Intercâmbio musical – e de ideias

Intercâmbio musical – e de ideias

Alunas do Conservatório de Paris falam sobre o trabalho que desenvolveram ao longo da semana com músicos brasileiros, em apresentações de câmara e com a Orquestra Jovem do Estado de São Paulo

João Luiz Sampaio

09 Abril 2017 | 09h30

A Orquestra Jovem do Estado sobe na tarde deste domingo, dia 9, ao palco da Sala São Paulo para um concerto sob regência do maestro e compositor Bruno Mantovani. No programa, estão obras de Ravel, Debussy e Bartók, o que significa um olhar sobre algumas das possibilidades oferecidas pelo modernismo musical. Mas a apresentação celebra também um outro aspecto importante: a parceria da Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp) com o Conservatório de Paris, do qual Mantovani é diretor.

Concerto de Música de Câmara (alunos EMESP, bolsistas Orquestra Joven e alunos do Conservatório de Paris)

Mathilde e Josephine após apresentação no CEU Perus (Heloisa Bortz/Divulgação)

É no contexto desta parceria que Mantovani desembarcou em São Paulo com um grupo de jovens alunos franceses, que vão se unir aos brasileiros hoje na orquestra. Mas não só. Ao longo da última semana, eles participaram de apresentações de música de câmara com artista do grupo. E fizeram uma imersão no projeto de formação aqui realizado, incluindo contato com estudantes do Projeto Guri.

Uma dessas apresentações aconteceu na tarde de sexta-feira, no CEU Perus, na zona norte de São Paulo, onde há um polo do Guri mantido pela Santa Marcelina Cultura. No final da manhã, antes do recital, o blog conversou com duas alunas do conservatório. Josephine, de 19 anos, toca flauta; Mathilde, de 21, violino. Elas se dizem surpresas com o que encontraram por aqui. “É um ambiente profissional, a orquestra tem uma sonoridade que não esperávamos”, diz Josephine. “Mas o que mais me impressionou foi o prazer de tocar juntos. Esta parece ser uma cultura forte aqui no Brasil, a ideia de que a música é algo que se cria em conjunto. Outro dia fomos a um bar para ouvir choro e é interessante como a música que se faz nasce de maneira totalmente espontânea”, completa. “Há algo de emocionante na possibilidade de estarmos juntos tocando”, afirma Mathilde.

Prioridades

“Em Paris, temos tudo o que precisamos para fazer música. Então, chega um ponto em que você começa a se focar realmente em detalhes, no som, na acústica, no instrumento. Não que isso não seja importante aqui. Mas antes de tudo isso vem a importância de compartilhar na hora de fazer música. Minha flauta sofreu um pouco com o clima aqui no Brasil e precisei levar ela a um especialista, fiquei preocupada, como ela soaria no recital, etc. Mas chega a hora de tocar e o clima é outro: as crianças subiram no palco, sentaram à nossa volta para ouvir, com atenção, com carinho. Isso coloca algumas prioridades em perspectiva”, diz Josephine. E Mathilde complementa: “Esse foco ajuda no próprio ensaio da orquestra. Há uma facilidade, não se complica onde não é preciso complicar, e se busca, em conjunto, a melhor interpretação, o melhor resultado. Há um sentido de alegria muito grande.”

Josephine se diz surpresa também com o trabalho social. “Nós também temos projetos sociais na França, mas aqui percebo que o trabalho com a criança não se limita a elas, envolve também a família. Isso sugere, pelo que eu pude perceber nesse período aqui, um significado diferente para o trabalho social com a música.”

Concerto de Música de Câmara (alunos EMESP, bolsistas Orquestra Joven e alunos do Conservatório de Paris)

O professor

Bruno Mantovani é direto ao definir a importância deste intercâmbio. “Há um mundo que eles não conhecem, uma realidade violenta que não passa pela cabeça deles. Mas que eles precisam conhecer, se dando conta do papel que a música pode ter em diferentes sociedades, aqui ou no exterior”, afirma. Mas não só. “Um outro aspecto interessante da cultura brasileira é que aqui a diferença entre o popular e o clássico não é tão rígida quanto na França. Daí vem uma energia, uma percepção rítmica diferente, que nossos músicos têm prazer em conhecer.”

São dois aspectos práticos, que se somam a outro, mais conceitual. “A França é um país que aposta na excelência individual. Isso pode levar à perda de um sentido de coletividade, de solidariedade. Quando isso acontece, o conceito de responsabilidade individual se dilui. É o que vemos no mundo de hoje, dominado muitas vezes por manipuladores como Donald Trump. Assumir a responsabilidade individual e a autonomia do indivíduo passa, de alguma forma, pela reflexão do papel que elas tem na construção de uma coletividade.”

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