La Stupenda

João Luiz Sampaio

11 de outubro de 2010 | 16h05

Morreu ontem Dame Joan Sutherland, uma das maiores vozes da segunda metade do século 20, aos 83 anos. Segundo a família, ela estava doente e morreu em casa, na Suíça. A soprano ficou conhecida como “La Stupenda” e conseguiu a façanha de fazer fama, a partir dos anos 60, nos papéis que, pouco antes, eram dominados por Maria Callas: Norma, Lakmé, Lucia, Sonnambula. É, na verdade, curiosa a trajetória de sua voz. Começou os estudos, na Austrália, como mezzo; mudou-se para Londres nos anos 50 e o vozeirão começou a ser treinado para os papéis de soprano dramático. Conheceu, porém, o maestro Richard Bonynge e ele, entusiasta das ópera do bel canto, em que o tamanho da voz não é tão importante quanto a agilidade, a fez adentrar neste repertório. Diz a lenda que ele, com quem Joan mais tarde se casaria, a convenceu levando justamente a uma apresentação de Callas. Por sinal, Maria teria assistido ao ensaio da primeira apresentação de Sutherland no Covent Garden, com Lucia di Lammermoor e, depois, teria dito ao empresário Walter Legge: “Ela terá uma grande carreira. Mas não tão grande quanto a minha, evidente.” No palco, Sutherland teve como grande parceiro o tenor italiano Luciano Pavarotti. Gravaram Lucia, Rigoletto, Traviata, Tosca, Norma – algumas delas, mais de uma vez. Era uma voz quente, que emprestava intensidade ímpar à coloratura, envolvente, dona de um alcance enorme, que a levava com naturalidade do agudo ao grave, sem perder delicadeza e graça. Foi Pavarotti, aliás, quem definiu Joan Sutherland como “a voz do século”; talvez seja um pouco de exagero, mas sem dúvida o século da ópera teria sido mais pobre sem o enorme legado que nos deixa em gravações e vídeos.

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