Instituto Odeon diz ter sido chantageado e que fica no Teatro Municipal

Organização social afirma que secretário André Sturm condicionou aprovação de prestação de contas à saída do Odeon da gestão do Teatro Municipal de São Paulo em conversa gravada secretamente; secretário diz que estava propondo "possibilidade de entendimento"

João Luiz Sampaio

14 Novembro 2018 | 18h52

O comando do Teatro Municipal de São Paulo foi pego em meio a uma troca de acusações entre a Secretaria Municipal de Cultura e o Instituto Odeon, organização social responsável pela gestão do espaço. Na manhã de hoje, a secretaria afirmou que as duas partes haviam optado em comum acordo pela rescisão do termo de parceria. O instituto, no entanto, afirma que permanece à frente do teatro e que foi chantageado pelo secretário André Sturm, gravado durante uma conversa realizada ontem, para romper o contrato de forma amigável.

A decisão a respeito da rescisão foi levantada pela reportagem do Estado e confirmada pela secretaria que, em nota, afirmou que “há muito a Fundação Theatro Municipal demonstra insatisfação com a gestão do Instituto Odeon” e que a ideia do fim do termo de parceria teria partido do instituto. O Instituto Odeon, no entanto, considera que a questão agora se tornou litigiosa e, que, por isso, não deixa a gestão do Municipal e vai se defender nos “canais apropriados”.

“Fomos convocados pela secretaria para uma reunião em outubro e, após deliberarmos internamente, resolvemos deixar a gestão do teatro. Mas informamos que só faríamos isso depois de resolvermos todas as pendências jurídicas. Mensalmente, por exemplo, enviamos prestações de contas que nunca foram aprovadas ou negadas. Sem resolver questões como essas, não haveria distrato”, explica Carlos Gradim, diretor-presidente do Odeon.

Segundo ele, foi estipulado um prazo até o dia 14 de novembro. “Mas hoje pela manhã, como essas questões não haviam sido resolvidas, eu me recusei a assinar o distrato. E recebemos em seguida uma notificação que não nos informa do fim do contrato, mas, sim, sugere essa possibilidade tendo em vista o que eles consideram irregularidades na nossa gestão”, diz Gradim.

No documento, a Fundação Theatro Municipal questiona supostos problemas no pagamento de profissional de captação, a falta de clareza em informaçõe sobre a bilheteria e erros de planejamento artístico. O Odeon nega todas essas acusações e diz que elas já foram esclarecidas pelo instituto em ofícios enviados à fundação.

Gravação

Na terça, o diretor financeiro e de operações do Instituto Odeon, Jimmy Keller, gravou uma conversa na qual André Sturm propunha um acordo. No áudio, obtido pelo Estado, Sturm condiciona a aceitação das prestações de conta do Instituto Odeon ao anúncio de que o instituto deixará a gestão do Municipal.

“Vou ser sincero. É evidente, vou falar e não sai daqui, é evidente que não vou dar quitação antes de vocês assinarem que querem sair. Porque, veja, bem se eu dou a quitação para vocês e o presidente do conselho diz que pensou melhor e não quer sair? Como eu vou notificar vocês depois se dou quitação para vocês? Agora, é evidente a disposição para um entendimento amigável. Se eu não quisesse amigável, já teria feito litigioso”, diz o secretário na conversa, gravada sem seu conhecimento. “Eu estou tentando construir uma uma saída que considero melhor para o Municipal, para o Odeon, para a secretaria e para o modelo de OS, é fofinho, desentendimento, questões, que fica meio subjetivo. Mas não vou dizer que tá tudo certo antes de vocês concordarem em sair. (…) Eu já conversei com a prefeitura, se eles concordarem em sair, melhor para todo mundo. Mas, veja, o Odeon não tem nenhuma prestação de contas aprovada (o representante do Odeon interrompe para dizer que foram todas apresentadas no prazo). O Odeon portanto está sob o risco de receber punição. O Odeon quer a quitação. Não faz sentido assinar e resolver do que correr o risco e não assinar e aí você sabe é a filigrana da filipeta, você sabe se quer ser chato, você sabe como é advogado. A Dilma caiu por causa de pedaladas fiscais. Eu estou falando numa boa. Porque amanhã eu não vou ficar debatendo. Eu vou tomar providência. Já passou o tempo do debate rico, fofinho.”

“Para mim, isso tem um nome, é chantagem”, diz Keller.

Procurado pelo Estado, André Sturm afirma que não houve chantagem e que não negociou a quitação da prestação de contas. “Eu nem poderia fazer isso. Não estava propondo nada além de uma possibilidade de entendimento que eu acreditava ser a melhor opção para todos. Até porque o problema não está na prestação de contas, ele começa antes. O que vemos é uma má gestão, com falta de transparência, ineficiência”, afirma. O Odeon, por sua vez, diz que todas as solicitações feitas pela secretaria ao longo do último ano foram respondidas. Mas Sturm nega. “Eles sempre mandam trocentos documentos, mas nunca o que é pedido.”