Jessye Norman (1945-2019): uma voz impregnada de vida

Jessye Norman (1945-2019): uma voz impregnada de vida

Soprano Jessye Norman morreu no início da noite desta segunda-feira, dia 30, aos 74 anos; ela foi uma da maiores cantoras líricas do mundo

João Luiz Sampaio

30 de setembro de 2019 | 21h33

“E minha alma, sem amarras, deseja flutuar com as asas livres para, na esfera mágica da noite, viver uma vida profunda e múltipla”. Na música que o compositor Richard Strauss escreveu para os versos de Herman Hesse há um momento em que, depois de uma passagem apenas orquestral, a voz ressurge num crescendo quase místico.

Jessye Norman fazia dele uma experiência única. O volume da voz era impressionante, mas era mais, uma espécie de energia vital… Sei que, agora há pouco, corri para ouvir a canção, a terceira das Quatro Últimas de Strauss.

E sei que não fui o único.

Jessye Norman morreu na tarde desta segunda-feira, dia 30, aos 74 anos. Desde 2015, lutava com as consequências de uma queda da qual nunca se recuperou. Deixa um legado de gravações impressionante, de um repertório que sempre fugiu do óbvio e fez dela uma das principais cantoras líricas da sua geração.

A soprano nasceu em Augusta, na Geórgia, sul dos Estados Unidos, nos anos 1950, quando ainda vigoravam as Leis de Jim Crow, um conjunto de legislações locais promulgadas por estados sulistas que determinavam a segregação racial e limitavam os direitos civis de afro-americanos.

A soprano Jessye Norman (Reprodução)

Em sua biografia, Stand Up Straight and Sing!, ela conta sobre aquele momento, mas deixa de lado episódios traumáticos para celebrar o que lhe parecia o ensinamento mais importante daqueles anos: como, em casa, a música protegia as crianças da realidade do mundo. E como, ali, estabeleceu-se uma relação visceral com a arte.

Mas o canto, ela me disse em uma entrevista de outubro de 2010, Norman descobriria ao ouvir a contralto Marian Anderson. Primeira soprano americana negra a cantar no Metropolitan Opera House de Nova York, ela foi proibida de se apresentar em um concerto promovido pelas Filhas da Revolução Americana. Ao saber da notícia, a primeira-dama Eleanor Roosevelt deixou a associação e ajudou a promover um recital ao ar livre no Lincoln Memorial, assistido por 75 mil pessoas.

“Não há um dia em que eu não reconheça a influência dela na minha vida”, disse Norman. “Anderson, Nina Simone, Ella Fitzgerald, Lena Horne. Não se trata apenas da importância musical mas também dos exemplos de vida. Elas foram monumentos, acima de tudo, à luta das mulheres.” Para Norman, foram “ícones e guias” – como ela mesma se tornaria, símbolo não apenas da luta contra o preconceito: ela era chamada para momentos marcantes da vida americana, apresentando-se, por exemplo, em março de 2002, em cerimônia pelas vítimas do 11 de setembro.

“O que a arte pode fazer em momentos como esse? Ela é capaz de ajudar as pessoas entenderem o que estão sentido. E esse é o primeiro passo, sempre”, disse em uma entrevista concedida ao Estado pouco antes da apresentação em Nova York.

Carreira

O começo de sua trajetória se deu na Europa, interpretando Mozart e Verdi em casas de ópera em Viena e Berlim. Wagner logo se somaria a seu repertório. A voz de volume poderoso, associada a uma musicalidade ímpar, parecia ideal para a música do compositor alemão. Anos mais tarde, sua Sieglinde na Valquíria encenada na década de 1980 no Metropolitan de Nova York seria testemunho de uma intérprete que, no palco de ópera, era capaz de leituras de intensa dramaticidade.

Mas ela acabaria nunca enfrentando papeis como Isolda, em Tristão e Isolda, e Brünhilde, de O anel do Nibelungo, ainda que tenha deixado registros de trechos das duas obras, nas quais revelava, além das características musicais que a definiam, uma preocupação com o texto fora do comum (o mesmo vale para uma incursão pelo repertório italiano, o que fazia com menos frequência: Cavalleria rusticana, em um registro regido por Semyon Bychkov injustamente subestimado pelos especialistas).

Mas, no que diz respeito às escolhas da carreira, Norman seguiu sempre preferências bastante pessoais. Fez do Erwartung, monólogo expressionista de Arnold Schoenberg, um de seus grandes papeis, assim como Judith, no Castelo do Barba-Azul, de Bartok, que gravou com o maestro Pierre Boulez no original húngaro.

E, com o tempo, o interesse por canções tornou-se decisivo em sua trajetória e a ópera foi ficando para segundo plano. Em ciclos de Schumann, Schubert, Brahms, Debussy ou Mahler, era capaz de revelar os recantos mais íntimos da relação entre música e texto. Da mesma forma, na música popular, não soava como uma estranha em um mundo ao qual não pertencia: gravou diversos discos de jazz, entre eles uma coletânea antológica com o pianista e compositor Michel Legrand.

Sua última passagem pelo Brasil foi em 2010, quando cantou recitais com canções americanas e spirituals. “Hoje está claro para mim que as canções da América não são menos importantes que o cânone europeu”, me disse. “No final das contas, na hora de escolher o que cantar, eu me faço apenas uma pergunta: posso falar das profundezas do meu ser com essa canção, com esse papel de ópera? Se posso, canto.”

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