Lígia Amadio fala de planos para a Filarmônica de Bogotá

João Luiz Sampaio

19 de fevereiro de 2014 | 17h26

O ano da maestrina Lígia Amadio começou com um convite especial – a partir desta temporada, ela assume a Filarmônica de Bogotá, na Colômbia. Lígia tem circulado bastante pela América Latina – basta lembrar seu trabalho em Mendoza, na Argentina – e sua atuação como regente tem se pautado por uma interessante diversidade de repertório, em especial à frente da Sinfônica da USP e da Sinfônica de Campinas, da qual já foi diretora. Conversamos recentemente sobre tudo isso. Seus planos para Bogotá são ousados: em 2014, a temporada será inteiramente dedicada a compositores dos séculos 20 e 21. Soma-se a isso uma série de projetos educacionais. Ela, enfim, dá mais detalhes na entrevista a seguir.

Como foi receber esse convite?
Receber esse convite causou-me uma enorme alegria, além da honra que representa ser escolhida para reger a mais importante orquestra de um país estrangeiro. Eu já havia trabalhado com a Filarmônica de Bogotá em 2007, num programa muito exigente, e havia ficado extremamente impressionada com a qualidade do grupo! Em setembro do ano passado, voltei a ser convidada a reger o grupo, acompanhando o Kronos Quartet e executando a quinta sinfonia de Shostakovich. Foi um belíssimo concerto e a partir disso, surgiu o convite.

Quais os seus planos para a orquestra?
Há algum repertório específico que gostaria de trabalhar com eles?

Para a temporada 2014, a programação será dedicada completamente ao século 20 e pretende apresentar as diversas tendências e revoluções estéticas ocorridas nesse período. Considero esse projeto ousado e maravilhoso! O título da temporada é: “Cuadros del Siglo XX – De Debussy a Zumaqué”. Serão executadas obras de Stravinski, Shostakovich, Rachmaninoff, Glazunov, Prokofiev, Scriabin, Khachaturian, Bartók, Kodály, Ligeti, Martinu, Sibelius, Schoenberg, Berg, Webern, Elgar, Forsith, Debussy, Ravel, Poulenc, Castelnuovo-Tedesco, Casella, Petrassi, Berio, Respighi, De Falla, Barber, Copland, Bernstein, Gershwin,Villa-Lobos, Marisa Resende, Ginastera, Ariel Ramirez, Jose Maria Vittier e outros. Um panorama da música colombiana também será apresentado ao longo da programação: Blás Emilio Atehortua, Germán Borda, Jesús Pinzón Urrea, Francisco Zumaqué, Luis Carlos Figueroa, Jacqueline Nova Sondag, Fabio Gonzalez Zuleta, José Rozo Contreras. Destaque especial será dado aos 150 anos de nascimento de Richard Strauss e aos 140 anos de nascimento de Arnold Schoenberg. Além dos dois concertos semanais que constituem a temporada oficial, a OFB realizará projetos didáticos e educativos da maior importância: sob sua tutela estão se formando uma orquestra de câmara jovem, uma filarmônica juvenil, uma banda e um coro juvenil, todos integrados à instituição Filarmônica de Bogotá.

Você tem trabalhado com diversos grupos latino-americanos.
Qual a avaliação que faz da atividade sinfônica no continente?

Há países em que a atividade sinfônica é desenvolvida, rica e valorizada, e outros que fazem um enorme esforço para manter suas agrupações sinfônicas, mas sem chegar a resultados realmente notáveis. Eu diria que tem havido um desenvolvimento geral na América Latina nesse sentido. No Brasil, na Colômbia, na Venezuela, no México, na Argentina e no Uruguai há muito boas orquestras, e algumas extraordinárias. Mas são sempre resultado de esforços pontuais, que dependem desse ou daquele governo, dos maestros que as dirigem, e das conquistas gremiais de décadas de lutas empreendidas pelos músicos que as integram. Creio também que o importantíssimo movimento musical ocorrido na Venezuela, “El Sistema”, tem influenciado fortemente o apoio que se dá à música em outros países do continente, principalmente em relação à democratização do acesso ao estudo da música.

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