Jocy de Oliveira: “A história da música foi sempre escrita pelos homens”

Jocy de Oliveira: “A história da música foi sempre escrita pelos homens”

Primeira mulher a ter uma ópera encenada no Teatro Municipal de São Paulo, em 1994, a compositora fala sobre o espaço para as compositoras no meio musical e anuncia estreia brasileira de sua nova obra, o filme "Liquid Voices", para outubro

João Luiz Sampaio

12 de setembro de 2019 | 12h21

Com as apresentações da ópera Prism, de Ellen Reid, no Teatro Municipal de São Paulo, um fato ganhou destaque: esta é a apenas a segunda vez, em 108 anos de história, que o teatro leva ao palco uma ópera de uma compositora. A primeira foi em 1994: Fata Morgana, de Jocy de Oliveira. Conversei rapidamente com ela na semana passada. Aos 83 anos, ela tem rodado a Europa com o filme Liquid voices, sua nova obra, que já venceu prêmios em Londres, Nice e Madri. Diz que, ignorada pelos teatros, só consegue levar suas obras ao palco porque levanta sozinha os recursos. E não se esconde atrás de eufemismos para tratar do espaço para a mulher no meio musical brasileiro: “A história da música foi sempre escrita pelos homens e, muito especialmente no Brasil, com uma visão chauvinista e colonizada”.

Fata Morgana foi a primeira ópera escrita por uma mulher a ser apresentada no Theatro Municipal de São Paulo, em 1994. Qual a lembrança que a senhora tem dessa produção?

Há 25 anos Fata Morgana foi apresentada no Municipal…Bom, creio que seria interessante lembrar que em 1961, também no teatro, foi apresentado meu drama eletrônico Apague meu spotlight, em parceria com Luciano Berio, que teve como intérpretes Fernanda Montenegro e Sergio Britto, entre outros, e representou a primeira audição de música eletrônica no Brasil. Mas nenhum dos dois espetáculos foi de fato produzido pelo teatro. E o que aconteceu nesses 25 anos? Minhas óperas não podem ser consideradas óperas no sentido convencional (faria algum sentido uma ópera convencional nos séculos 20 e 21?) Quem sabe agora, com essa trégua 25 anos depois, chegará novamente minha vez?

O espaço para compositoras é maior hoje? Ou a senhora acredita que ainda existe resistência do meio musical ao trabalho das mulheres?

A história da música foi sempre escrita pelos homens e, muito especialmente no Brasil, com uma visão chauvinista e colonizada. Eu tenho realizado todas as obras que criei porque também me profissionalizei como pessoa jurídica, levanto minhas próprias produções, capto recursos, levo minhas obras para o exterior. Mas o que interessa é lembrar a falta de espaço para as mulheres compositoras em geral e que dependem das instituições artística brasileiras.

A condição da mulher na sociedade é um dos temas de sua obra…

Desde os anos 1960, tive alguns temas recorrentes na minha obra: o resgate dos valores do feminino através da atemporalidade dos mitos, o meio ambiente, o espaço. Transformou-se atualmente em uma nova aventura: o desafio de lidar com uma intertextualidade de mídias ao acrescentar ao teatro novos caminhos do cinema em Liquid voices. Para isso, escrevi o roteiro, compus a música e dirigi um filme de longa metragem no formato de ópera cinemática.

Liquid voices tem recebido boa acolhida em festivais no exterior. Há alguma previsão de estreia no Brasil?

Ele foi aceito na seleção oficial e premiado em dos festivais em Londres, em Nice e em Madri. É uma vitória porque se trata de um filme diferenciado, que foge dos padrões tradicionais, enfoca a música com igual importância da imagem e narrativa. Esperamos conseguir apresenta-lo nos festivais de cinema no Brasil, mas de toda maneira faremos um lançamento com direito a performance ao vivo e bate-papo no Cine Sesc, em São Paulo, e no Cine Odeon, no Rio de Janeiro. Será em meados de outubro.

 

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