Festival Amazonas recupera ópera ‘Alma’, de Claudio Santoro

Festival Amazonas recupera ópera ‘Alma’, de Claudio Santoro

Obra ganha nova montagem a partir de partitura completa revista pelo compositor; também em Manaus, governo federal assina termo de cooperação com a Ópera Latinoamérica

João Luiz Sampaio

28 de maio de 2019 | 10h56

MANAUS – Gisele Santoro chegou no começo da noite ao Teatro Amazonas, em Manaus. A expressão não escondia um pouco de nervosismo. “Você sabe, quando a ópera estreou eu estava no palco, envolvida com a produção. Desta vez, vou só assistir, e para falar a verdade acho que fico ainda mais ansiosa”, ela diz, abrindo um sorriso.

Viúva de Claudio Santoro, Gisele foi a convidada de honra, na noite de domingo, da estreia de Alma. A obra já havia sido apresentada em 1998, também em Manaus, terra natal do compositor. Mas, pouco mais de vinte anos depois, é como se subisse ao palco pela primeira vez – sem cortes e com as revisões feitas pouco antes da morte do autor, descobertas no início deste ano pelo seu filho Alessandro.

Cena de ‘Alma’, de Claudio Santoro, no Festival Amazonas de Ópera (Michael Dantas/Divulgação)

“É uma edição nova, com muitas correções de notas, intenções dramáticas, e acréscimos importantes”, diz o maestro Marcelo de Jesus, responsável pela direção musical do espetáculo, que integra a programação do Festival Amazonas de Ópera, que encerra esta semana sua vigésima segunda edição. “Foi um trabalho intenso de revisão, de redescoberta do sentido dramática da obra”, completa.

O centenário de Santoro (1919-1989) tem permitido uma reavaliação de seu legado. Desde o fim do ano passado, a Orquestra Filarmônica de Goiás está gravando todas as suas sinfonias – e o maestro britânico Neil Thomson, responsável pelo projeto, não esconde a admiração pelas obras que, segundo ele, possuem importância, no cenário da música do século XX, comparável à de Dmitri Shostakovich.

No final de junho, por sua vez, o barítono Paulo Szot vai registrar com o pianista Nahim Marun todas as canções do compositor; e, em todo o Brasil, suas obras têm sido programadas por orquestras e conjuntos de câmara, revelando um conjunto de obras que vai do nacionalismo à vanguarda mais experimental.

Nesse contexto, o resgate de Alma é um marco importante. A ópera é baseada em texto de Oswald de Andrade, a primeira parte da trilogia Os Condenados. O autor leu trechos do romance na Semana de Arte Moderna, em 1922, provocando grande comoção e dividindo a crítica, tanto pela forma quanto pelo conteúdo.

O enredo é intenso, violento na sua ruptura com a ideia do amor romântico. A prostituta Alma sofre nas mãos do cafetão Mauro, do qual não consegue se distanciar; de outro lado, há o telegrafista João do Carmo, apaixonado por ela mas incapaz de viver ao seu lado, o que eventualmente o leva a cometer o suicídio.

“Santoro mantém a estrutura fragmentada, quase cinematográfica do romance”, afirma Jesus. “Isso é muito interessante do ponto de vista dramático, mas cria uma dificuldade na hora de narrar a história. A cada parágrafo estamos em um lugar diferente, em um tempo diferente, é algo profundamente moderno”, explica a diretora cênica Julianna Santos, que criou no palco – apoiada pela brilhante cenografia de Giorgia Massetani – diferentes caixas, planos, que se sobrepõem.

Na montagem manaura, coube à mezzo soprano Denise de Freitas interpretar o papel título, em um dos grandes momentos de sua carreira. Alma está quase todo o tempo no palco. “Mas não é só isso. Você interpreta uma cena e, de repente, seis meses se passaram na história. Em questão de segundos, você precisa incorporar uma outra mulher, que naquele tempo passou por mudanças traumáticas, como a morte do filho. Essa capacidade de se adaptar muito rapidamente é fundamental”, ela explica.

Do ponto de vista musical, Santoro cria uma partitura que carrega forte caráter experimental, convivendo com outras passagens de um lirismo tocante, como o tema com que a ópera se inicia. Gisele, após a apresentação, conta que a melodia vem de uma canção que o marido escreveu para ela. “Ele então pediu que eu colocasse a letra”. E ela ainda se lembra? A voz, baixinha, cantarola. “Meu amor me disse adeus / Foi-se embora e se esqueceu de mim / Ó meu bem, não quer voltar / Ó, por que não quer voltar? / Se a dor de me fazer tão longe assim vai me matar / Meu amor me disse adeus / Vou chorar”. E ela então abre um sorriso. “Hoje estou muito feliz”.

Acordo prevê colaboração entre teatros do continente

O secretário especial de Cultura do Ministério da Cidadania Henrique Medeiros Pires e a diretora administrativa da Ópera Latinoamérica Paulina Ricciardi assinaram no domingo à tarde, em Manaus, um acordo de colaboração no qual o governo brasileiro reconhece a ópera como “gênero relevante para a cultura brasileira” e se dispõe a colaborar na “convergência de esforços para o fomento e intercâmbio de montagens”.

A Ópera Latinoamérica reúne cerca de trinta teatros e companhias de ópera do continente. O termo assinado é o primeiro passo para que a entidade busque financiamento junto a instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento para investir na criação de uma rede de produções e profissionais – parcerias similares devem agora ser assinadas pelos governos de países como a Argentina e o Chile.

A assinatura aconteceu após um encontro de profissionais que discutiu a Ópera e a Economia Criativa em Manaus, dentro da programação do Festival Amazonas, aberto pelo secretário de estado da cultura do Amazonas, Marcos Apolo Muniz. Nele, Flávia Furtado, diretora executiva do evento, mostrou números a respeito do impacto econômico do festival, que gera mais empregos e renda do que setores da Zona Franca de Manaus. René Coronado, diretor da Ópera da Colômbia, seguiu no mesmo caminho, assim como Trinidad Zaldivar, chefe do Departamento de Economia Criativa do BID. “Todas as sociedades que buscaram novos níveis de desenvolvimento econômico em algum momento entenderam que era preciso antes de mais nada investir em educação e em cultura”, disse.

 O presidente da Academia Brasileira de Música João Guilherme Ripper, por sua vez, mostrou a importância de se estruturar uma rede de parceria entre teatros brasileiros – e sugeriu ao ministério a criação de uma secretaria especifica para a ópera, que facilitasse o diálogo entre instituições.

Questionado pelo Estado, Pires disse que é algo a se pensar. “Mas a ópera, de qualquer maneira, já tem recebido um tratamento diferenciado. Nas mudanças na Lei Rouanet, por exemplo, ela foi tratada como exceção no que diz respeito à limitação do teto de investimento, o que a tornaria inviável”, disse.

Marcos Apolo Muniz, Henrique Pires e Paulina Ricciardi durante assinatura de termo de colaboração em Manaus (Michael Dantas/Divulgação)

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