Impasses no Municipal

Impasses no Municipal

João Luiz Sampaio

16 de junho de 2010 | 13h27

O Municipal em reforma/ Tiago Queiroz/AE

O Municipal em reforma/ Tiago Queiroz/AE

O Teatro Municipal de São Paulo completa 100 anos em março de 2011 – e, nos bastidores, boatos dão conta de uma festa de arromba sendo aprontada. A dúvida é se o salão estará em ordem a tempo. Músicos da Sinfônica Municipal, após assembleia, acabam de pedir a saída do maestro Rodrigo de Carvalho do posto de regente titular; em resposta, concertos até agosto foram cancelados, resgatando o fantasma dos contratos precários de trabalho dos artistas. E não é só isso: representantes dos demais corpos estáveis da casa questionam a ausência de um diretor artístico no projeto que prevê a transformação do Municipal em uma fundação; e as últimas estimativas sobre a obra pela qual passa o Municipal preveem que o teatro somente será reaberto em julho de 2011.

Carvalho ocupava o posto de regente-assistente da Sinfônica Municipal, trabalhando ao lado do então titular José Maria Florêncio, que deixou o cargo no fim de 2008. Passou, então, por meio de uma portaria de designação, a desempenhar as funções de regente titular. Na carta enviada ao prefeito Gilberto Kassab, ao secretário Carlos Augusto Calil, a Carvalho e à diretora do Municipal, Beatriz Amaral, o grupo de spallas da sinfônica escreve que os músicos aceitaram a decisão por acreditarem ser uma solução provisória. “Com a extensão desse prazo, acumularam-se as evidências da limitada competência artística do maestro Rodrigo de Carvalho. (…) Além disso, as interferências unilaterais do maestro na hierarquia artística interna da orquestra, juntamente à restrição do diálogo com os representantes artísticos da orquestra, causaram uma deterioração contínua do clima de trabalho, chegando a um ponto de insustentabilidade.”

Por conta disso, fizeram uma eleição interna, com voto secreto. Das 112 vagas, três não estão preenchidas e, descontadas ainda as cinco abstenções, foram 104 os votantes. Destes, 10 votaram nulo, levando a um total de 94 votos válidos; 88 optaram pela não permanência de Carvalho; quatro o referendaram como regente titular; 2 votaram em branco. Dos 88 que querem a saída do maestro, 78 dão como justificativa “questões artísticas e desempenho gerencial”. Os músicos fizeram ainda uma votação para chegar a uma lista tríplice de maestros candidatos ao posto: Luiz Fernando Malheiro, Alex Klein e Carlos Moreno. Procurado pelo Estado, Carvalho preferiu responder às perguntas por e-mail. Apesar dos números da votação, diz que o pedido pela sua saída representa a “vontade individualista de alguns integrantes”; e questiona a presença de questões artísticas como justificativa. “O que está sendo questionado por parte da orquestra não é minha competência artística, mas o fato de ter imprimido à Sinfônica Municipal – um grupo de músicos mantido pela municipalidade para estar à disposição 30 dias por mês, com salários pagos pelo cidadão paulistano – padrões mínimos de qualquer gestão pública, como desconto do dia, por faltas a atividades agendadas com antecedência”, diz. Segundo um representante dos músicos, porém, ninguém questiona a autoridade do maestro, mas, sim, a maneira como ele a tem exercido. “Há regras internas que preveem advertências e suspensões e a demissão sumária de alguns integrantes vai contra elas, e acabaram revertidas”, diz.

Após a entrega da carta, os músicos souberam do cancelamento dos concertos da orquestra até agosto – entre eles, a apresentação no Festival de Inverno de Campos do Jordão, com a pianista Cristina Ortiz. Aqui, a história se ramifica em versões. Os músicos dizem não conhecer os motivos do cancelamento; a direção, em contato com o festival, afirmou que, “amotinada”, a orquestra não poderia participar, versão corroborada pela Secretaria Municipal de Cultura, em e-mail enviado à Redação. Possível árbitro na questão, o diretor do evento, Paulo Zuben falou com o Estado. “Sei tanto quanto você, mas não cancelei o concerto, há o compromisso com a solista e ingressos à venda”, diz. “Quando ouvi falar do motim, conversei com músicos e eles, em uma carta enviada na última sexta, garantiram que vão se apresentar. Hoje (segunda-feira) tentei falar com a diretora, mas fui informado de que ela havia partido em férias. Achei estranho e, sem interlocutor, apelei ao secretário Estadual de Cultura, pedindo a ele que procurasse seu colega de município em busca de mais informações.”

O cancelamento dos concertos resgata um antigo fantasma da história do Teatro Municipal. Cerca de 80% dos músicos da Sinfônica Municipal têm contratos provisórios de trabalhos, que precisam ser renovados periodicamente – a criação da fundação, aliás, tem como um dos objetivos resolver essa questão. Para que os contratos sejam feitos, no entanto, é preciso discriminar os concertos e obras dos quais os artistas vão participar. “Se os concertos são cancelados, não há contrato e, portanto, mais de 80% da orquestra perde o vínculo e ela deixa de existir propriamente dita. Tenho colegas que estão desesperados com essa possibilidade”, diz um experiente integrante da orquestra, que pediu para não ser identificado.

