Lições de humanidade, por Kurt Masur

Lições de humanidade, por Kurt Masur

João Luiz Sampaio

28 Abril 2011 | 10h43

Você já sofreu?” A pergunta mal pode ser ouvida enquanto a orquestra interrompe a execução da primeira sinfonia de Mahler. Feito o silêncio, da plateia vazia do auditório Claudio Santoro, em Campos do Jordão, o maestro Kurt Masur repete a pergunta, endereçada ao jovem regente que comanda o ensaio da Orquestra Acadêmica. “Você já sofreu? Você já passou fome?” Masur se aproxima. “Não desejo isso a você. Mas a imaginação do sofrimento é fundamental. Nessa passagem, você os faz soar agressivos. Mas não é disso que estamos falando. Mahler quer transmitir outra coisa. Desespero.” Uma pausa. “Desespero.”
A cena, captada pelas câmeras da documentarista Amit Breuer em julho de 2005, abre o documentário Kurt Masur: Uma Aventura Musical (Biscoito Filmes). Ao longo de pouco mais de um ano, ela acompanhou o maestro alemão em aulas no Brasil, na Polônia e nos EUA. Masur é tido como o último representante daquela que se costumou chamar de “grande linhagem germânica”, que desde o início do século 20 deu ao mundo maestros como Bruno Walter, Otto Klemperer, Erich Kleiber ou Herbert von Karajan. Aos 85 anos, ainda percorre algumas das principais capitais do mundo interpretando a música de Brahms, Beethoven, Mahler, Mendelssohn. É a personificação da tradição. “Tenho percebido nos últimos tempos que não há mais relacionamentos entre grandes orquestras e grandes regentes”, diz. Tudo é rápido, efêmero. “Por isso, comecei a trabalhar com novos regentes, tentando recuperar a tradição ao fazê-los olhar para o futuro.”
Não deve provocar estranhamento que tradição e futuro convivam harmoniosamente na mesma frase. Para Masur, a identidade se constrói na relação pessoal do homem com o meio. Isso vale também para o intérprete que, por sua vez, deve trazer à equação o estudo daquilo que ele chama da “imaginação do som” de cada compositor, aquilo que o guiava na hora de compor. “A um jovem regente, o primeiro ensinamento é a necessidade de conhecer os próprios pontos fortes e fracos. Ao olhar a música, precisa entender quem é e, ao mesmo tempo, investigar as respostas que as partituras oferecem a questões como vida e morte.”
A relação intrínseca entre obra e intérprete, que declarações como essas sugerem, é o principal eixo do documentário. Durante as filmagens em Campos do Jordão, Amit Breuer explicou ao Estado a origem do projeto. “Quando comecei a fazer o filme e estive em Campos do Jordão, pensei em um documentário que contemplasse três gerações de maestros, ali reunidas: Masur, Roberto Minczuk, diretor do Festival de Inverno e seu ex-aluno, e os jovens estudantes de regência”, contou. “No entanto, o filme foi me levando em outra direção. Há algo de profundamente pessoal na maneira como esse homem sente e vive a música. De alguma forma, música e vida são para ele uma só coisa. E o documentário acabou mostrando isso, a capacidade de Kurt Masur de falar da própria vida pessoal por meio das partituras que interpreta”, disse.
Há diversas passagens em que esse diálogo entre vida e música ganha cores reais. Uma das mais tocantes é aquela em que Masur, conversando com os alunos em Campos do Jordão, fala do acidente de carro em que perdeu a segunda mulher e provocou a morte de mais duas pessoas. Ele está tentando explicar uma passagem do Adagio, de Samuel Barber. As cordas seguem em direção a um clímax de enorme tensão, seguido por uma pausa; na retomada, a tendência dos regentes é assumir uma interpretação mais pacífica, como uma resolução. Não para Masur. “Quando me lembro do acidente que tive, há um momento que não me sai da mente. Eu estava dirigindo quando ele ocorreu. Em instantes, vi minha mulher desacordada do meu lado. E então minha filha, que estava no banco de trás, olhou para mim e soltou um grito profundo. Jamais esqueci esse grito.” O clímax das cordas, no Adagio, parece soar para Masur como aquele grito. Nos caminhos da sua memória não há, perante a partitura, possibilidade de resolução. A arte não precisa ser uma resposta, ele parece nos dizer. Basta que ela reflita o nosso estado constante de transformação. Basta que seja parcial, falha e busque, em meio a tudo isso, um resquício de honestidade. Basta que seja humana.