Erwartung e os estados da alma

João Luiz Sampaio

30 de outubro de 2009 | 11h42

Já se passou um século e o monodrama “Erwartung”, de Arnold Schoenberg, escrito em 1909, continua como uma das mais impactantes recriações modernas do drama lírico. A música dura pouco mais de meia hora e é uma pancada na boca do estômago: uma mulher sem nome vaga por uma floresta densa, iluminada apenas pela luz da lua; busca seu amante, sabendo-se traída, e se depara com um corpo. É ele? Quem o matou? Uma outra mulher? Ela mesma? Não sabemos. Mas pouco importa. Theodor Adorno chamou “Erwartung” de “o retrato sismográfico de um choque traumático”. Mais do que um enredo, o que vemos no palco é a teia difusa de sensações, medos, histerias de uma mulher. Do ser humano. E não por acaso é um desafio tão grande levar a ópera ao palco, como o fez o Palácio das Artes de Belo Horizonte ao longo da última semana, com regência de Abel Rocha, direção cênica de Gilberto Gawronski e interpretação da soprano Eliane Coelho. Schoenberg escreveu “Erwartung” (que pode ser traduzido como Expectativa) a partir de libreto de Marie Pappenheim, médica vienense que, apesar das incursões pela dramaturgia, se recusou, em suas palavras, a “errar pela vida como mera poeta lírica”. Seu texto se forma a partir de um punhado de sentenças fragmentadas. Não há interação entre personagens e o enredo é reduzido à mínima expressão. A história existe em certa medida apenas dentro da cabeça da personagem – o cenário, esta floresta que se adensa perante a luz enigmática da lua, é a metáfora perfeita de uma mente que delira, espera, relembra, sofre, ama, tem ciúmes, arrepende-se e anseia pelo amante, que, eventualmente, lhe é apresentado sem vida. Gawronski entende o monólogo como a tentativa de matar dentro de si mesmo o amor. Nesse sentido, é também toda uma época que está morrendo, é também o romantismo que se fecha na medida em que é aberta a porta em direção ao inconsciente.

Se todos os lances da trama encontram ponto de convergência no inconsciente, então funciona muito bem a decisão de fazer cada elemento da produção – os cenários de Adriana Varejão, os vídeos de Eder Santos, a luz de Telma Fernandes e os figurinos de Ronaldo Fraga – dialogar como parte de um mesmo universo. Da mesma forma, funciona bem a interferência, antes do início da ópera, do texto do poeta Guilherme Mansur, “Barcolagem para Erwartung”, ou então a “sinopse” escrita para o programa por Ivo Barroso. “Ei-la que chega ao bosque emaranhado das boas intenções e amargos desenganos desta vida. Vem à minha procura… As árvores… os galhos… as sombras… as suspeitas… tateia tudo com indecisão… Qualquer ruído a assusta… o som do vento na folhagem… a luz da tua pálida… ‘ali sozinha… num sonho sem limites e sem cores… pois seu limite era o lugar onde eu estava… e todas as cores deste mundo brilhava nos meu olhos’… (…) Ah, dói-me a crueldade. Tremi quando afoguei o amor antigo, o sonho conjunto que por um tempo sonhamos acordados. Mas que fazer? O amor é uma desgraça que se disfarça de bem. Um malefício mascarado de bênção. Uma tortura fantasiada de prazer. Uma bebida mortal que ingerimos com a volúpia de quem faz um brinde. Um equívoco que é a razão de todo acerto desta vida.” Quem se arriscaria a definir melhor?

A partitura de Schoenberg, assim como o libreto, desmonta a linearidade da sintaxe, liberta-se das estruturas da tonalidade; pequena células temáticas vão sendo transformadas incessantemente ao longo da execução; as flutuações de andamento também respeitam os impulsos psicológicos da personagem. A linha vocal assume, em certos momentos, envergadura wagneriana, pesada; em outros, transmuta-se em música de câmara. Não oferece à soprano um só momento de descanso. E a clareza das texturas da escrita musical a deixa nua sobre o palco. Torna-se, assim, fundamental uma concepção de interpretação que, do fosso, dê segurança e senso de conjunto ao espetáculo. Por conta disso, se nesse emaranhado de referências que é o espetáculo apresentado em Belo Horizonte é possível eleger um destaque, talvez seja justamente equilíbrio entre a regência de Abel Rocha (à frente da excelente Filarmônica de Minas Gerais) e o canto de Eliane Coelho, soberba, em domínio completo da cena, oferecendo interpretação memorável para esse “estudo assustadoramente intenso sobre os estados da alma”, na palavra de um crítico que acompanhou a estreia da ópera nos anos 20. Bem que poderia ter sido ontem.

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