A Secretaria Municipal de Cultura, em resposta enviada por e-mail, diz que “os contratos serão renovados normalmente, mas a retomada dos concertos depende da manifestação do conjunto da Sinfônica Municipal no sentido de colaborar com o maestro interino e a programação por ele proposta”. Representantes dos músicos ouvidos pelo Estado garantem que a orquestra está disposta a cumprir a programação, mesmo que sob a direção de Rodrigo de Carvalho, “antes que uma opção seja encontrada”. Na segunda-feira, porém, funcionários do Municipal informaram que tanto Carvalho quanto a diretora-geral Beatriz Amaral estavam em férias a partir daquele dia, retornando apenas em um mês.

Ainda sobre a polêmica envolvendo o nome de Carvalho, a Secretaria afirma que ele “nunca foi regente titular da Sinfônica Municipal”. “É seu interino.” Mesmo que o material de divulgação da temporada da orquestra no Auditório Ibirapuera, que está servindo de palco para o grupo durante a reforma do teatro, o apresente como regente titular, a mensagem da Secretaria informa que “a intenção era a de aguardar a criação da fundação e só então definir o regente titular de sua orquestra”. “A manifestação dos músicos precipitou o processo e a Secretaria de Cultura pretende convidar maestros para regerem o conjunto.”

A permanência ou não de Carvalho, porém, parece ser apenas um aspecto de uma discussão maior, que envolve a programação durante o período da reforma do palco e a transformação do Teatro Municipal em uma fundação de direito público, que está em discussão na Câmara Municipal. “Estamos nos sentindo perdidos e vendo a qualidade do trabalho se perder”, diz uma representante do Coral Lírico Municipal, um dos corpos estáveis do teatro. “Sabemos que podemos fazer melhor do que isso, mas estamos sem interlocutor dentro do teatro. Ouvimos falar de uma programação sendo montada para 2011, quando o teatro completa 100 anos, mas o que sabemos é pela imprensa”, diz, corroborando informações dadas por membros de outros grupos da casa, como o Balé da Cidade e a Orquestra Experimental de Repertório.

Críticas. A questão que os músicos colocam é a ausência de um diretor artístico no projeto da fundação, que teria apenas um diretor-geral e um conselho de programação. O formato vem sendo criticado também por personalidades do mundo musical. O maestro John Neschling, por exemplo, escreveu em seu blog, o Semibreves: “É sabido no meio musical que se deseja que o Teatro Municipal seja dirigido por uma comissão artística. Não conheço nenhum teatro no mundo que seja dirigido artisticamente por uma comissão. No Brasil, onde até políticos e editores se metem a programar temporadas musicais, uma solução como essa não é novidade. Na minha opinião, trata-se de uma guerra anunciada e de um desastre com hora marcada. Se isso virar lei, o Teatro Municipal estará condenado a uma mediocridade eterna (mediocridade no sentido literal de qualidade da média), até que essa lei seja revogada, o que sabemos pode levar décadas”, escreveu. E completou: “A falta de uma direção artística no nosso teatro lírico acaba por permitir erros desse quilate: uma orquestra, há muito tempo sem projeto e com concertos esparsos aqui e ali, terá como primeiro desafio do ano que vem tocar uma partitura dificílima, só enfrentada habitualmente por orquestras com muitos anos de trabalho constante e profundo, que já vem tocando sistematicamente todo o repertório clássico, romântico e pós-romântico”, pontuou, fazendo referência ao anúncio de Lulu, de Alban Berg, como um dos títulos previstos para a temporada de 2011, que teria ainda a presença dos pianistas Nelson Freire, Maria João Pires e Martha Argerich.

As declarações do maestro Neschling não receberam resposta oficial por parte da Prefeitura, mas o Estado teve acesso a uma carta enviada a ele pela diretora do Municipal, Beatriz Amaral, que dá pistas sobre como será desenvolvida a direção artística da fundação. “Explico ao maestro que o projeto é de uma fundação pública e não privada e prevê um diretor musical, um diretor de dança e um diretor de formação: são esses profissionais que se responsabilizarão por elaborar a programação. E, enquanto a fundação não se instala, há uma comissão especial constituída por profissionais de comprovada competência que se responsabiliza pela programação a ser desenvolvida em 2011”, diz a carta. Os artistas do teatro, porém, insistem que não estão sendo consultados sobre os planos.

A presença de um diretor musical, um diretor de dança e um diretor de formação contraria a nota oficial enviada à imprensa pela Secretaria Municipal de Cultura quando o maestro Jamil Maluf deixou o posto de diretor artístico do Municipal, em novembro de 2009. Explicando que a saída de Maluf tinha como objetivo facilitar a transição para o novo modelo de gestão, a nota dizia que, quando da instalação da fundação, “será criado um Conselho de Orientação Artística composto pela diretora do teatro, Beatriz Franco do Amaral; pela diretora do Balé da Cidade, Mônica Mion; pelo regente da Sinfônica Municipal, Rodrigo de Carvalho; pelo regente da Experimental de Repertório, Jamil Maluf; por um representante do Quarteto de Cordas; pelo regente do Coral Lírico, Mário Zaccaro; pelo regente do Coral Paulistano, Tiago Pinheiro; e pelos diretores das escolas de dança e música do município, Esmeralda Penha Gazal e Henrique Gregori”.
Questionada sobre a questão, a Secretaria diz que “não conhecemos manifestações contrárias ao formato proposto”. “O Teatro Municipal é composto de corpos artísticos (duas orquestras, dois coros, um balé e um quarteto), mas também de duas escolas profissionalizantes e de uma central de produção. A recente experiência mostrou que um diretor artístico não tem condições de coordenar todas essas atividades, e por esse motivo se propõe na futura fundação a figura de um diretor musical.” A nota diz ainda que, ao contrário do que foi vinculado na imprensa, a reforma do palco será concluída em janeiro de 2011.

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