Essa forma de arte cara, inacessível e de elite…

João Luiz Sampaio

02 de agosto de 2013 | 20h55

O barítono Thomas Hampson concedeu há alguns dias uma entrevista ao programa “Hard Talk” da BBC. A verdadeira estrela, porém, foi a entrevistadora – e as considerações que ela fez sobre a ópera. Na abertura do programa, ela se refere ao gênero como “a forma de arte menos frequentada pelo público, destinada a uma pequena elite”. Plateias, diz, estão compostas apenas por “gente de cabelo branco com mais dinheiro do que os outros” – e uma ópera de 1857 (no caso, “Simon Boccanegra”, de Verdi) é velha demais para dizer algo a plateias dos dias de hoje. O que dizer, então, de obras da literatura, do teatro, das artes plásticas, muito mais antigas do que isso? E não adiantou nada Hampson lembrar que uma ópera como “Simon” trata de temas bastante atuais, afinal, “a história vem envolta em camadas de música clássica” que tiram dela o significado.

É fácil criticar a apresentadora do programa, mas também é preciso reconhecer que ela nada mais fez do que reproduzir clichês que o senso comum há muito associa à ópera. Tudo bem, espera-se um pouco mais de um jornalista mas, ainda assim, ela definitivamente não está sozinha em suas percepções. Basta lembrar que, quando o Teatro Municipal de São Paulo foi alvo de vandalismo durante uma manifestação em junho, foram muitos – entre eles, artistas – que se aliaram ao coro que defendia a ideia de que o teatro era um alvo natural e simbólico, afinal, é um espaço da burguesia e, assim, símbolo da desigualdade e de boa parte do que está errado no País.

De qualquer forma, algumas das questões colocadas pela jornalista da BBC são fáceis de contradizer. A principal delas: os preços. Ao menos no cenário brasileiro, a noção de que concertos têm preços impeditivos já caiu por terra há muito tempo. Na semana passada, por exemplo, Bruce Springsteen anunciou shows no Brasil – o preço do ingresso mais barato, R$ 240, equivale ao dobro do valor do ingresso mais caro para um concerto da Osesp, a principal orquestra do País, na Sala São Paulo, ou a seis vezes o valor mínimo desembolsado para assistir “Aida”, de Verdi, que estreia na semana que vem no Municipal de São Paulo – onde, com o valor médio de um ingresso de cinema na rede Cinemark, R$ 24, você pode também assistir a um concerto.

Não se trata, portanto, de uma questão financeira. Educação? A certa altura da entrevista, a jornalista sugere que é preciso conhecimento prévio para se assistir um concerto ou uma ópera e que, sem ele, é impossível aproveitar o espetáculo. Hampson concorda em parte, dizendo que informações adicionais sempre ajudam. Mas faz uma ressalva: as pessoas não sentem que precisam de conhecimento prévio para ir a uma exposição de obras do Renascimento: simplesmente vão ao museu, se colocam perante a obra e ela vai despertar nelas algum tipo de sensação, que não precisa ter necessariamente algo a ver com considerações técnicas ou biográficas a respeito do quadro e seu autor. Elas simplesmente “sentem” o quadro – e esta é uma experiência prazerosa e enriquecedora o suficiente.

Podemos gostar disso ou não, mas a ópera tornou-se símbolo do passado – ou pior, de uma postura passadista. De certa forma, o descaso com novas criações e a aposta quase que exclusiva na reinterpretação do repertório tradicional fazem com que, enquanto gênero, ela se distancie da vida contemporânea. Afinal, uma obra do passado pode iluminar o presente – mas o vai fazer de acordo com limites formais (o texto, a estrutura narrativa e dramática) propostos por valores, padrões e referências estéticas de uma época que não é a nossa. E, no momento em que abrimos mão da experimentação da forma – e o modo como ela se articular nosso tempo –, equiparamos a ida ao teatro de ópera a um passado com o qual temos relação apenas distante.

Propõe-se, então, temporadas apenas com obras novas? É claro que não. E aí entra um outro ponto importante. A ópera padece de um sério problema de imagem. Se é seis vezes mais barato ir a uma récita de “Aida” no Municipal do que assistir ao show de Bruce Springsteen, por que o senso comum sugere o contrário? Estamos falando da percepção das pessoas – e é com ela que é preciso lidar. O marketing pessoal do gênero – ou melhor, dos teatros que o praticam – é péssimo. Óperas e clássicos em geral sempre foram e ainda são bancados pelo poder público. E isso levou a uma certa passividade – afinal, apesar das intempéries, de mais ou menos verbas ou reconhecimento dentro das gestões culturais, a subsistência mínima sempre esteve garantida. Falemos francamente. Se a cultura é uma indústria, a ópera é um de seus produtos. E, não importa a qualidade do seu produto, você precisa convencer outros a prestar atenção em você e no que você tem a dizer. Goste-se ou não, esta é uma realidade – e é preciso conhecê-la até para que se possa transformá-la.

Que a ópera tem algo a dizer a nossa época, ninguém parece discutir. Como fazer esse diálogo acontecer, no entanto, é algo que deve preocupar constantemente aqueles responsáveis pela gestão do gênero no País.

Abaixo, a entrevista da BBC

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