Malheiro: “Não quero ser conivente com o modo como o Theatro Municipal está sendo tratado”

Maestro diz ter encontrado "um deprimente estado de deterioração, física, institucional e psicológica" no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e que o teatro "não pode ser tratado como uma repartição pública qualquer"

João Luiz Sampaio

14 de maio de 2019 | 16h34

Em um comunicado à imprensa, o maestro Luiz Fernando Malheiro explicou as decisões que o levaram a deixar a direção musical do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. No texto, ele diz que encaminhou seu pedido de demissão na manhã de ontem, dia 13.

“Friso dia e horário pois estão me perguntando se tal decisão foi tomada em razão do novo corte anunciado hoje pelo Governo. Não. Essa nova informação apenas fortaleceu minha decisão”, escreve. “Quando aceitei assumir como regente da OSTM e uma ‘direção musical’ do teatro, a convite do diretor cênico André Heller-Lopes e do Secretário Ruan Lira, tinha como objetivo contribuir para por ordem na Casa. Encontrei, como é de conhecimento público, um deprimente estado de deterioração, física, institucional e psicológica no teatro”, diz.

Segundo ele, “os Corpos Artísticos do teatro, de incontestável excelência se encontram completamente desfalcados”. “Não posso permanecer sendo Regente Titular de uma orquestra que não existe mais, da maneira que consta em regulamento. Com o desproporcional e incompleto quadro atual de músicos nenhum repertório que não seja clássico, Mozart no máximo como exemplo, pode ser executado sem a contratação de um número significativo de músicos extras, onerando a verba de programação, que até agora não existe. Esses desfalques de artistas acontecem também no Coral do teatro e no aclamado Balé que sem contratar bailarinos extras, não consegue montar nenhum grande título do repertório.” “Mesmo para se contratar músicos de qualidade por concerto, a OSTM tem encontrado dificuldade, já que o teatro goza de péssima fama, como mau pagador. Existem dívidas com músicos que participaram de programações em 2017 e que até agora não receberam.”

+ Maestro Luiz Fernando Malheiro deixa a direção musical do Theatro Municipal do Rio de Janeiro

“A Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro está cada vez mais enfraquecida, sem poder de decisão e sem capacidade e independência para gerir os problemas do teatro e de seus Corpos Artísticos, que obviamente têm características próprias de funcionamento. O teatro não pode ser tratado como uma repartição pública qualquer. Quem assume o poder de administrá-lo tem que no mínimo conhecer sua gloriosa história e saber da qualidade única de seus artistas que heroicamente lutam para preservar e levar adiante uma tradição de reconhecida excelência.”

O texto se encerra com o maestro afirmando que “com muita tristeza me afasto por não acreditar que minha permanência possa mudar algo de maneira positiva e por não querer ser conivente com a maneira como as coisas do teatro estão sendo tratadas pela atual administração.”

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