Meu problema com Bocelli

Meu problema com Bocelli

João Luiz Sampaio

17 de abril de 2009 | 18h20

O tenor Andrea Bocelli/Divulgação

Conversei há alguns dias com o tenor italiano Andrea Bocelli. Foi daquelas entrevistas brochantes. Você recebe uma lista de temas sobre os quais não pode perguntar – leia-se a vida pessoal do artista. Até aí, tudo bem. Mas são apenas dez minutos – e um problema de conexão fez com que a ligação caísse por um tempo, diminuindo ainda mais a duração da conversa. A assessoria, aliás, correu para anunciar a participação, nos shows que ele faz no Brasil (amanhã no Rio e terça em São Paulo), de uma artista popular brasileira de muito sucesso, mas, em seguida, temendo tumultos, pediu que não mais divulgássemos seu nome. Tudo bem, a gente respeita.

Enfim, na conversa, ele falou um pouco sobre ópera, sobre as canções italianas que vai cantar aqui no Brasil e de música brasileira. Já gravou Roberto Carlos em versão meio português meio italiano, mas diz que evita esse repertório. As canções fazem parte de sua memória afetiva e a Bossa Nova não sai de sua vitrola. E, por isso mesmo, ele respeita demais essa música para fazer versões piores do que as originais. “O que o público brasileiro vai ganhar de novo comigo cantando essa música?”, perguntou.

Antes que os puristas me crucifiquem por dar espaço a Bocelli e os amantes de sua música me acusem de purismo: não tenho nada contra a música que ele faz. Seu desempenho em ópera não me agrada, a voz balança demais, a afinação é aproximada e isso atrapalha – e muito – na hora de cantar papéis como Manrico, no “Trovatore”, ou Cavaradossi, na “Tosca”. O seu forte, no entanto, são as baladas românticas italianas, americanas, desde que surgiu para a fama ao fazer dueto com Sarah Brightman, sua versão feminina, em “Con Te Partirò”. Os arranjos de seus discos são, na maior parte das vezes, de muito mau gosto, o repertório é irregular. Mas, tudo bem, de vez em quando, ele acerta. A única coisa que me irrita um pouco é a demagogia de que apresentações como a dele atraem novo público para a ópera. Não atraem, não: criam público para este repertório específico, para este tipo de música, de show, de artista. Bocelli, como tenor, deveria ajudar a promover a ópera? Não, não tem a menor obrigação de fazer isso. Então, cante, faça seu trabalho. Mas sem demagogias, né?