos 1950, a Orquestra de Câmara de São Paulo”, lembrou Toni em entrevista ao Caderno 2 em outubro de 2014. A orquestra atuou durante três décadas – e levou Toni à percepção da necessidade de investimento em formação de instrumentistas. “Eu e outros colegas começamos a sentir a necessidade de ensinar algumas coisas da prática musical aos músicos, já que muitos deles haviam se formado em outras áreas”.

Foi quando, em suas próprias palavras, nasceu o “Professor Toni”. Mas ele foi além. Em 1968, ao cumprimentar o prefeito Faria Lima após um concerto de uma orquestra jovem búlgara, perguntou a ele se sabia que não havia uma orquestra jovem na cidade. Surgia a Sinfônica Jovem Municipal, ponto de partida, anos mais tarde, para novo projeto levado ao prefeito: a criação da Escola Municipal de Música. Outra conversa, agora com o professor Erasmo Mendes, levaria à criação, dentro da USP, de um departamento de música. “Eu sempre quis fazer música. E era preciso ter colegas ao meu lado. Então, eu me dediquei a criar profissionais e um contexto de trabalho”.

Em outubro de 2014, em entrevista a Camila Frésca, publicada na Revista CONCERTO, Toni refletiu sobre seu trabalho como professor. “Eu aprendo a responder com o que tenho dentro de mim e, então, ciro com as perguntas; os alunos acabam sainda da aula comigo e me puxam para perguntar: ‘professor, como eu penso isso?’ Eu falo: ‘quero que vocês me ajudem a pensar’. ‘E como o senhor quer que eu ajude?’. ‘Pense e me diga’. Não se dá aula de composição. Me diga em qual momento os grandes compositores ensinaram os outros? O que a gente ensina é o que deve ser evitado, e não determinar o que é bom. Ninguém sabe”, afirmou.

Na mesma entrevista, Toni tratou também de seu trabalho como compositor (uma coletânea de obras suas foi lançada pelo Selo SESC em 2014). “O CD tem um problema existencial, que é o Toni compositor. Às vezes eu durmo, acordo e estou escrevendo música. Numa época em que eu dava aulas para Gilberto, Willy e outros, ensinava com um teor dodecafônico muito grande. E percebi, em determinado momento, que o exagero com o dodecafonismo estava ficando igual às terceiras paralelas de Bellini, de Donizetti. Então comecei a pensar: “O que eu escrevo?”. Com doze notas? Não. Vou começar a usar menos notas, mesmo que eu me aproxime do modalismo. Eu continuo pensando em como escrever muito com pouco. Descobri há bastante tempo a pintura chinesa, na qual você vê uma pequena árvore numa paisagem e mais nada, não está cheio de coisa. Então eles têm o Yin e o Yang, que significa vivo e vazio. Que maravilha, vazio e vivo!”

No último domingo, a Orquestra Jovem do Estado de São Paulo estreou uma obra sua, Navio Negreiro, baseada em Castro Alves, com regência de Claudio Cruz e solos da soprano Caroline de Comi. “A curta cantanta para soprano e orquestra de cordas impacta muito em oito minutos”, escreveu no Caderno 2 o crítico João Marcos Coelho. “Usando sua querida escala de seis notas, Toni acena com os violinos encarnando os escravos; a soprano Caroline de Comi encarna a musa do poeta; e um lindo coral de Bach nos cellos. Reserva para o contrabaixo solo o papel do compositor mineiro colonial brasileiro Manoel Dias de Oliveira. Música extremamente sofisticada, mas acessível, chega redonda aos ouvidos.”

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