La Traviata em cores fortes de tragédia

João Luiz Sampaio

26 de maio de 2010 | 15h23

BELO HORIZONTE – No final do primeiro ato da Traviata, de Verdi, a cortesã Violeta canta as cruzes e delícias do amor. Doente, com a morte ameaçando sua juventude, a personagem pergunta: uma mulher como ela pode mesmo sonhar com a concretização da paixão pelo jovem Alfredo?

Na montagem mineira da ópera, que estreou na semana passada no Palácio das Artes, ela se questiona perante o espelho. É ele o motivo condutor da produção, acompanhando a personagem durante toda a encenação. O diretor Mario Corradi parece, assim, querer evocar o preconceito da sociedade – é ele que configura a imagem que Violeta tem de si própria e que, eventualmente, faz com que a alegria do amor se transforme em sua impossibilidade. Mas o recurso pode também levar à pergunta: seria a grande cruz do amor o fato de que ele nos leva a olhar para quem somos?

Ainda que estimulantes, as premissas do diretor sofrem com um tom de tragédia que permeia o espetáculo desde o início. Já durante o prelúdio, vemos Violeta morta; e, no final do primeiro ato, é com choro e certo desespero que a personagem cede aos galanteios de Alfredo. É certo que o desenrolar da ópera vai nos levar a um desfecho trágico. Optar por ele desde o início, porém, tira a humanidade de Violeta. A grande tragédia pessoal da personagem, afinal, não está na impossibilidade do amor – mas sim no fato de que, por um momento, ela acreditou ser possível viver uma paixão.

O primeiro ato da Traviata se encerra, depois de um momento de dúvida de Violeta, em tom de exaltação; e a sensação é multiplicada logo no início do segundo ato, com a ária em que Alfredo canta o prazer de estar ao lado de sua amada. Com esses dois momentos, Verdi cria um ambiente de alegria a ser destruído em seguida, no dueto em que o pai de Alfredo visita Violeta e lhe convence a abandonar o amado, uma vez que a relação dos dois está trazendo vergonha à família. O tom assumido de tragédia desde o início, e os andamentos mais lentos adotados pelo maestro Roberto Tibiriçá, arrastando as linhas de canto, acabam tirando a força teatral e os contrastes do libreto nos dois primeiros atos da ópera.

Fôlego. Dali em diante, no entanto, o ritmo teatral ganha novo fôlego. É muito interessante a maneira como Tibiriçá constrói toda a sequência que, no terceiro ato, leva do clima de festa na casa de Flora ao reencontro dos amantes, cena forte, em que Alfredo, sem saber da interferência de seu pai, humilha Violeta perante toda a sociedade. É um momento fundamental na construção da história – é ali que a autoimagem da cortesã decadente, que atormenta os sonhos de Violeta, se concretiza na visão do homem que, até então, se recusava a ver nela algo que não fosse beleza e encantamento. O preconceito da sociedade e o indivíduo ali se encontram em definitivo. E o amor torna-se impossível. Na récita da noite de sábado, foi o melhor momento do espetáculo. E impressiona o trabalho de reconstrução realizado por Tibiriçá à frente da Sinfônica de Minas Gerais, que já apresenta sonoridade mais equilibrada e coesa do que a demonstrada ao longo da temporada do ano passado.

Violeta é um dos papéis míticos da história da ópera e, no cenário nacional, a soprano Rosana Lamosa tem lugar reservado entre suas grandes intérpretes. Na récita de sábado, porém, apresentou problemas de emissão que a fazia ser encoberta pela orquestra em passagens importantes. Nos últimos dois atos, no entanto, recuperou a forma e cenicamente ofereceu interpretação comovente da personagem. Como Alfredo, o tenor Martin Mühle começou um pouco hesitante, mas foi crescendo ao longo da noite, com desempenho forte no terceiro ato. A atuação mais equilibrada foi de Lício Bruno como Germont, construindo habilmente as contradições do velho pai de Alfredo, em especial no dueto com Violeta.

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