Montagem do Festival Amazonas de “Peter Grimes”, de Britten, aposta na ambiguidade

Montagem do Festival Amazonas de “Peter Grimes”, de Britten, aposta na ambiguidade

Festival Amazonas de Ópera retorna com produção da ópera do compositor inglês e promove encontro sobre ópera e economia criativa

João Luiz Sampaio

04 de junho de 2022 | 16h02

O primeiro ato de Peter Grimes acontece sob a ameaça de uma terrível tempestade. Ela se insinua na música e na cena. Um sentido de urgência perpassa a ação à medida em que a força violenta da natureza se aproxima. Todos naquele pequeno vilarejo a beira mar de Suffolk compartilham o medo. A certa altura, antes de buscar refúgio na taberna da Tia, param para observar o mar, que vai sendo trazido pela orquestra. Coro, solistas, todos olham ao longe. Há um terror palpável no palco.

A paisagem natural é personagem central na ópera de Benjamin Britten. Nos Estados Unidos com seu parceiro Peter Pears, fugindo da Segunda Guerra, o compositor leu o poema de George Crabb, The Borough, e lá reconheceu a paisagem em que cresceu na costa leste da Inglaterra. Encomendou ao libretista Christopher Ishwood uma adaptação de um dos episódios do poema de Crabb; os dois se desentenderam e mais tarde o texto seria completado por Montagu Slater. A ópera ficou pronta em 1943, com Britten já de volta à Inglaterra. E estreou em Londres, em 1945, no teatro Saddler’s Well.

Grimes se passa em um vilarejo de pescadores, no qual convivem figuras das mais diversas. O fanático religioso Bob Boles; o advogado Swallow; a sra. Sedley, vigia dos bons costumes e viciada em remédios; o charlatão Ned Keene; o capitão aposentado Balstrode; a viúva Ellen, talvez a única a observar de fato aqueles que estão à sua volta; a Tia, dona do bordel; e, claro, Peter Grimes, figura atormentada, sobre quem pesa a dúvida: teria sido ele responsável pela morte de seu jovem aprendiz?

Fernando Portari como Peter Grimes e Rhuann Gabriel como John (Divulgação)

Há uma hipocrisia latente na história de Grimes, que vem do fanatismo, da impostura de um suposto sentido de justiça que não passa de uma tentativa de controlar ou disfarçar aquilo que não se conhece, o vício, o desejo, a contradição. Como bom operista, Britten mostra isso no retrato individual que faz dos personagens. Mas também, e talvez principalmente, ao escolher o bordel de Auntie como porto seguro ao qual todos os moradores da vila recorrem para se proteger da tempestade.

Não é apenas da tempestade que estão fugindo, mas também do próprio fanatismo. Os personagens mais reacionários da ópera, à espera da fúria da natureza, parecem viver no limite, como o mar prestes a se lançar sobre o vilarejo. Nesse sentido, a decisão do diretor Pedro Salazar, em sua montagem para o Festival Amazonas de Ópera, apresentada no final de maio, de ambientar a ópera em um cenário que evoca a paisagem amazonense não deixa de possibilitar um diálogo com o horripilante contexto político e social vivido atualmente pelo Brasil.

O elenco da produção teve desempenho excepcional. A Sedley quase à beira de um colapso criada pela mezzosoprano Carla Rizzi e o Bob raivoso do tenor Daniel Umbelino são interpretações muito bem construídas. O barítono Vinicius Atique mostra-se bastante à vontade cênica e vocalmente como Ned, com um inteligente controle do palco. Como Ellen, a soprano Daniella Carvalho consegue encontrar o equilíbrio entre lirismo e força que define a personagem. Na Tia da contralto Thalita de Azevedo e nas sobrinhas das sopranos Dhijana Nobre e Maria Sole Galevi, há colorido, movimento, vida – o quarteto ao lado de Ellen foi um dos momentos mais especiais da estreia, pelo desempenho vocal e pela junção de personagens que, distantes umas das outras, são capazes de construir um diálogo sensível e tocante.

O barítono Vinicius Atique e a contralto Thalita Azevedo (Divulgação)

E há o Balstrode do barítono Homero Velho. O papel do capitão parece manter relação com o Capitão Willington da carta dezesseis do poema de Crabbe, uma figura experiente, orgulhosa de ter vivido como um homem que jamais fugiu de um desafio, em uma “vida honesta ao lado de almas de valor”. Em sua ária no primeiro ato da ópera, ele diz “Vivemos e deixamos viver”, reservando nossos assuntos para nós mesmos.

Homero Velho constrói com autoridade essa figura que paira sobre os demais personagens da ópera. Ainda que não consiga compreender com profundidade o drama interior de Peter Grimes, e não revele o que pensa sobre a acusação de assassinato, ele consegue observar que o único destino possível para a personagem, após a morte do segundo ajudante, é se lançar ao mar e nunca mais voltar. Há uma dureza nessa sugestão que dá a Grimes nos momentos finais da ópera, distanciamento, mas Velho se permite também certa humanidade que nasce talvez da experiência e da sabedoria de que há destinos que não é possível evitar, e precisam ser cumpridos de qualquer forma.

Se a tempestade trazida pelo mar se impõe como força da natureza sobre a hipocrisia humana, ela também se torna importante em Peter Grimes na associação que é possível estabelecer entre ela e o mundo interior do personagem título da ópera. Os demais personagens temem a tempestade que lá fora os ameaça; Grimes, por sua vez, carrega dentro de si essa força descomunal, incontrolável, destruidora.

