Krzysztof Penderecki (1933-2020): lembranças de uma conversa

Krzysztof Penderecki (1933-2020): lembranças de uma conversa

Compositor, que morreu na manhã deste domingo, dia 29, esteve no Brasil diversas vezes, regendo orquestras como a Petrobras Sinfônica, a Filarmônica de Minas Gerais e a Osesp

João Luiz Sampaio

29 de março de 2020 | 12h17

Em junho de 2006, fui ao Rio de Janeiro para fazer uma entrevista com o compositor alemão Krzysztof Penderecki. Ele estava em meio aos ensaios de um concerto com a Orquestra Petrobras Sinfônica, no Teatro Municipal. Mas escolheu conversar comigo em seu hotel, em Copacabana. À medida em que eu chegava, não conseguia tirar da mente a profusão de guinchos humanos recriada pelas cordas em sua Polimorphia. Era angustiante demais, assim como eram obras suas incluídas nas trilhas de filmes como O Iluminado, de Stanley Kubrick, e O Exorcista, de William Friedkin. Queria começar a conversa por ali. Mas ele me desarmou. Ao chegar no hotel, pediu que eu o acompanhasse até uma mesa que havia reservado para a entrevista. Sentamos e ele me explicou, gentilmente. “Aqui, posso observar com calma a praia.”

Penderecki morreu na manhã deste domingo, dia 29, aos 86 anos, após uma longa doença. Escrever sobre ele começa por relembrar que o caminho de sua música costuma seguir uma cronologia relativamente bem definida.

Os anos 1950 são o momento da criação de vanguarda, da ruptura com o passado. Na década de 1960, a primeira pausa e reflexão sobre esse caminho, com uma abertura para a música religiosa: é quando ele escreve a Paixão segundo São João, que cai como uma bomba na Polônia comunista. Vêm os anos 1970 e, com eles, torna-se mais marcante o retorno à música do passado, repensada por meio de um filtro pessoal.

Filtro que, nos anos 1980, passa a incluir ainda mais o olhar sobre a política de seu tempo – peça central aqui é o Réquiem Polonês, que nasce a partir de uma encomenda do Solidariedade, sindicato de trabalhadores criado por Lech Walesa que negava o controle do Partido Comunista. Dali em diante, o compositor havia encontrado seu caminho, fazendo talvez uma outra inflexão, somando aos barrocos e clássicos os românticos em seu olhar com relação ao passado musical.

Penderecki não negava essa trajetória. Mas, mesmo que de maneira indireta, nos fazia olhar um pouco mais a fundo em direção ao homem por trás dela. A ligação inicial com a vanguarda era uma forma de questionar as determinações do realismo soviético. O afastamento da vanguarda, por sua vez, uma necessidade de individual de “não repetir a mim mesmo”. O retorno à música do passado, uma busca “profundamente pessoal” por suas raízes artísticas. A aposta na música sacra, uma afirmação menos religiosa e mais ligada à tentativa de compreender a noção de transcendência. O resgate, em especial como regente, de Bruckner, Strauss, Sibelius ou Prokofiev, o interesse por obras de um período de transição – e nele, idiossincrasia deliciosa, não cabia aquele que talvez fosse o principal símbolo do final do século XIX e começo do século XX, Gustav Mahler. “Ele é uma mistura intensa de sensações e ideias, sempre. Não me agrada.”

Nesse caminho pessoal talvez esteja a chave para a compreensão do caminho de Penderecki. Ele com certeza acreditava nisso. Recusava rótulos, e mesmo a pecha de precursor. Quando questionado, por exemplo, sobre se antecipou o momento atual, em que compositores se sentem livres para renunciar a escolas específicas em nome da liberdade estética, afirmava que não havia sido o primeiro. E que isso pouco importava. Liberdade, dizia, tem a ver com o que se faz com ela. Via na tradição a chave para a inovação. E para a necessidade de honestidade com relação a si mesmo.

“Nas diferentes vezes em que mudei de direção, não foi para trocar de um dogma para outro. Foi para encontrar o meu estilo, a minha música. A minha música é a que eu me sinto honesto escrevendo. É a representação do que a minha sensibilidade sente ser necessário dizer ao público. E a mim mesmo”, me disse naquela entrevista.

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