La Baglione em São Paulo

La Baglione em São Paulo

João Luiz Sampaio

05 de maio de 2009 | 12h25

Bruna Baglione/Marcelo Ximenez/AE

A pulseira no braço direito, ela explica, foi um presente de um rapaz que se encantou com seu sotaque romano em uma manhã de domingo na Praça da República. “Ele me disse que aquela moedinha, de origem peruana, acho, me faria voltar à cidade”, conta a meio-soprano italiana Bruna Baglioni. Parece ter dado certo. Dezesseis anos depois daquele passeio, ela está de volta a São Paulo. Por sinal, esteve na feirinha da praça durante o fim de semana – mas desta vez não encontrou muita coisa. Tudo bem, afinal a visita tem outro motivo – uma das principais cantoras líricas italianas da segunda metade do século 20, ela abre a temporada deste ano da série Grandes Vozes com masterclasses oferecidas a jovens cantores brasileiros e um recital, hoje, no Teatro São Pedro, acompanhada do pianista Ricardo Ballestero.

Baglioni vai interpretar em São Paulo trechos das óperas a partir das quais construiu sua carreira, na Europa e nos Estados Unidos: “Sansão e Dalila”, “Cavalleria Rusticana”, “Adriana Lecouvrer”, “Il Trovatore”, “Don Carlo”. Longe dos palcos, ela explica a escolha. “Eu poderia ter preparado um recital de árias antigas ou coisa parecida mas acho um desaforo vir de tão longe e não oferecer ao público aquilo que ele gosta de ouvir. E que, afinal, tem mais relação com o que foi minha carreira, marcada pelos papéis dramáticos”, diz. “Vou começar com a ária de Charlotte, do Werther, que estabelece uma relação direta com o público e depois faço Dalila, Azucena, e uma ária de Carlos Gomes. Estou muito feliz de poder cantá-lo aqui no Brasil.” Ela segue repassando o repertório até que chega na Princesa Eboli, do Don Carlo. “É uma ópera pela qual tenho carinho especial”, diz. Os motivos? A escrita de Verdi (“um autor que conhecia muito de voz e escrevia para vozes importantes”) é um deles – mas não o único. “Na ópera, tenores e sopranos vem sempre na frente e meio-sopranos e barítonos são os vilões, os rivais. Mas no Don Carlo a meio-soprano é um personagem muito forte, com árias belíssimas. Já tive colegas, gente importante, que disseram: ‘Eu não canto mais essa ópera com você!’.”

Em mais de trinta anos de carreira, Baglioni cantou com todos os grandes do cenário lírico. E, suas gravações nos mostram, fez parte ela também desse seleto time de cantores. A estréia como protagonista foi em “La Favorita”, de Donizetti, ao lado de Luciano Pavarotti. “Digam o que quiserem sobre ele, mas era a voz mais bela que existia. Naquela época, ele já era grande. Ganhava uma fortuna para cantar e eu, que era a protagonista, nem chegava perto”, ela conta, rindo. Adorava cantarolar mas nunca havia pensado em cantar ópera, lembra, até que seus pais sugeriram que fosse estudar canto seriamente. “Foi então que descobri que minha voz era de meio-soprano e fui estudar técnica. Fiz audições e concursos até conseguir essa Favorita. A partir daí, logo fui chamada para o Scala de Milão.” Qual a lembrança desses anos de formação? “É importante que o cantor tenha segurança de seu talento e que aguente firme os primeiros anos, é difícil conseguir um espaço e ajuda ter alguém do seu lado te apoiando. Meu pai vinha de uma família musical e sempre me ajudou mas, em certo momento, começou a se perguntar se não era o caso de buscar outro caminho. Mas minha professora insistia: não, de jeito nenhum, você tem que continuar, você tem que acreditar.”

Baglioni diz que gostou dos alunos com quem trabalhou no fim de semana, “há vozes importantes ali”, mas é preciso mais estudo para incorporar toda a técnica e as exigências do canto italiano. Faz questão de ressaltar que o primeiro instrumento do cantor é o cérebro. E cutuca o esquema de produção dos teatros italianos de hoje. “A ênfase está nas grandes produções, estrelas do canto, diretores famosos. Isso eleva os custos, fazendo com que os ingressos sejam caros e sejam programadas poucas récitas”, diz. Por isso, acha interessante iniciativas como a do Metropolitan Opera House, de Nova York, “onde fiz uma Dalila da qual jamais me esqueci”, que tem transmitido suas produções no cinema. “A ópera foi criada para teatros pequenos, os ingressos são caros. Quando se leva o gênero ao cinema, às projeções em praça pública, dá-se a oportunidade de um público maior entrar em contato com a magia dessa música. E isso é muito importante.”

Serviço
Bruna Baglioni
Projeto Grandes Vozes
Dia 5 de maio, terça-feira, às 21hs
Theatro São Pedro (Rua Barra Funda, 171)
Tel. 3667-0499 – Grátis

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