Há uma grande diferença entre a caracterização de Grimes no poema de Crabbe e na ópera de Britten. No texto original, resta pouca incerteza sobre o paradeiro de seus três ajudantes. Na ópera, o compositor parece estar mais interessado na dúvida.

Em uma conversa recente sobre a ópera, o jornalista Irineu Franco Perpetuo lembrou que, anos mais tarde, Britten adaptaria A volta do parafuso, novela do britânico de origem norte-americana Henry James. James, diz Perpetuo, é o narrador ambíguo por excelência. E o compositor já antecipa essa ambiguidade em Peter Grimes. Ela é, na verdade, um “projeto poético deliberado”. Pois, na dúvida, Grimes é humanizado.

Essa ambiguidade é central e nos aproxima de Grimes, que pode ser entendido como a vítima daquela sociedade hipócrita que se recusa a aceitá-lo. Mas não só. O fato é que, como escrevem Carolyn Abbate e Roger Parker em sua História da Ópera, Grimes é um “personagem a respeito do qual nunca podemos nos sentir seguros”.

Essa insegurança é reforçada pela interpretação criada pelo diretor Pedro Salazar e pelo tenor Fernando Portari na montagem do Festival Amazonas. Seu Grimes comove, mas também provoca repulsa. Pouco importa se ele matou seu primeiro ajudante ou se, em sua raiva, queria a morte do segundo. Mas, sim, de tentar entender sua relação com a sociedade e se perguntar: em que medida ele de fato quer mesmo fazer parte dela ou, pelo contrário, tem prazer em desafiá-la? E a ilusão de um casamento com Ellen? Seria um desejo de se manter conectado ao mundo ou já a fantasia irônica de uma mente que não encontra neste real sentido algum? Há nas inflexões de Portari, no seu gestual, no olhar, no sorriso debochado, na expressão de desespero, nos coloridos que extrai da voz, elementos suficientes para que fiquemos sempre em dúvida. Isso faz de seu Grimes um personagem assustador em sua humanidade. E, por isso mesmo, um dos grandes momentos de sua carreira.

Cena do primeiro ato de “Peter Grimes” (Divulgação)

No pódio, Luiz Fernando Malheiro nos ofereceu aquilo que aprendemos a esperar dele: uma regência atenta a detalhes, marcada por uma enorme plasticidade, acompanhando de perto as construções e os tempos dramáticos de Britten. É particularmente impressionante o modo como ele lê os interlúdios e estabelece entre eles e as cenas que se seguem uma relação de coerência dramática. E o controle que tem da orquestra e do coro, que após dois anos de pandemia se mostraram capazes de enfrentar uma partitura repleta de armadilhas e extrair dela uma sonoridade viva e repleta de nuances.

Encontro

O Festival Amazonas também recebeu em sua programação o III Encontro de Economia Criativa e Teatros de Ópera.

É preciso ser honesto: a história, ao menos nas últimas duas décadas, nos ensinou a olhar com desconfiança esse tipo de encontro, que se torna cenário de lamúrias eternas ou de belas intenções que raramente transformam-se em planos concretos.

Não foi o que aconteceu em Manaus.

É preciso um contexto. Nos últimos anos, o festival e sua diretora executiva Flavia Furtado têm proposto a discussão sobre o impacto econômico da cultura e da ópera. Não se trata de abandonar o valor artístico do gênero, mas de mostrar que ele tem um papel social e econômico que não podem ser desconsiderados. A presença, no encontro, de representantes da Zona Franca de Manaus, da secretaria de Desenvolvimento Econômico, de agências dedicadas à investigação tecnológica, é resultado disso.

Esse debate, e isso é particularmente importante, parece ter unido profissionais do gênero, com o Fórum Brasileiro de Ópera, Dança e Música de Concerto como protagonista nesse processo. E diferentes teatros e casas de óperas articulando um discurso forte, que tem a ver não apenas com a questão econômica, mas também com a importância da ópera em dialogar com o nosso tempo e não fugir dos temas difíceis que ele nos coloca.

Durante o encontro, algumas iniciativas já foram anunciadas.

O Festival Amazonas, o Palácio das Artes de Belo Horizonte e o Theatro Municipal de São Paulo assinaram a parceria que vai permitir que, em 2023, a ópera O Contratador de Diamantes, de Francisco Mignone, editada pela Academia Brasileira de Música, seja apresentada nos três palcos.

Iniciativa do Fórum, o concurso de composição de uma nova ópera terá como prêmio a apresentação da peça, em um projeto que inclui doze teatros e companhias dispostos a apresentá-la: a Cia. Ópera São Paulo, o Teatro Amazonas, o Theatro da Paz, a Sinfônica de Santo André, a Sinfônica de Sergipe, as Orquestras de Guarulhos, a Fundação Clóvis Salgado, a Cia. Minaz, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Theatro Municipal de São Paulo, o Theatro São Pedro de São Paulo e o Theatro São Pedro de Porto Alegre.

E, por fim, André Cardoso, presidente da Academia Brasileira de Música, anunciou que, por iniciativa do fórum, será realizado com a Funarte um plano de apoio para a ópera que inclui três focos: mapeamento para dimensionar o mercado da ópera no Brasil, incluindo o impacto na economia, que será feito por meio de parceria entre UFRJ, Unicamp e Unesp); projetos de preservação do arquivo histórico da ópera brasileira; capacitação e qualificação de profissionais.

Estamos em ano de eleições – entre elas as para os governos estaduais. E isso naturalmente pode gerar inseguranças com relação ao futuro. Mas há uma solidez institucional se formando em torno da ópera, feita do diálogo entre diferentes instituições e do levantamento de dados e informações concretas sobre o gênero.

Dá quase para olhar o cenário com otimismo.

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