Enquanto o João não vem

João Luiz Sampaio

28 de agosto de 2009 | 19h23

Neste momento em que o João Luiz está desfrutando de suas merecidíssimas férias, estou cobrindo a sua ausência na redação do Estado, ajudando na reportagem. Vocês sabem que os imperativos de espaço, em jornal, obrigam-nos, muitas vezes, a fazer cortes em nossas matérias, deixando de lado algumas informações ou comentários acessórios, que nos foram sugeridos durante o espetáculo. Os dois concertos regidos pelo maestro húngaro Gábor Ötvös, entre 20 e 29 de agosto, foram tão bons, que pedi ao João que me abrisse um espaço, em seu blog. Quero aqui dar testemunho do quanto valeu a pena tê-lo escutado, e aos nossos músicos. Para vocês todos, meus companheiros do blog, o meu abraço. Lauro Machado Coelho.

Sexta feira, 21 de agosto.

O pavão, para os húngaros, sempre foi um símbolo de liberdade. “Leszállott a páva vármegye házára, a szegény raboknak szabadulására”, diz o texto da canção em que Zoltán Kodály baseou suas Variações sobre uma Canção Húngara: “O pavão pousou na cadeia, para libertar os pobre prisioneiros”. Exposto pelas cordas graves, a clarineta, a trompa e o oboé, o nobre e tristonho tema pentatônico dessa canção folclórica é, em seguido, desenrolado por Kodály numa tapeçaria de dezessete cintilantes variações.

A concepção de Gábor Ötvös, na sexta-feira, frente à Osesp, visou certamente a uma unidade maior da peça, com isso dando preferência a andamentos mais rápidos, ainda que isso nivelasse o tom da obra, sacrificando um pouco a variedade de tempos e de coloridos instrumentais. O que não impediu o virtuosismo dos jogos que a flauta e a clarineta fizeram na nona variação; ou o orientalismo da décima, com seu saltitante pizzicato. Elegíaca no dialogo do corne inglês com a clarineta e o oboé da variação 12, que é seguida de uma marcha fúnebre; explorando os contastes entre as volutas da flauta e do pícolo, envoltos pela harpa, na variação 14; a Osesp levou a um finale suntuoso esta peça que, escrita em 1938, na Hungria dominada pelo governo fascista do almirante Miklós Horthy, soa como um corajoso grito de protesto.

Na Sinfonia nº 2, com que Gábor Ötvös deu início a seu programa, Kurt Weill retorna, em 1933, no momento de deixar para sempre a Alemanha, à tradição sinfônica de seu país, embora temperada pela ironia mordaz de sua experiência como músico de teatro. Ötvös mostrou-se muito à vontade nessa rara peça sinfônica da carreira do companheiro de Brecht. Ao lirismo desolado, quase trágico, do Largo em forma de marcha fúnebre, fez somarem-se traços reminiscentes das canções de cabaré de suas óperas. Mas foi no Allegro vivace/alla marcia, com que a sinfonia se encerra, que Ötvös e a Osesp melhor mostraram esse cruzamento, ao construir um rondó em que, aos ritmos dançantes de tom popular, junta-se o tema da marcha fúnebre mas, agora, num declarado tom de caricatura, de ressonâncias mahlerianas.

A verdadeira chave de ouro dessa apresentação de sexta-feira ficou para a segunda parte em que, com rigorosa atenção ao fraseado, mas com uma liberdade rítmica que deixava a partitura respirar, ao sabor de bem controladas flutuações de andamento, Ötvös realizou a Sinfonia nº 2 em ré maior op.36, de Beethoven. E o fez de maneira a deixar clara a sua posição de obra de transição, de ponte entre a elegância do classicismo, e a revolução da Eroica que, de certa forma, ela já faz pressentir.

Mantendo-se fiel a uma nobre tradição germânica de leitura beethoveniana, que ele faz soar com um frescor bem moderno, Ötvös desenhou com refinamento tanto o gracioso tema do Larghetto, cantado pelas cordas e retomado pelas clarinetas e fagotes, quanto a agilidade do Allegro seguinte – o primeiro a receber de Beethoven o nome de scherzo, e cujo trio, no oboé e fagote, possui nítido tom popular. E no tratamento livre dado ao Allegro molto do finale, com sutilezas na passagem das seções em pianíssimo para aquelas cheias de vigor, conduzindo à coda em que as tensões se resolvem, Ötvös mostrou a familiaridade que tem com esse repertório do início do século 19.

Quinta-feira, 27 de agosto.

A segunda apresentação de Gábor Ötvös, na quinta-feira, confirmou o acerto da política iniciada pelo maestro Neschling, na Osesp, de enquadrar, com duas obras conhecidas e populares, uma importante peça pouco conhecida do público. Assim, pilares do repertório, de Prokófiev e Dvorák, acompanharam o Concerto para Viola op. póst. de Béla Bartók, admiravelmente executado pelo violista chileno Roberto Díaz. Foi o mesmo princípio que norteou, anos atrás, terem acoplado Nelson Freire tocando o nº 2 de Rachmáninov, à revelação, para o público da Osesp, da Cantata Profana, de Bartók, e do Psalmus Hungaricus, de Kodály.

