Formar cantores – como e para quê? Uma conversa com Brian Zeger

Formar cantores – como e para quê? Uma conversa com Brian Zeger

Em passagem pelo Brasil, diretor artístico de Artes Vocais da Juilliard School of Music de Nova York fala de parceria com a Academia do Theatro São Pedro e discute a formação do cantor - questão que, no Brasil, pode fazer parte de um debate ainda mais amplo sobre a ópera

João Luiz Sampaio

12 Julho 2018 | 16h49

No final de maio, esteve no Brasil o pianista Brian Zeger, diretor artístico de Artes Vocais da Juilliard School of Music de Nova York, que desde 2008 mantém parceria também com o Metropolitan Opera Lindemann Young Artist Development Program, iniciativa de formação de artistas ligada à principal casa de ópera norte-americana. Zeger veio ao país a convite da Santa Marcelina Cultura (OS gestora da Escola de Música do Estado de São Paulo e do Theatro São Pedro) para conhecer a Academia do Theatro São Pedro e estudar possibilidades de parcerias entre as duas instituições. “Acredito que o primeiro passo imediato é ter alguns de nossos professores vindo ao Brasil”, disse na ocasião.

Estamos naturalmente falando de duas realidades bastante diferentes. No Brasil, onde vivemos ainda de modo geral uma incompreensão a respeito do valor do gênero como manifestação artística, e lidamos consequentemente com a inexistência de um mercado sólido, consistente, qual o significado de se falar na formação de artistas? Talvez essa discussão passe também por outra, mais ampla, sobre o próprio papel que as casas de ópera brasileiras podem ter na busca por novos espaços, favorecendo o jovem profissional, mas também a si próprias, criando uma rede maior de profissionais e de público. Sobre essas e outras questões, enfim, fala Zeger na entrevista a seguir.

Brian Zeger por Sergio Ferreira/Divulgação

O senhor esteve aqui acompanhado o trabalho da Academia de Ópera do Theatro São Pedro, viu a montagem de O matrimônio secreto, de Cimarosa, assistiu a apresentações em um polo do Projeto Guri. Quais as impressões que a viagem despertou?
Muitas sensações, na verdade. Encontrar um programa que combina metas sociais com a formação de músicos em estágio avançado foi algo novo para mim. Nos Estados Unidos, você normalmente tem um ou outro. E minha experiência principal tem sido com a formação em alta performance. Então, passo pelo Brasil com dois óculos distintos. Um deles me ajuda a olhar o trabalho da academia e oferecer contribuições a respeito da melhor maneira de formar cantores profissionais. E o outro me revelou um mundo que não conhecia, que me tocou muito, e que seguirá comigo durante um bom tempo.

O formato de academias de ópera não ligadas a universidades é relativamente novo no Brasil. Nos últimos anos, surgiram projetos ligados a teatros, como a Academia do Theatro São Pedro e o Ópera Studio da Escola Municipal de Música, ligado ao Theatro Municipal de São Paulo. O que se deve esperar de projetos como esse? O que significa oferecer um treinamento de alta performance a um cantor? E em que medida a ligação com casas de óperas sugere algum tipo de especificidade a ser levada em consideração?
Grandes casas de ópera têm seus programas de treinamento. Eles variam em qualidade, mas a meta para todos é lançar cantores “profissionalmente viáveis”, com uma chance real de construir uma carreira e viver dela. Você não deve medir o sucesso de um programa pela quantidade de cantores que vão atuar na casa de ópera a que ele pertence. Talvez o cantor formado pelo programa do Metropolitan não vá cantar ali imediatamente, talvez demore um tempo, talvez ele precise ainda ganhar experiência em teatros menores. No caso do Brasil, obviamente que há desafios diferentes. Um deles tem a ver com a geografia. Vocês estão longe da Europa, dos Estados Unidos. E o fato do mercado da ópera na América Latina não estar unificado é um problema, pois você está sendo formado para um mercado pequeno.

