Fischer-Dieskau: muito mais do que uma voz

Fischer-Dieskau: muito mais do que uma voz

João Luiz Sampaio

18 de maio de 2012 | 10h55

Quando esteve no Brasil há alguns anos, para recitais no Teatro Municipal de São Paulo, o barítono alemão Andreas Schmidt brincou quando perguntado sobre a importância de Dietrich Fischer-Dieskau, com quem estudou, no cenário musical do século 20. “Ele sacaneou todo mundo. Os cantores de sua época simplesmente não tinham como cantar, porque todo mundo queria Fischer-Dieskau. E, para nós, que viemos depois, fica sempre a sua sombra. E que sombra.” Fischer-Dieskau morreu hoje cedo, aos 86 anos. Foi mais do que um cantor. Criou um estilo de interpretação que se tornou referência incontornável. Deu nova ênfase às palavras, à pronúncia. Ao longo de 50 anos de carreira, criou um mundo só seu no cenário internacional. Além dos livros que escreveu, sua discografia, ou “dieskaugrafia”, é portentosa, com 60 papéis em ópera, mais de uma centena de cantatas e oratórios e, claro, cerca de 3 mil canções. Com uma qualidade técnica e de interpretação difíceis de serem equiparadas, o mínimo que se pode dizer é que ele abriu nossos ouvidos à experiência da descoberta de um repertório imenso, seja na recriação das obras-chave do romantismo alemão, seja no resgate ou na revelação de autores e ciclos menos conhecidos, dos barrocos aos modernos. O mais interessante, porém, é ver como o caminho trilhado por ele seguiu uma lógica interna, de desenvolvimento das possibilidades de sua própria voz, expandindo-a em direção à maturidade. Foi verdadeiramente grande.

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