Guiomar

Guiomar

João Luiz Sampaio

06 de novembro de 2009 | 19h19

Às vezes acontece de sentirmos saudades de tempos não vividos. E como não sentir vontade de se transportar no tempo para a primeira fila de um teatro qualquer, ansioso para ver no palco uma pianista como Guiomar Novaes? Há quase duas semanas que ouço sem parar um disco que achei perdido pela internet. Anos 40, “Concerto para Piano nº4” de Beethoven, “Concerto nº 2” de Chopin, Otto Klemperer, Sinfônica de Viena. Quando Guiomar morreu, em , o crítico Harold C. Schoenberg escreveu um longo obituário. Lá pelas tantas, escreve: seu repertório era pequeno, mas nele cabia tanta coisa que é como se a cada novo concerto de Beethoven uma nova peça surgisse perante nossos ouvidos. Fiquei louco justamente com a espontaneidade do piano dela, com a riqueza de detalhes, a alternância de climas, os jogos, com aquela sensação que nos dão os grandes de que o piano pertence a eles – e de tal forma que peça, instrumento e intérprete se transformam em uma coisa só. Ouço e fico sentindo falta danada do piano de Guiomar que, claro, nunca vi ao vivo. É que a memória, no final das contas, não é apenas lembrança – é também desejo.

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