Lembranças de uma aula com Kiri Te Kanawa, 70

João Luiz Sampaio

06 de março de 2014 | 16h58

Quando a soprano Kiri Te Kanawa esteve em Campos do Jordão, em 2007, a polícia precisou ser acionada a certa altura para averiguar a presença de alguém que a seguida de um lado a outro da cidade. Não é de hoje que divas mexem com as pessoas. Mas, patologias à parte, a lembrança do fim de semana passado pela cantora na Serra da Mantiqueira vem de outro fascínio: a emoção dos alunos de canto do Festival de Inverno que tiveram uma master class com a soprano – ela, a princípio, faria apenas um concerto, mas resolveu (ou foi convencida a) dar também uma aula mestra para os bolsistas durante uma tarde. E que tarde!

Dame Kiri completa hoje 70 anos. Naquela época, estava com 63 – tempo suficiente para que tivesse construído um currículo invejável: apresentações com as maiores orquestras do mundo, os maiores maestros, nos maiores teatros; um número recorde de discos – e à quantidade soma-se a qualidade em registros históricos, como o Strauss que ela gravou com Georg Solti, a Desdêmona no Otello de Verdi, a Maria na gravação feita por Leonard Bernstein do West Side Story. Tudo isso é importante, mas não dá conta do impacto provocado pela sua presença. A elegância, o olhar, a economia de gestos, expressões. Na ocasião, escrevi que era como estar diante da realeza – foi a maneira comportada de dizer que eu nunca havia me sentido tão intimidado perante um entrevistado.

Imagine, então, os alunos que naquela tarde estiveram no Auditório Claudio Santoro, cantando para ela. A entrevista foi rápida, tensa – ela não gosta de falar com a imprensa e nosso papo foi marcado e desmarcado diversas vezes. Melhor é relembrar as dicas aos alunos. “Foi bonito, você tem uma bela voz. Mas não me seduziu. Quando eu ouço essa ária, quero ficar sem respirar, perder o fôlego”, disse a uma soprano. “Em uma ária longa, você tem que pensar na estrutura da sua interpretação, precisa criar uma ideia para ela. Há um motivo pelo qual você está aqui, no palco, cantando essa música, não? Antecipe sua intenção. Não, não é só fazer caras e bocas. Você precisa sentir o que vem em seguida, antes de cantar a próxima palavra, você tem que senti-la”, afirmou para outra aluna, que se embananou e parou de cantar no meio da ária. “Não, não pára, não importa se alguma coisa não saiu bem, o importante é terminar direito, pelo menos é o meu truque”. Outra soprano canta uma ária do inglês Roger Quilter. “É uma canção linda e você a faz tão bem. Mas vamos tentar de novo, palavra por palavra. Lembra o que eu disse para a Diana, como uma palavra tem que se ligar na outra? Então, esquece. Aqui, você tem que fazer o contrário. O texto é bonito, sem pressa, tome cuidado com cada palavra.”

Como essas foram, muitas as dicas passadas aos jovens cantores. Relembro apenas mais uma, sobre Mozart, uma de suas especialidades. “Eu tinha uma professora que só me deixava cantar Mozart. Eu odiava fazer isso, como vocês. Sabe por que a gente odeia? Porque é difícil. E é por isso que ele é tão importante. Para cantar Mozart, a nota tem que estar no lugar certo, a respiração deve ser precisa. É difícil? É. Mas é o desafio que tem que nos atrair.”

Kiri já não canta mais, ou pelo menos não na quantidade de antes – além de um ou outro recital ou concerto, tem feito participações especiais em óperas, às vezes até em papéis falados. Em 2007, perguntei a ela sobre aposentadoria. Seu olhar foi sério e ela saiu-se dizendo que tem tido prazer cada vez maior em dar aulas. E qual a lição mais importante que se sentia capaz de passar aos jovens. “Todos os elementos precisam trabalhar em conjunto na interpretação: a voz, a respiração, o texto, os gestos, o olhar. E esse equilíbrio deve surgir de algum espaço nebuloso entre partitura e temperamento.” Espaço, diga-se, em que ela sempre reinou.

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