Jovens cantores

João Luiz Sampaio

10 Julho 2012 | 11h04

Algumas iniciativas recentes me fizeram pensar em uma das principais lacunas do cenário operístico nacional: o espaço constante (ou a falta dele) para o desenvolvimento de jovens vozes. Rapidamente, volto a elas.

Ópera Curta. Idealizado por Cleber Papa e Rosana Caramaschi, o projeto estreou em junho seu novo espetáculo, “La Bohème”. Não pude comparecer à estreia, mas vi outros dois títulos da companhia: “Madame Butterfly”, em Santos, e “La Traviata”, em Itu. É um formato muito interessante: não se trata de apresentar trechos famosos intercalados por uma narração. O que Pape faz é criar, a partir da obra, um novo espetáculo. Na “Butterfly”, por exemplo, Suzuki surgia como a narradora da história. Isso dá uma integridade maior à narrativa, permitindo, de maneira rica e espontânea, não apenas explicar a história ao público leigo como também ressignificá-la. Musicalmente, as partituras ganham arranjos para pequenos conjuntos de câmara, alternativa bem-vinda ao acompanhamento ao p iano (quem assina a direção musical é Luis Gustavo Petri). Importante também é a itinerância – o projeto visita dezenas de cidades do interior de São Paulo. Trata-se do surgimento de um novo formato, que em pouco tempo oferece resultados auspiciosos.

Ópera Estúdio. A iniciativa é da Escola de Música do Estado de São Paulo. Em junho, com direção de Mauro Wrona, apresentaram trechos de “As Bodas de Fígaro”, de Mozart. Cenários discretos, mas funcionais, foram montados na Pinacoteca do Estado e no Museu do Ipiranga. O formato é mais tradicional, com um narrador intercalando os trechos principais. No elenco, alunos da escola, acompanhados ao piano. O desempenho vocal é desigual, é preciso dizer. Mas o espetáculo flui e cresce à medida em que os cantores se sentem mais à vontade no palco, ainda que muitas vezes recorram a um histrionismo na interpretação.

Ópera na UFRJ. Sobre esse projeto, levado ao palco no fim de semana no Rio, escrevo a partir do que li na imprensa de lá e no material que apresenta o projeto. Acompanhados da Sinfônica da UFRJ, um time de jovens solistas apresentou “Cosi Fan Tutte”, de Mozart, regidos por André Cardoso (que, por sinal, tem feito um excelente trabalho para manter a ópera como foco de debate e interpretação na universidade). O curioso é a concepção cênica, assinada por André Heller-Lopes: os mesmo cantores apresentam duas versões de encenação, uma tradicional e uma moderna. Entram em contato, assim, com diferentes possibilidades de leitura de uma mesma obra, processo do qual acaba participando também o público.

Os três projetos, em que pesem as diferenças entre eles, trazem um ponto em comum: a abertura de espaço para novos cantores, em condições favoráveis ao desenvolvimento de suas vozes. E isso é fundamental. Não se pode negar que, nos últimos anos, uma nova geração tem chegado aos palcos dos principais teatros do país, com maestros se preocupando em revelar talentos. Ao mesmo tempo, porém, nossas temporadas não são grandes os suficientes para contemplar um número amplo de cantores; e dar a um cantor sem experiência um papel em um teatro de grandes proporções, sob olhar de público, colegas e crítica, pode muitas vezes significar jogar aos leões uma voz ainda em formação. Por conta disso, projetos como os três citados acima são tão importantes – para não falar no modo como podem ajudar a formar público, o que é assunto para uma outra hora. Sempre que converso com cantores que passam pelo Brasil, toco no tema da formação de novos talentos. E todos são categóricos ao dizer que um cantor só termina de se formar na prática. É com ela que vão aprender a estar no palco, a cantar em conjunto, a compreender o que é uma encenação, a saber dosar uma interpretação de um papel extenso, os truques, e assim por diante. Ou seja, o cantor só se forma no palco. Mas que palco é esse? Normalmente, em especial no que diz respeito aos europeus, estão se referindo a teatros pequenos, de província, em que um jovem cantor pode, aos poucos, formar seu repertório. Não temos essa prática aqui no Brasil, onde mesmo os teatros de grandes centros sofrem para manter temporadas amplas. Restam, então, espetáculos “pocket”, seja utilizando o formato mais tradicional das vesperais líricas, seja reinventando sua proposta e a levando a um outro patamar, caso do Ópera Curta. E, em seguida, por que não pensar em programas de formação associados a teatros profissionais, prática comum lá fora? Não se trata apenas de formar cantores – mas de ramificar a ópera em diversas direções na vida cultural da cidade, ajudando a consolidar sua presença.