Hein!?

João Luiz Sampaio

15 de fevereiro de 2009 | 20h59

Acompanhei agora à tarde a sessão de “Orfeu e Eurídice” no Cine Bombril. A sala estava cheia e a reação do público foi muito boa em geral – amanhã talvez tenhamos números de espectadores Brasil afora e então será mais fácil avaliar o sucesso dessa primeira projeção. Mas o assunto do post é outro. Depois de ler o que escrevi sobre a montagem, Luana pergunta: “Me explica o que vocês querem dizer com ‘cores’ da voz, ‘timbre quente’, ‘riqueza de coloridos’, ‘do tom ensolarado da abertura aos monólogos sofridos de Orfeu’? O que é um ‘tom ensolarado’? Eu queria tanto entender essas descrições. Seriam apenas metáforas? Poesias?”. Bom, vou tentar responder. É muito curioso que elementos visuais acabem servindo sempre para descrever a música. De alguma forma, trata-se de um recurso que nos ajuda a dar forma a uma manifestação artística que é essencialmente abstrata na sua percepção, mesmo que não o seja necessariamente em sua concepção. No caso da voz, a coisa é ainda mais curiosa, afinal, trata-se do mais pessoal dos instrumentos, ela está dentro do artista, se transforma com sua respiração ou composição química, por exemplo, de maneira intrínseca e impossível de separar. Por tudo isso, fica muito difícil fazer, em palavras, referência a ela. E acabamos buscando subterfúgios… Falamos em riqueza de coloridos quando queremos chamar atenção à riqueza expressiva de uma voz; em outras palavras, o que queremos dizer é que a voz não é “chapada”, não soa sempre da mesma maneira mas, antes, se adapta de acordo com cada situação dramática. Traçando um paralelo: quem se lembra do cigano Igor de uma novela de tempos atrás? Então, chorando ou rindo, a cara dele era a mesma – o ator, portanto, não tinha riqueza nenhuma de coloridos. Outra comparação, agora me limitando à cor em si: imagine uma cor, verde, por exemplo – o verde nem sempre é o mesmo verde, possui várias gradações, mais claro, mais escuro, por aí vai, com cada verde tendo a sua personalidade, digamos assim. É a mesma coisa com a voz – uma voz é uma voz mas possui diversas gradações que a compõem e é preciso um cantor inteligente para usar cada uma delas na construção de uma personagem. “Voz quente” é mais difícil de explicar. Aqui, trata-se puramente de uma questão sensorial. O “quente” poderia ser substituído por “envolvente”, “aconchegante”, “expressivo”. O ensolarado do tom nada tem a ver necessariamente com a tonalidade musical mas, sim, com o caráter da música, que é alegre, viva. Tudo bem, pode existir alguém para quem o sol quer dizer exatamente o contrário – dependendo do meu humor, eu mesmo prefiro vez ou outra um dia chuvoso a uma tarde de sol na praia. Mas aí vai da poesia interna de cada um. Será que expliquei?

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