Festival Artes Vertentes promove diálogo entre as artes

Festival Artes Vertentes promove diálogo entre as artes

Artes Vertentes, realizado em Tiradentes, discute a criação contemporânea no contexto da interação entre artistas de diferentes áreas. Entre as atrações, a soprano Eliane Coelho e filmes de Robert Wiene

João Luiz Sampaio

10 de setembro de 2015 | 17h00

A partir de hoje até o dia 20 de setembro, a cidade histórica de Tiradentes, em Minas Gerais, abriga o Festival Artes Vertentes. Com direção artística e curadoria geral de Luiz Gustavo Carvalho, o evento propõe o diálogo entre música, literatura, teatro, dança, cinema e artes plásticas. E tem na programação – cujo tema é Crime e Castigo – nomes como a soprano Eliane Coelho, o organista Jan Jansen, os poetas Ricardo Domeneck e Mathilde Campilho, o ator Alvise Camozzi, além da exibição de filmes do diretor Robert Wiene. A programação completa está neste site e, sobre ela, Carvalho concedeu uma breve entrevista ao blog.

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Como surgiu o conceito do festival, que propõe o diálogo entre as artes?

Ele nasceu da minha experiência como pianista em eventos na Europa, em especial dois festivais. Primeiro, o criado nos anos 1970 por Ivry Gitlis em Vence, que já recebeu desde Martha Argerich e Nelson Freire a Yoko Ono e Louis Mahle, apostando em um momento especial das artes na França. Na minha época de estudante em Viena também frequentei o Festival de Lockenhaus, criado pelo Gidon Kremer, que tem justamente a proposta de fazer de uma pequena cidade uma plataforma para que artistas de diferentes áreas e orientações se encontrem e trabalhem juntos. O contato do músico com o poeta, do músico com o artista plástico é enriquecedor. E também para a plateia esse diálogo é bastante rico. O Brasil tem grandes festivais com focos específicos, mas faltava um evento como esse.

E como se dá a escolha da programação? São selecionados os artistas e, partir daí, a agenda se constrói ou o caminho é o contrário?

Uma das preocupações é que o festival não seja um evento que apresente espetáculos que já estão prontos. O encontro com o desconhecido é importante para nós. Além disso, claro, há a excelência como critério – e o desejo do artista de dialogar com outras artes. Sempre dentro de um mote curatorial específico.

Este ano, o mote é Crime e Castigo. Como se chegou a ele?

Muitos têm perguntado se a escolha tem a ver com o atual contexto político brasileiro, mas não há essa relação. O tema surgiu, na verdade, há dois anos. De um lado, há a percepção primeira do “Crime e Castigo” de Dostoievki como um grande romance policial, uma história de detetive – e investigar possibilidades é justamente aquilo a que se propõe o festival, procurar pistas que resultem em uma programação de qualidade. Mas há, claro, a discussão que o livro propõe em torno das noções de ética e moral – e nos interessa pensar nesses conceitos no mundo da arte, trazê-los para o cenário artístico contemporâneo, onde eles ganham enorme importância, assim como uma reflexão sobre as nossas pulsões, nossos desejos e instintos.

E qual a expectativa para a programação deste ano?

Teremos a apresentação da “História do Soldado”, de Stravinsky, em uma produção encomendada especialmente pelo festival e que, esperamos, possa depois fazer carreira em outros palcos. A Eliane Coelho vai interpretar “Dichterliebe”, de Schumann, e o “Pierrot Lunaire”, de Schoenberg. E o organista Jan Jansen vai fazer um recital na Matriz Santo Antônio. Teremos duas exposições fotográficas de dois artistas que expõem pela primeira vez no Brasil. E, no cinema, teremos duas exibições de filmes de Robert Wiene: “Raskolnikov”, primeira adaptação para as telas de uma história de Dostoievski, que será apresentado com música ao vivo; e “As Mãos de Orlac”, que terá apresentação com trilha de Sérgio Rodrigo, encomendada pelo festival.

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