É difícil saber o que seria o Concerto para Viola, se Bartók o tivesse podido terminar. Quando ele morreu, em 26 de setembro de 1945, a peça ainda não estava orquestrada, e Tibor Serly, o seu aluno predileto, a terminou. Mas a linha do solista – que Béla discutira com o violista inglês William Primrose, que encomendara o concerto – estava virtualmente pronta. E a ela, a a sonoridada encorpada do instrumento de Díaz deu um relevo excepcional. Desde a exposição do primeiro tema, no Allegro moderato, ele manteve a proeminência da viola, mesmo quando a orquestra se adensa um pouco, fazendo soar, após a magnífica cadência, o belo solo de fagote que opera a transição para o Adagio religioso.

Na melodia estaticamente meditativa desse movimento de forma ternária, que Díaz plasmou com uma contida emoção, está o epicentro dessa perturbadora música, escrita por um homem que sabe que está morrendo e, nela, faz sua última declaração de crença na vida – traduzida na fogosa seção central, Allegretto, de que Díaz extraiu todo o efeito virtuosístico. O Finale: Allegro vivace é o movimento mais sumário, e talvez tivesse sido mais extenso, se Bartók tivesse podido revê-lo. Mas em seu moto perpétuo, de intenso sabor húngaro, a que Díaz imprimiu o impulso rítmico que torna a música de Bartók inconfundível, está a despedida da terra que ele sempre amou, e que nunca mais veria.

Ao acompanhá-lo, Ötvös e a Osesp se empenharam – ao mesmo tempo que abriam todo o espaço para o discurso da viola –, em explorar o que a escrita orquestral tem de melhor, em especial os momentos que nos trazem à mente ecos do Concerto para Orquestra, a última peça orquestral de Bartók. Ouvindo essa grande despedida da vida, entendemos porque, momentos antes de entrar em coma, Béla disse a seu médico: “O mais triste, doutor, é que estou indo embora com a minha bagagem cheia.”

E ouvir Roberto Díaz dar, no extra – o movimento Rapidíssimo da terceira sonata de Hindemith para viola solo – uma demonstração da soberba escola de instrumento que tem, impõe a pergunta: por que Tortelier, que é um reconhecido bom intérprete de Hindemith, não o traz de volta, no futuro, para tocar aqui Der Schwanendreher, para viola e orquestra?

A Sinfonia nº 1 em ré maior op. 25 “Clássica”, de Serguêi Prokófiev, com que o programa foi aberto, foi realizada por Ötvös e a Osesp com uma transparência de texturas e elegância de fraseado que se deliciou com o transbordante bom-humor dessa peça. E mais: eles a tocaram de modo a fazer sentir que, ao retomar o modelo clássico, Prokófiev permanece russo dos pés à cabeça – é como se Iósif Haydn tivesse nascido em Sontsóvka, em 1891.

O título da sempre estimada Sinfonia nº 9 em mi menor op. 95 “Do Novo Mundo” fica mais claro, se nos lembramos do título em inglês “From the New World”. Não é uma sinfonia “sobre a América”, mas a obra nostálgica de um homem que, longe de casa, sente saudades de seu país e conta nos dedos os minutos que faltam para voltar a vê-lo. Ötvös teve isso sempre em mente, ao levar a Osesp neste passeio pela última sinfonia do compositor tcheco.

O tema cíclico de sabor boêmio, que estará presente em toda a sinfonia, e o ritmo de polca que marca o segundo tema do Adagio-allegro molto, criam o clima da obra. Mas foi no Largo que o corne inglês de Natan Albuquerque Jr., a flauta e o oboé de Jéssica Dalsant e Arcádio Minczuk, ou o violino de Cláudio Cruz, recriaram toda a magia das citações de temas americanos que se entrelaçam, contrastando com o ritmo exuberante dos ritmos de dança da Europa central com que se constrói o Scherzo molto vivace seguinte. Tratamento de vigorosa liberdade rítmica foi o que Ötvös deu à citação, no Allegro con fuoco, da canção americana sobre os “Três ratinhos cegos”, envolta numa roupagem wagneriana – que, apesar da ligação forte do compositor com Brahms – é uma prova da sua liberdade e independência de espírito.

Ouvir Ötvös tocando Dvorák, mostrou o quanto ele compartilha a crença bartokiana de que a música – Béla fez pesquisas não só do folclore húngaro, mas também do eslovaco, romeno, tcheco e até do arabe – poderia, numa época de grandes conflitos, ser o elo de solidariedade entre os homens. Lição mais do que nunca atual, quando vemos intelectuais do porte de Edward Said e Daniel Barenboim recorrerem à música, como uma forma de reaproximação no conturbado Oriente Médio. Todas essas reflexões nos levam a crer que esta apresentação de Gábor Ötvös coloca-se entre os concertos mais notáveis a que pudemos assistir este ano.

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