Mais Beethoven, por favor

Mais Beethoven, por favor

Uma ou outra ideia sobre a "Nona Sinfonia", de Beethoven, que completa 192 anos

João Luiz Sampaio

06 de maio de 2016 | 13h11

O velho compositor esgotou completamente o seu talento. Ele parece ter perdido o interesse por obras de grande escala. Infelizmente, o grande compositor é hoje um homem completamente surdo. Entre 1819 e 1824, comentários como esse eram encontrados com frequência na imprensa austríaca – assim como na correspondência daquelas poucas pessoas que privavam da intimidade de Beethoven. Olhando em retrospecto, parecem noções exageradas. Não eram. A surdez o tomou em definitivo em 1819. Três anos depois, em uma carta, ele próprio se referiria à dificuldade de compor e transformar as ideias em sua mente em música a ser colocada no papel. E, de fato, sua última obra de grande porte, a Missa Solene, iniciada em 1819, ainda não havia sido estreada.

Que em meio a esse cenário Beethoven tenha sido capaz de compor, logo em seguida, a Nona Sinfonia e o último quarteto de cordas é uma das maravilhas da história da criação artística ocidental. Não apenas pela qualidade intrínseca das obras. Mas pelo modo como elas olham para o futuro e quebram paradigmas, pautando em grande parte a produção musical que a elas se seguiu. Mais do que isso: nelas, e na história de suas composições, há algo que fala antes de mais nada sobre o humano – e não apenas pela mensagem de igualdade proposta pelo célebre último movimento da sinfonia. “O que aqui sentimos é uma superabundância, uma necessidade violenta de descarga para o exterior; comparável em tudo ao impulso que nos leva a despertar de um sonho profundamente angustiante”, escreveu o compositor Richard Wagner sobre a Nona Sinfonia. “Não é, pois, a obra de Beethoven, mas o extraordinário ato artístico nela contido que devemos considerar o ponto alto do desenvolvimento de seu gênio, assim como afirmamos que a obra de arte que recebeu desse ato toda vida e toda forma deve apresentar, também, a mais perfeita forma artística, justamente aquela forma na qual, para o drama, e especialmente, para a música, todo caráter convencional deveria ser inteiramente suprimido”, completou. Em outras palavras, Wagner, ao ouvir Beethoven, escuta uma nova arte, uma nova música, para um novo homem.

Beethoven

A Nona sinfonia estreou em 7 de maio de 1824. Completa, portanto, amanhã, 192 anos. Não é uma data redonda, daquelas que costumam dar origem a matérias especiais na imprensa. Mas, se partirmos do pressuposto de que é preciso um pretexto para falar de Beethoven (e de cara digo que não é), o compositor tem rondado a mente desde o início da semana, após a leitura de um texto publicado aqui mesmo no portal Estadão pelo pianista Álvaro Siviero em seu blog. Siviero, enquanto se prepara para concertos dedicados ao compositor, lembra o biógrafo Romain Rolland, na esteira do que diz Wagner: “Após uma vida de lutas, Beethoven, encerrado em seu túmulo, continua a lutar”. Entre o épico e aquilo que é íntimo, segue Siviero, Beethoven opta pelos dois. Nasce daí um conflito, ou dicotomia, que define a sua obra – e que, no final das contas, extravasa o universo pessoal do compositor ao sugerir, na verdade, uma ideia de arte que nasce do diálogo entre o indivíduo e o mundo.

A reação à primeira apresentação da Nona Sinfonia oscilou da crítica feroz ao encantamento maravilhado perante as inovações trazidas pelo último movimento: pela primeira vez, uma sinfonia incorporava a presença de um coro e de um quarteto de solistas, a cargo de interpretar a Ode à Alegria retirada da poesia de Friedrich Schiller. A conclamação da igualdade entre os homens é uma mensagem que o tempo banalizou, mas que na música de Beethoven segue poderosa e essencial. E além do conteúdo em si, há a forma – ou a quebra do conceito de forma, que deixa de ser um fim em si mesmo para se submeter ao sentido daquilo que se quer exprimir. Mas a sinfonia, como um todo, está repleta de ideias estimulantes. Basta ouvir o início do primeiro movimento: antes que uma tonalidade seja estabelecida, Beethoven apresenta material musical que não sugere de cara um desenvolvimento natural. Em outras palavras, a música começa sem que saibamos para onde ela pretende ir. Não perde, por conta disso, sua força – pelo contrário, sugere uma espécie de estado essencial da existência. E, mesmo após o desenvolvimento musical tornar-se claro, o compositor oferece tal riqueza e diversidade de andamentos (e de relação entre eles) que poucas vezes, como disse o maestro Georg Solti, ficou tão claro musicalmente o modo como a liberdade individual se articula com um todo coeso mais amplo. Fico com Solti mais um pouco. O uso da voz no quarto movimento, dizia ele, é inovador, mas ao mesmo tempo consequência natural do terceiro movimento da sinfonia, em que a melodia nasce de um cantabile que emula a voz humana. É como se a voz humana fosse a única força capaz de desafiar a morte (ou qualquer limitação).

Se a sinfonia fala daquilo que define o humano, não espanta que tenha se tornado símbolo utilizado em contextos dos mais distintos, encarnando desde os valores de superioridade da raça alemã do Terceiro Reich até a ideia de construção de um novo mundo, quando o maestro Leonard Bernstein reuniu músicos das duas Alemanhas para um concerto que celebrava a queda do Muro de Berlim – passando, claro, pela utilização da obra no filme Laranja Mecânica, síntese do modo como qualquer música pode ser dissociada de seu pretenso contexto original e utilizada das mais diferentes formas.

Nesse sentido, a interpretação que talvez importe é justamente a individual. Se Beethoven é revolucionário em mostrar que, para além da forma, a música carrega emoção, ao ouvinte o presente maior é poder se apropriar dessa música e de alguma forma recriá-la, permitindo-se perturbar por ela. “Beethoven podia criar formas como o melhor dos compositores. Ele podia escrever música cuja beleza irá durar toda a sua vida; ele podia pegar o mais seco dos temas e trabalhá-lo de forma tão interessante que você ouvirá algo novo nele na centésima audição. Mas aquilo que o define perante todos os outros é a sua qualidade perturbadora, seu poder de provocar desconforto no ouvinte e impor seu gigantesco temperamento sobre nós”, escreveu em 1927 o dramaturgo e crítico musical Bernard Shaw, em um texto cujo encerramento segue sendo uma das melhores definições já dadas à música do compositor: “A música de Beethoven é uma música que nos desperta; e o único estado de espírito possível com o qual você emerge de sua audição é aquele em que você sente que é necessário estar sozinho.” Em momentos como o atual, de exasperados julgamentos públicos rasteiros, a afirmação da necessidade de reflexão e atenção a si próprio anterior ao julgamento do outro dá ao compositor uma flagrante atualidade.

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p.s.: Beethoven será tema de dois cursos da série Cursos CLÁSSICOS, da Revista CONCERTO. No primeiro deles, Leonardo Martinelli vai se dedicar às sinfonias do compositor; no segundo, João Marcos Coelho selecionou a Nona Sinfonia como parte do curso “Quatro obras que mudaram a história da música”. Mais informações aqui.

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