Eleazar de Carvalho, inédito

Eleazar de Carvalho, inédito

João Luiz Sampaio

17 de junho de 2012 | 09h47

Eleazar de Carvalho está ao centro, terno escuro, sorriso descontraído. Ao seu lado, um grupo aprumado de jovens alunos. O cenário é Tanglewood, casa do festival de verão da Sinfônica de Boston – e, entre os estudantes, em início de carreira, estão Zubin Mehta e Claudio Abbado, que se tornariam dois símbolos da arte da regência nas últimas décadas. Se uma imagem vale mesmo por mil palavras, a foto, do começo dos anos 50, é um discurso contundente a respeito da importância do maestro brasileiro no cenário musical da segunda metade do século 20 – assim como cerca de 30 gravações inéditas, feitas na Europa e nos Estados Unidos, às quais o Estado teve acesso exclusivo.

Nascido em Iguatu, a 300 quilômetros de Fortaleza, Eleazar de Carvalho foi o maestro brasileiro de mais representativa carreira internacional. Regeu 43 orquestras na Europa, 18 nos Estados Unidos – entre elas as filarmônicas de Viena, Berlim e Nova York, além das sinfônicas de Boston, Londres e Paris. Deu aulas, além de Tanglewood, na Julliard School e na Universidade de Yale. No Brasil, dirigiu a Osesp, a Sinfônica Brasileira, as orquestras do Recife, de Porto Alegre e da Paraíba e o Festival de Inverno de Campos do Jordão.

Em 2012, mais precisamente no dia 28 de julho, completam-se 100 anos de seu nascimento. As homenagens, até agora, têm sido discretas. Osesp, OSB e Filarmônica de Minas Gerais programaram concertos comemorativos, regidos por alguns de seus alunos. E, em seu site, a fundação que leva seu nome confirma para julho o festival realizado anualmente em Fortaleza, em sua homenagem. Vivo na memória de quem trabalhou com ele ou o viu em ação, porém, o legado do maestro, que morreu em setembro de 1996, continua desconhecido das novas gerações.

O Estado teve acesso exclusivo a registros de Eleazar, em posse de sua primeira mulher, a pianista e compositora Jocy de Oliveira. Feitos ao vivo na Europa e nos Estados Unidos e guardados desde os anos 60, eles foram digitalizados e esperam apoio para vir à luz – tentativas de patrocínio para edições até agora foram frustradas. “Estão todos no meu acervo, mas não são meus, permanecem à disposição de quem quiser lançá-los”, diz Jocy que, no ano passado, bancou a passagem das fitas de rolo para arquivos digitais, feita em um estúdio no Rio.

Bastante representativo, o conjunto de gravações é apenas um pedaço de um todo que se imagina ainda mais amplo. No site da Filarmônica de Berlim, por exemplo, há referências a cinco concertos do maestro, um deles com a pianista Martha Argerich como solista. A Fundação Padre Anchieta também tem em seu acervo registros ao vivo, feitos pela Rádio e TV Cultura, de concertos da Osesp em São Paulo e Campos do Jordão – eles serão exibidos ao longo do segundo semestre, mas a fundação não soube precisar a quantidade de fitas disponíveis. O Centro de Documentação Eleazar de Carvalho, pertencente à Osesp, não tem arquivos em áudio, apenas documentos e recortes de jornais referentes ao período em que ele dirigiu a orquestra. A pianista Sônia Muniz, viúva do maestro e guardiã de seu acervo, não atendeu aos pedidos de contato feitos pela reportagem ao longo da semana.

“Seja no que diz respeito ao repertório, seja no tocante à técnica, o Eleazar foi um divisor de águas na história da música brasileira”, diz o professor Henrique Autran Dourado, diretor do Conservatório de Tatuí, que trabalhou com o maestro na Osesp nos anos 80. “Com sua forte personalidade e indiscutível competência, ele foi o grande parâmetro para várias gerações de regentes e músicos brasileiros”, diz Fábio Mechetti, diretor da Filarmônica de Minas Gerais, que foi aluno de Eleazar, no Brasil e em Tanglewood.

Variedade. Os registros do acervo de Jocy de Oliveira dão testemunho dessa importância. Gravados na Europa e nos Estados Unidos nos anos 50 e 60, mostram um repertório amplo, aberto à música contemporânea. E, de quebra, oferecem um olhar sobre seu pouco conhecido trabalho como compositor, com a interpretação de “Variations on two Rows for Percussion and String Orchestra”, escrito por ele nos Estados Unidos. “Ele tinha uma técnica clara, que o permitia reger qualquer coisa”, lembra Jocy, que atua como solista, ao piano, em boa parte dos registros. “Era genial montando a interpretação de uma obra durante os ensaios. E, na hora do concerto, transformava-se em um ator, tinha aquela chama que conquistava o público de imediato.”

Na lista, estão cavalos de batalha do maestro. De Villa-Lobos, há o registro do “Momoprecoce” (Orquestra da Rádio e Televisão Belga, 1959), dos “Choros n.º 10” (Filarmônica de Nova York, 1959) e do “Descobrimento do Brasil” (Filarmônica de Nova York, concerto realizado na ONU em 1959). Também na ONU, há a gravação de uma interpretação da “Nona Sinfonia” de Beethoven – entre os solistas, a soprano Elisabeth Schwarzkopf e o tenor Jan Peerce, dois dos principais cantores da época.

Quando chegou aos Estados Unidos, nos anos 40, Eleazar tentou uma vaga na orquestra da Filadélfia. Rechaçado, rumou para Boston, onde procurou o maestro Sergei Koussevitzky. Depois de reger a sinfônica, foi aceito no restrito time de assistentes do maestro russo, ao lado do norte-americano Leonard Bernstein. Daí a importância histórica dos registros com a Sinfônica de Boston. Neles, interpreta o “Concerto para Piano” de Ravel (com Jocy, 1956), “Petruchka” de Stravinski (1956), a “Sinfonia n.º 4” de Tchaikovsky (1962), e as “Seis Peças para Orquestra” de Webern (1959), entre outras.

Para Autran Dourado, a preocupação com a música contemporânea foi potencializada com o casamento com Jocy, que como intérprete e compositora mantinha relação estreita com a vanguarda. Prova disso é um concerto de Paris, em 1964, em que rege, à frente da Orquestra da Radio France, peças de Elliot Carter, Darius Milhaud e Stravinski.

No repertório brasileiro, há ao menos uma preciosidade – “Música Concertante”, concerto dodecafônico para piano e orquestra de Claudio Santoro, gravado na Bélgica em 1964. “Foi a primeira audição mundial da obra – e, até onde sei, nunca mais foi interpretada, o que é uma pena, pois é símbolo de um momento importante da carreira do Santoro. O Eleazar tinha uma relação curiosa com compositores vivos. Conversava com eles, uma, duas vezes, e depois queria liberdade para ensaiar. Mas dava a eles todo o espaço que conseguia em seus concertos. Quando comandou a Orquestra de Saint-Louis, ouvia constantemente reclamações da direção por conta da inclusão do repertório contemporâneo em seus concertos”, diz Jocy.

Leia o artigo “Orquestras estão devendo homenagem à altura do maestro”, de João Marcos Coelho

Ouça um trecho da gravação do “Momoprecoce”, com Eleazar de Carvalho e Jocy de Oliveira

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