Essa é uma questão importante. Quando se fala em formar um “cantor viável profissionalmente”, isso significa que, a certa altura, o aluno precisa estar no palco, conquistando experiência, cantando um papel inteiro, testando repertório. Mas, se consideramos uma temporada como a de 2018, vemos que em todo o Brasil serão apenas 18 produções. Em outras palavras, além da questão da formação em si, precisamos também nos perguntar: estamos formando cantores para cantar onde?
Eu não conheço muito bem a realidade brasileira, não sei se fora dos grandes centros haveria outros teatros onde um cantor de 25 anos pudesse fazer seu primeiro papel importante. Se não há, então talvez seja preciso sair do país, ir para os Estados Unidos, a Itália, a Alemanha, para terminar sua formação. Até porque, mesmo que o cantor faça um bom trabalho aqui, ele ainda precisa ser descoberto por empresários. Na Juilliard, tenho orgulho de ter criado um plano de audições, com teatros do mundo inteiro indo ouvir nossos alunos. Mas, voltando à sua pergunta, dezoito produções é um número realmente baixo, em especial para as milhões de pessoas que o país tem como habitantes. Nesse sentido, insisto que um circuito de audições, que possa unir a América Latina, seria realmente importante. Não há sentido em vocês trazerem para papéis menores cantores europeus. E essas audições poderiam abrir espaços para que os teatros conheçam os cantores. E mesmo quando for para trazer um cantor de fora, é preciso ter um brasileiro como cover. O cantor aprende com isso, recebe um salário, eventualmente tem a chance de cantar, pode ser algo muito benéfico.

Eu gostaria de voltar a um ponto colocado pelo senhor, que é a inexistência de uma relação obrigatória entre uma casa de ópera e sua academia. Nesses projetos recentes a que me referi, é justamente essa relação a questão conceitualmente mais delicada…
É preciso definir qual a função de uma academia. Ela não é uma fornecedora de cantores para um teatro, mas um espaço em que um treinamento de qualidade precisa ser oferecido, trabalhando aspectos como dicção, atuação, formação musical. O Lindemann, que é parte da estrutura do Met de Nova York, tem profissionais dedicados apenas a ele. Um cantor do programa pode até se juntar à companhia, mas isso é raro e não é um objetivo, até porque nem sempre o repertório da casa se encaixa no do cantor ou o artista simplesmente não está pronto para um teatro com a exigência do Met. Mas há casas de ópera que montam elencos júnior, com seus alunos, que passam a integrar algumas produções. Mas volto a afirmar: uma academia faz bem seu trabalho quando ensina técnica, repertório, idiomas, atuação, e dá conselhos profissionais, colocando os artistas para conversar com empresários, profissionais de comunicação, advogados. Ninguém nasce sabendo essas coisas.

Insisto nessa questão porque me parece que os teatros, em um contexto como o brasileiro, poderiam ou deveriam, se assumem como uma de suas metas formar cantores, trabalhar para ampliar o mercado de trabalho, o que é bom para o gênero e, eventualmente, para os próprios teatros. Um exemplo: uma academia não poderia utilizar teatros menores, de interior, para circular produções e colocar os jovens para cantar papéis completos, complementado suas formações e se preparando para palcos maiores ou mesmo para sair do Brasil para trilhar suas trajetórias?
Se houver orçamento para isso, é exatamente disso que um jovem cantor precisa. Como você disse agora há pouco, é preciso ter a experiência de cantar um papel completo, vivenciar o palco de maneira plena e não com recitais de árias e duetos. E você pode fazer isso com produções simples, em que o foco não está em grandes cenários ou figurinos, mas em longos períodos de ensaios e no contato com profissionais experientes que saibam ajudar o jovem a desenvolver suas habilidades. Nesse contexto, não precisamos de diretores cênicos que queiram defender suas ideias mas, sim, de alguém que entenda que o trabalho é 50% dirigir e 50% ensinar. Na música, vale a mesma coisa: é preciso um maestro que conheça profundamente o repertório, com experiência profunda em ópera, e que saiba ajudar o cantor a extrair o que sua voz tem de melhor. O foco precisa ser o estudante.