Floresta imensa e solitária

Floresta imensa e solitária

João Luiz Sampaio

08 Fevereiro 2010 | 17h11

Amanhã volto ao Brasil mas hoje deu tempo de escapar um pouco de Paris e ir ao Castelo de Fontainebleau, que remonta à Idade Média e por onde passou boa parte da monarquia europeia desde o século 16. Conheci os aposentos de Napoleão, o quarto em que abdicou ao trono, a escadaria da qual se despediu do povo em direção a Elba; e o salão que François I construiu para si próprio, discreto, sombrio, onde gostava de receber importantes personalidades, como o rei espanhol Carlos V. E, claro, para nós operários de plantão, Fontainebleau ganha significado afetivo por ser o ambiente no qual se passa o primeiro ato do “Don Carlo”, de Verdi. É na floresta imensa e solitária que rodeia o castelo que Carlo, herdeiro do trono espanhol, e Elisabetta, filha do monarca francês, se conhecem e se apaixonam, pouco antes dos tiros de canhão do castelo anunciarem que será o pai de Carlo, Felipe II, quem se casará com a moça. É uma das grandes cenas da maturidade verdiana, com o primeiro dueto de amor de uma ópera que tem três – um mais bonito que o outro. Aliás, Don Carlo é para mim um dos grandes Verdis, apesar de ser mais comentado do que de fato escutado e apreciado. Tem tudo o que Verdi sabia fazer de melhor – grandes melodias, em cenas que trabalham habilmente a oposição entre público e privado (e os dramas que experimentam aqueles que vivem as duas esferas), crítica social, à Igreja; e, formalmente, é um Verdi em transição, que prenuncia a genialidade de escrita de Aida, Otello e Falstaff.

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Por falar em Verdi, ainda não comentei aqui. No sábado, fui ao cinema assistir a transmissão do Simon Boccanegra, com Plácido Domingo atacando de barítono no papel do atormentado Doge de Genova. O cara é mesmo incrível! Faz um Simon cheio de contrastes, austero e doce – e a atuação carregada no final do primeiro ato, na cena do Senado, e a morte, no fim da ópera, são de tirar o fôlego. Aliás, o elenco todo chama a atenção. A wagneriana Adrianne Pieczonka me surpreendeu como Amelia; Marcelo Giordani é um bom Adorno; James Morris já perdeu boa parte da voz, mas a autoridade em cena é comovente como Fiesco; e o barítono que fez Paolo, cujo nome me esqueci agora, foi para mim uma revelação. James Levine, como é de costume em partituras que são sua especialidade, nos momentos chaves nos deixa na ponta da cadeira com sua regência. Na entrevista durante o intervalo, Domingo disse que está recebendo uma série de convites para cantar como barítono, mas que quer ir devagar; diz que tem papeis que sabe que não vai fazer, como Iago; e a única coisa confirmada é um Athanael, na Thais, de Massenet, em 2012. Aposentadoria, pelo jeito, nem pensar.